Bom humor e leve protesto marcam show do Prêmio Visa

Os achados bem-humorados do quarteto Cadafalso e a sutileza lírica do mineiro Kristoff Silva levantaram a platéia do Sesc Vila Mariana, na quarta-feira, na quarta eliminatória do 9.º Prêmio Visa de Música Brasileira. Mas sobrou para João Donato. Logo depois de sua apresentação bem meia-boca, a mestre de cerimônias Rose de Oliveira desceu do palco para seu número de platéia, quando pergunta a pessoas do público o que está achando da noite. Vai daí que uma espectadora tocou na questão que não quer calar desde quando os candidatos desta edição do prêmio foram anunciados: o que faz um senhor como Donato, com mais de 50 anos de carreira de repercussão internacional, e uma discografia de mais de 30 títulos, entrar num concurso para competir com gente nova que ainda não teve a chance de se projetar??Na minha opinião João Donato não devia estar aqui, já que é uma pessoa conhecida?, criticou a espectadora com apoio de boa parte da platéia, que se manifestou com aplausos em favor dela. Donato tinha acabado de apresentar músicas que compôs em parceria com o irmão, o economista Lysias Ênio, como as consagradas "Até Quem Sabe?" e "Amazonas", gravadas por ele em 1973!!! A primeira foi regravada uma infinidade de vezes por diversos intérpretes - Maysa, Gal Costa, Nara Leão, Tito Madi e, recentemente, Rosa Passos, entre outros. Com todo respeito pela qualidade de sua obra e o que ele e ela representam na história da música brasileira, ?é difícil?, como disse a mesma espectadora. Se Donato ganha fica estranho, porque confere caráter retrógrado ao prêmio; se perde, pega mal para ele. O regulamento do Prêmio Visa permite a participação de compositores de qualquer estilo ou idade, porque nesta categoria o que o júri avalia é ?o conjunto da obra?. Porém, ora bolas, Lucina, que foi a mais aplaudida na semana passada, também tem mais de 20 anos de carreira, mas trouxe músicas novíssimas e não os sucessos que emplacou na voz de astros como Ney Matogrosso ou Nana Caymmi (Donato também mostrou "Café com Pão", gravada por ela em 1981). Para a próxima eliminatória, Alzira Espíndola, que também tem mais de duas décadas de estrada, traz seu projeto inédito com o poeta André Arruda. Enfim, à parte esse imbroglio, a apresentação de Donato, em si, foi melancólica, para ser otimista. Com a voz cansada e pastosa, mal deu para ouvi-lo falar a letra de "Café com Pão". Com a entrada de Cris Delanno para dar apoio vocal, a situação parecia que ia melhorar. O problema é que ela é mais uma entre as centenas de novas cantoras sem voz e sem expressão. Mas, diz-se que no peito dos desafinados também bate um coração... Valeu pela parte instrumental, com Donato ao piano e excelentes músicos no baixo (Luiz Alves) e bateria (Paulo Silva) - mas essa categoria não está sob avaliação no momento, só na próxima edição.O baiano Márcio Valverde, que abriu a noite, também não empolgou, mesmo contando com o apoio de Lívia Milena. De voz grave, mas ainda imatura, ela tem lá seus atrativos. Mas a música de Valverde faz que vai, mas não acontece. Só deu uma animada no fim, num misto de maracatu com chula do Recôncavo ("Dos Erês"), arrematado com a citação de um tradicional samba-de-roda levado na palma da mão.Já do Cadafalso, esperava-se um bom resultado, mas César Brunetti, Márcio Muniz, Maurício Novaes e Lino Simão superaram as expectativas. O público riu e aplaudiu muito, até no meio da execução das músicas. Com senso de humor afiado, melodias brejeiras e perfeita harmonia vocal e instrumental, eles provaram ser mais do que velhas raposas da publicidade.Em "Fala na Lata", até ironizaram a própria condição de quem ?vende pizza e guaraná?. De seu único CD, extraíram "Surfá na Mídia" e as hilariantes "Sinfonia do Trânsito" e "O Pombo". Neste pocket-cabaré-show, deixaram lições de quem está grisalho de lidar com os atrativos da forma: é dela que depende o bom resultado do conteúdo. Não importa que seja desconhecido, mas qualidade é indispensável.É preciso ter estofo também e, a seu modo, Kristoff Silva, provou do mesmo resultado. Ele é um dos nomes de ponta da nova geração mineira de músicos e compositores que, em projetos sinalizados pela liberdade criativa, unem tradição, contemporaneidade e erudição. Foi um banho de jovialidade - dele e dos ótimos músicos que o acompanharam - depois da passagem de Donato. Combinando a sonoridade delicada de violão (Kristoff), piano e viola caipira (Rafael Martini), contrabaixo acústico (Pedro Santana), bateria e vibrafone (Antonio Loureiro), flauta e clarineta (Juliana Perdigão, que também cantou), Kristoff interpretou cada canção de um gênero, nem sempre bem-definidos (o que absolutamente não é um defeito), todas em parceria com o letrista e poeta Makely Ka, desenhadas de forma engenhosa. Uma ("Em Pé no Porto") ainda não foi gravada. Três vieram do revelador projeto coletivo "A Outra Cidade", que ele realizou com Makely e Pablo Castro ("Xote Polaco", "A Volta Barroca" e "Mulher do Norte", que encerrou sua participação em alta). O mesmo público que levantou para o Cadafalso também aplaudiu Kristoff em pé e calorosamente, num claro sinal que está, sim, ávido por novidades e aberto a canções menos fáceis. Mesmo que o estilo dele não provoque nenhuma revolução sonora - mas, afinal, quem o faz a essa altura da história?

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.