Norman Jean Roy
Norman Jean Roy

Bon Jovi comemora a boa fase após a saída de Richie Sambora em nova turnê pelo Brasil

Banda se apresenta em Porto Alegre, no Rock in Rio e no São Paulo Trip

Pedro Antunes , O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2017 | 06h01

Tico Torres fala ao Estado enquanto visita a mãe na casa dela, em Nova Jersey, cidade que testemunhou o surgimento e a ascensão da banda na qual ele toca bateria, o Bon Jovi, dos pequenos clubes até os maiores estádios e arenas do mundo. E é um momento interessante esse agora. Anos e mais anos de estrada depois, o Bon Jovi não precisa mais correr contra o tempo. É como se os versos do hit de 2000, It's My Life, não precisassem mais ser levados tão à risca. Toda a urgência de “it’s now or never” – ou “é agora ou nunca” na tradução livre para português – já ficou para trás. 

“Estamos indo mais devagar, mesmo”, admite o baterista da banda que tem 34 anos de carreira. O último ano no qual o Bon Jovi fez mais de 100 apresentações em um ano – e isso inclui participações musicais em emissoras de TV – foi em 2013. E, de acordo com o Tico – e ele fala por toda a banda – é hora de pisar no freio. Não que o Bon Jovi irá acabar, ou coisa parecida, ele garante. 

“Pensa nisso: 100 performances em um ano. Isso é muita coisa. E quando chega ao fim, estamos esgotados”, diz Tico. “Acho que faz sentido, depois de tanto tempo, temos a possibilidade de sermos mais seletivos. Afinal, você precisa ter tempo para ser uma pessoa comum. É isso que faz com que a gente consiga produzir boas canções, afinal. Não é?” 

Com o pé no freio, o Bon Jovi esperou para viver a ausência de Richie Sambora, o guitarrista também integrante dos primeiros anos do grupo. Richie saiu em 2014. Os dois lados, banda e músico, dizem não existir “bad blood” ou qualquer mágoa, mas Tico conta que foi preciso maturar a ideia de que o Bon Jovi seguiria sem a presença de Sambora, um dos grandes heróis da guitarra da sua geração fã de coletes jeans, franjas e cabelos longos. 

O retorno aos estúdios, transformado no álbum This House Is Not for Sale, comprovou como o tempo longe das estradas e até sem mais os atritos com Sambora fizeram um bem danado ao Bon Jovi. O tempo ainda pode ser um aliado, afinal de contas. O álbum, o 13º da trupe de ex-arruaceiros de coração partido de Nova Jersey, estreou logo no topo da parada Top 200 da Billboard, nos Estados Unidos, normalmente dominada por artistas do universo pop e dançante. Nos créditos do disco estão Phil X, o novo guitarrista, e Hugh McDonald, baixista deles desde 1994 e finalmente confirmado como integrante oficial. This House Is Not for Sale também se tornou o sexto do grupo a alcançar o topo. 

É na atual boa fase que o Bon Jovi se prepara para mais uma vez vir ao Brasil, País visitado desde 1990, quando a banda fez uma extensa turnê chamada New Jersey Syndicate Tour para divulgar o álbum New Jersey, lançado em 1988 – dele vieram Lay Your Hands on Me, Born to Be My Baby e a clássica I’ll Be There for You. Por aqui foram 14 shows ao longo dos anos. 

Acrescente-se à conta mais três: em Porto Alegre (Estádio Beira-Rio, dia 19), Rio de Janeiro (Rock in Rio, dia 22) e São Paulo (São Paulo Trip, dia 23). No Rio, a banda encerrará as atividades do Palco Mundo, o maior do festival, depois de Jota Quest, Alter Bridge e Tears For Fears. Em São Paulo, o show também integra a programação de festival – este, contudo, tem suas quatro datas de shows espalhadas pelos dias 21 de setembro a 26. A noite do Bon Jovi terá a abertura do nervoso duo The Kills. E a programação completa do ano do Bon Jovi inclui mais dois shows em Chile e Argentina. Só. 

A não lotar a agenda do ano com shows condiz com o que Jon Bon Jovi declarou nas entrevistas realizadas na época de This House is Not For Sale. Ao The Guardian, Jon, então com 54 anos, fazia piada com a possibilidade de vestir um par de jeans rasgados novamente – como o fez durante décadas. E as palavras ditas por Jon davam conta de um artista que lutava para ser relevante atualmente, com novo material, mas cansado da batalha contra um inimigo o qual nunca se vence: o passado.

Na mesma entrevista, ele dizia não ter vontade de cantar os velhos hits todas as noites que vive em cima do palco. “Eu realmente preciso cantar Livin’ on a Prayer’ mais uma vez? Sim, para sempre – e esse pesadelo me deprime. Preciso entender isso.” Curiosamente, na mesma época, circulou pela internet um vídeo no qual Jon era a estrela. Como convidado de um casamento e de cabelos grisalhos (quase brancos), o vocalista do Bon Jovi foi chamado para cantar exatamente Livin’ on a Prayer’ com a banda do casório. Desconcertado, sem jeito – e sem voz – Jon sorriu amarelo e fez o que pode. 

Tico entende o cansaço do líder da banda, embora justifique a presença dos hits em todas as apresentações. “A primeira coisa é: essas músicas são nossas e adoramos tocá-las”, ele afirma e continua: “E outro ponto passa por aquilo que nós crescemos ouvindo nos palcos. Quando éramos mais jovens, ouvíamos Beatles, Jimi Hendrix. E quem quer que fosse, nós iríamos torcer para ouvir os maiores sucessos. As canções que mais tocam aquelas pessoas. Tentamos, no show, fazer um pouco de tudo. Acho que isso que é o mais importante.” 

Existe, no Bon Jovi, um pacto de lealdade com o público que vai aos shows da banda. É o mesmo público, afinal, que colocou o disco da banda no topo da parada pop norte-americana. E, principalmente, fãs que se colocaram ao lado do grupo mesmo com a saída de Sambora, que era a contraparte de Jon, tal qual Steven Tyler e Joe Perry, no Aerosmith, e Axl Rose e Slash, no Guns N’ Roses – acrescentar à lista o duo Mick Jagger e Keith Richards seria um devaneio e um exagero. No primeiro álbum sem o guitarrista, o sucesso ficou com o Bon Jovi. 

“No fim das contas, cara”, diz Tico, “o que queremos é continuar fazendo boas canções. Músicas que toquem as pessoas.” Depois de tanto tempo, é ótimo nós podermos estar mais perto da nossa família. Isso faz parte da vida. Se só tocarmos, não teremos energia. E se estivermos exaustos, os shows serão ruins. Não queremos isso.”

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