REUTERS/Brian Snyder
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Boletim vai avaliar avanços relacionados à diversidade na música 

A Black Music Action Coalition foi criada com a missão de responsabilizar o setor e vai apresentar relatório sobre os progressos até o momento

Ben Sisario, The New York Times

20 de abril de 2021 | 10h00

No verão passado, enquanto os protestos contra a morte de George Floyd aconteciam, a indústria da música começou a olhar seriamente para si mesma no que diz respeito à raça - como trata os artistas negros, como os funcionários negros se saem nas gravadoras e como o dinheiro flui de maneira equitativa em todo o negócio.

Grandes gravadoras, plataformas de streaming e emissoras de rádio e TV ofereceram centenas de milhões de dólares em doações, convocaram forças-tarefa e prometeram tomar medidas concretas para diversificar suas equipes e corrigir as desigualdades. Artistas como Weeknd e BTS doaram dinheiro para apoiar a justiça social, e Erykah Badu e Kelis expressaram seu apoio às reformas econômicas na indústria musical.

Tudo parecia negociável. Até mesmo o termo “urbano” em rádios e no marketing - para alguns um eufemismo racista, para outros um símbolo de orgulho e sofisticação - foi avaliado. Mas ainda havia grande ceticismo em relação a se o setor estava realmente comprometido em realizar mudanças substanciais ou se suas doações e declarações grandiosas eram mais uma questão de gestão de crise.

A Black Music Action Coalition, um grupo de empresários de artistas, advogados e outros, foi criada no verão passado com a missão de responsabilizar a indústria. Em junho, ela pretende lançar um “boletim” sobre como as várias gravadoras cumpriram suas promessas e compromissos de mudança.

O documento apresentará quais medidas as empresas tomaram em direção à igualdade racial e rastreará se as doações prometidas foram realizadas e para onde foram. Também verificará o número de executivos negros nas principais empresas do setor e o poder que detêm, e quantos negros têm assento em seus conselhos. Os relatórios futuros farão uma análise mais aprofundada de questões como o quão equitativamente a própria indústria opera, disseram os copresidentes da coalizão em uma entrevista esta semana, Binta Niambi Brown e Willie Stiggers, também conhecido como Prophet.

“Nossa luta é muito maior do que apenas saber se você escreveu um cheque ou não”, disse Prophet, um empresário que trabalha com Asian Doll, Layton Greene e outros artistas. “Mas já que você disse que iria preencher um cheque, queremos ter certeza de que o dinheiro foi realmente dado e se foi para um lugar que realmente atingiu as veias da comunidade negra.”

O documento, a ser escrito por Naima Cochrane, jornalista e ex-executiva de uma gravadora, terá como modelo os estudos anuais de mídia do grupo de defesa GLAAD, que rastreia a representação de personagens LGBTQIA+ no cinema e na televisão e atribui classificações às empresas por trás delas. A previsão é que seja publicado até 19 de junho - data do Juneteenth, feriado anual que comemora o fim da escravidão nos Estados Unidos.

As declarações públicas do grupo deixaram claro que ele se vê como um juiz rigoroso e inflexível da indústria da música, que tem um histórico de exploração de artistas negros, embora a música negra tenha sido - e continua sendo - seu principal produto. No verão passado, uma campanha online chamada #BlackoutTuesday trouxe à tona comentários dolorosos de que, ainda hoje, muitos executivos negros se sentem marginalizados, subordinados a supervisores brancos que detêm maiores poderes e ganham mais dinheiro.

Binta, executiva de uma gravadora e empresária de artista, disse que o objetivo do relatório não é punir, mas encorajar.

“Queremos fazer isso de uma forma que seja mais uma recompensa do que uma punição, para que possamos continuar a incentivar o bom comportamento”, disse ela. “Queremos responsabilizar as pessoas, não cancelá-las.”

A maioria das grandes empresas do setor contratou funcionários mirando na diversidade e promoveu alguns altos executivos negros a cargos iguais aos de seus colegas brancos, embora ainda haja apenas um punhado de negros nos cargos mais altos de liderança.

Vários estudos externos também foram encomendados para avaliar a diversidade dentro da indústria, incluindo um pela Annenberg Inclusion Initiative na Universidade do Sul da Califórnia e outro, sobre mulheres na música, pela Recording Academy, Berklee College of Music e Universidade do Estado do Arizona.

No entanto, tem havido relativamente pouca discussão pública a respeito da análise de contratos de artistas, incluindo os de décadas anteriores, e alterações de quaisquer termos injustos.

Uma empresa, a BMG, examinou milhares de contratos e descobriu que, dos 15 catálogos que possui com listas de artistas negros e não negros, 11 não apresentavam evidências de desvantagem racial. Entre os quatro que tinham, a empresa encontrou “uma significativa correlação negativa estatisticamente entre ser negro e receber taxas de royalties registradas mais baixas” de 1,1 a 3,4 pontos percentuais. A BMG se comprometeu a tomar medidas para corrigir essa disparidade.

Essas questões mais profundas sobre justiça na indústria musical podem muito bem ser abordadas em relatórios futuros da coalizão. Por ora, eles estão limitando seu escopo para saber se as promessas foram cumpridas.

“O racismo é um problema de 400 anos”, disse Prophet. “Não achávamos que isso seria resolvido em 12 meses.”

Tradução de Romina Cácia

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