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Bom momento dos documentários chega ao Cine Ceará

Longas de Oskar Alegria e Alejandro Solar Luna são dois pontos altos de mostra

Luiz Zanin Oricchio / Fortaleza, O Estado de S. Paulo

11 Setembro 2013 | 20h53

Fiel à sua tradição de apresentar bons títulos ibero-americanos, o Cine Ceará teve dois pontos altos de sua programação com a apresentação do concorrente espanhol (basco, na verdade) Emak Bakia, de Oskar Alegria, e do mexicano El Paciente Interno, de Alejandro Solar Luna. São dois exemplares de documentários bastante diferentes em estilo, forma e intenção, porém ambos impressionantes. Não há dúvida: o cinema documental vive um boom internacional, do qual o Leão de Ouro em Veneza para Sacro GRA é apenas um sintoma mais evidente.

De qualquer forma, beneficiados pelas novas tecnologias, nos últimos anos os documentários expandiram-se, violaram fronteiras de gênero e apropriaram-se de técnicas narrativas da ficção. É o caso de Emak Bakia, expressão basca que significa “Deixe-me em paz!”. Esse é o ponto de partida de um estudo investigativo de Alegria, tomando por base uma casa, na costa basca, na qual o vanguardista Man Ray rodou, nos anos 1920, um de seus filmes. Que tem exatamente esse título – Deixe-me em Paz. É um trabalho não narrativo, como são os de Man Ray, em tom impressionista, com detalhes da casa e da luz do mar.

Oskar Alegria vai atrás dessa casa basca dispondo de poucos indícios deixados nos fotogramas de Man Ray. Na verdade, não tenta uma investigação em linha reta, mas age por círculos e desvios, guiado por indícios como frases musicais, cartões postais e cartas que o levam ao encontro das (poucas) pessoas que sobreviveram àquela época, entre as quais se encontram um palhaço aposentado e uma princesa romena de 90 anos. É quase um processo de livre associação e, em seu filme, Alegria deixa-se contaminar pelas ideias do automatismo da mente, em voga no surrealismo dos anos 20 e, em parte, inspiradas pela psicanálise de Freud.

A história é daquelas em que a procura vale bem mais do que o resultado alcançado. Na estrada, imaginária e mental, em que se coloca, Alegria descobre não poucas coisas do seu país, em especial do seu passado. Mas mesmo o fim do caminho não se mostra inócuo. “É como uma metáfora do país basco, em que uma casa, construída pela aristocracia nos anos 20, acaba servindo de colônia de férias para trabalhadores franceses no século 21”, diz. De fato, a “villa”onde filmou Man Ray já não tinha esse nome. Ele fora coberto pela poeira de gerações diferentes, guerras, crises econômicas, doenças e mortes. Por fim, a residência tornou-se propriedade de uma companhia aérea que a destinou ao descanso dos funcionários. É um filme muito revelador, além de belo e bem construído.

Em outro registro, se pode dizer que El Paciente Interno, de Alejandro Solar Luna, é também baseado numa prospecção do passado. No caso, um passado trágico, a página sangrenta da história mexicana representada pelo massacre da Praça Tlatelolco, na qual, em 2 de outubro de 1968, centenas de estudantes foram mortos durante uma manifestação. Esse fato aparece, primeiro, como pano de fundo para o documentário.

Em seguida, faz-se um corte para o registro mais próximo do morador de rua Carlos Castañeda de la Fuente, levado a um abrigo numa tentativa a mais de ressocialização. O filme preocupa-se em saber quem é esse senhor maltratado pela vida, encurvado, porém de fala determinada. Por que se transformou em morador de rua? Trata-se, então de se construir um perfil, o que é feito não apenas pela fala do personagem, mas por depoimentos de pessoas que com ele conviveram, inclusive psiquiatras e assistentes sociais. Nesse sentido, pelo aspecto da forma, El Paciente Interno mostra-se um documentário um tanto convencional. Nem por isso enfraquece o que tem a revelar.

Isto é, o fato de Carlos Castañeda ser o homem que passou anos preso pela tentativa de assassinato do presidente na época do massacre de Tlatelolco, Gustavo Dias Ordás Bolaños. Dias Ordás saiu ileso e jamais negou sua responsabilidade por aquilo que ocorrera. Achou que fez o que deveria ter sido feito, ou o país teria caído no caos ou, pior, no comunismo. O homem que atentou contra sua vida foi capturado e levado a um calvário judiciário-psiquiátrico que durou 40 anos. Quando o soltaram, Castañeda não tinha qualquer condição de sobrevivência numa cidade e num país que já não eram mais os que conhecia antes de ser isolado da sociedade. A sua única alternativa era andar sem rumo e mendigar pelas ruas de Cidade do México.

Da mesma forma que no caso do filme basco, no mexicano também temos uma história que é exemplar. Vale por seu lado individual, mas ainda mais pelo que representa em termos da memória coletiva. Até hoje, o massacre da Praça Tlateloloco permanece uma ferida na memória histórica mexicana. Carlos Castañeda é o símbolo vivo daquilo que não morre e não se sepulta.

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