AFP PHOTO / TASSO MARCELO
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Bons shows dos ‘camisas pretas’ contrastam com uso publicitário do gênero

Entre os destaques do sábado no Rock in Rio, o duo Royal Blood

João Paulo Carvalho, Julio Maria e Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

20 de setembro de 2015 | 00h42

Rio - Ninguém no show biz brasileiro sabia que eles existiam, eram fortes e andavam em grupo em 1985. Que usavam roupas escuras e preferiam não ter seus ídolos incomodados por atrações de menor atitude na mesma noite. E, então, vieram as vaias. Lobão, Carlinhos Brown, Erasmo Carlos. “Como a gente iria adivinhar que eu seria vaiado em 1985? Ninguém nem imaginava que havia um grupo de metaleiros que não suportava a música que eu fazia”, disse Erasmo ao Estado, sobre sua escalação para a noite dos ruídos de 1985. 

Foi assim, na base da marra, que o metal (um nome genérico para represar as nuances do rock de maior agressividade) ganhou cadeira cativa. Trinta anos depois, ele é uma espécie de resistência do próprio rock dentro de um festival de música pop, marketing e rodas-gigantes.

Uma volta pela Cidade do Rock antes mesmo que as atrações começassem a ocupar seus lugares, como o Gojira, que não empolgou o público engajado na abertura do Mundo, poderia deflagrar um estado depressivo nos mais fundamentalistas. Pois, quando todo mundo começou a aumentar seus amplificadores depois que o Led Zeppelin surgiu, os cabelos compridos e as tatuagens se tornaram cada vez mais a negação de um mundo vendido.

O palco ganha atitude quando tem sobre ele o jovem duo Royal Blood, com um baixista ilusionista, Mike Kerr, que faz todos se perguntarem, afinal, de onde sai o som da guitarra que se ouve e nunca se vê. Mistérios pré-gravados ou executados que ele guarda com o baterista Ben Thatcher. E ganha respeito mesmo na fórmula sem inovações do glam rock do Mötley Crüe, uma banda de aposentadoria anunciada para o fim do ano que continua abrindo seus shows com Girls, Girls, Girls.

A alguns passos dali, embaixo de uma lata gigante da Pepsi, na Rock Street, uma banda de integrantes competentes fazia um hardcore cheio de sangue e verdade. O guitarrista solava com os cabelos tomando o rosto e o vocalista fazia gestos enquanto cantava letras contra o sistema opressor. O baterista ficava mais ao fundo, como se estivesse dentro da lata de Pepsi, a empresa que pagava seus cachês.

Ativações de marketing conservavam em filas fãs com camisetas do Metallica, do Korn e do AC/DC que queriam ganhar brindes do Banco Itaú, cantar músicas contra o sistema opressor em um palco da Volkswagen e posar para fotos com uma guitarra no estande da Doritos. Uma estação da empresa de telefonia Oi convidava fãs do guitarrista Slash para tirarem fotos com a cabeça encaixada em uma cabeleira gigante, que remetia à marca registrada do músico. No espaço da Sky, John Cruz, designer das guitarras Fender, recebia fãs e jornalistas para promover a marca que pagava seu cachê.

A atitude passa pela máquina coletora do Rock in Rio, cai nas esteiras do marketing de seus patrocinadores e volta em forma de sabonete. O próprio fã está ali por uma questão de comunicação publicitária, útil sem saber a uma empresa disposta a associar sua imagem ao espírito de liberdade e ousadia. Mesmo que esta ousadia já esteja domesticada. 

Roberto Medina, idealizador do festival, tenta entender a presença do metal. “Creio que, de todos os gêneros, é ele que está mais associado ao rock em estado puro. Não iam fazer isso com o Bon Jovi”, refletiu.

Há que se reconhecer a habilidade do Rock in Rio em ter compartilhado um mesmo território entre fãs dos aparentemente indóceis Mötley Crüe e Korn e interesses comerciais milionários de donos de banco ou marcas de salgadinhos. Ali, todos podem brincar juntos, desde que ninguém leve muito a sério esse papo de sistema opressor.

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