Bob Dylan chega ao Brasil para turnê do CD 'Modern Times'

Nesta terça, ainda havia ingressos para os show no Via Funchal, em SP, com preços entre R$ 400 e R$ 900

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

04 de março de 2008 | 17h03

Ele fala tão pouco, e no entanto suas palavras são exaustivamente repetidas década após década. Algumas de suas canções, como Like a Rolling Stone, Knockin’ on Heaven’s Door, Mr. Tambourine Man, I Want You e Just Like a Woman foram gravadas por artistas tão distintos quanto Sonic Youth, Bob Marley, U2, Billy Joel, Pearl Jam, Guns ‘N Roses, Rolling Stones, Zé Ramalho, entre dezenas de outros. É de cortar o coração a voz de Nina Simone sangrando na gravação de I Shall be Released, que ele compôs em 1967. Veja também:Trajetória e músicas de Bob Dylan, o poeta do rock   Bob Dylan, o ídolo calado, chegou a São Paulo nesta terça-feira, 4, de madrugada. Toca na quarta, 5, e quinta, 6, para 5 mil felizardos no Via Funchal. Nesta terça, ainda havia ingressos para os dois dias, com preços entre R$ 400 e R$ 900. No sábado, Dylan toca no Rio de Janeiro, no Arena Rio. Na Cidade do México, último lugar onde Dylan tocou antes do Brasil, na noite de domingo, ele até que falou alguma coisa. Ou melhor: escreveu. "Lindo país, lindo céu, lindas pessoas", foi o que deixou rabiscado no livro de visitantes do Auditório Nacional, onde tocou. A frase já virou preciosidade para os seguidores mexicanos mais exaltados, e está guardada a sete chaves. Bob Dylan inscreveu sua lenda pessoal nos anos 60 como o poeta da consciência política, um bardo (que muitos consideraram) de recursos musicais limitados, "pero" intelectual refinado, ungido por referências literárias. Nem muito isso nem muito aquilo. Dylan é um artista que dá forma às suas visões pessoais e as transporta para um universo de associações musicais. Sua música tem atravessado décadas de novos modismos, mas nunca se rende às tendências dominantes. Está sempre fundada nas formas mais básicas (e às vezes mais rudimentares) da música original da América do Norte: blues, swing, folk ballads, gospels, bluegrass, country. Ao mesmo tempo, é furiosamente anticonservadora, vigorosamente atenta aos desafios formais. Um pé no passado, outro no futuro. É por isso que em Modern Times (Sony-BMG), de 2006, seu 44º disco e o mais recente, você poderá claramente ouvir Johnny B. Goode, clássico de Chuck Berry e das formas mais primitivas do rock’n’roll, escorrendo dos solos de Thunder of the Mountain, uma canção novíssima.  Não há uma canção chamada Modern Times no disco. É o primeiro mistério: o que permitiu a Dylan escolher esse título? Ele poderia estar aludindo ao filme de Chaplin de 1936, ao nome de discos pregressos do Jefferson Starship e de Al Stewart, ou ainda a uma comunidade anarquista de Nova York no século 19. O jornal The New York Times matou a charada em uma reportagem: o disco faz alusão a um obscuro poeta sulista americano do século 19, Henry Timrod, que escreveu poemas sobre a Guerra Civil americana e morreu em 1867, aos 39 anos. Versos de Timrod temperam canções. Dylan, sempre irônico, zomba de si mesmo, da compulsão que os caras mais velhuscos como nós temos de ficar praguejando contra as contradições do progresso e da tecnologia. "Fiz o que pude, e fiz tudo certinho", ele lamenta. Na canção de abertura, ele menciona de forma sarcástica uma das estrelas da canção dos tempos modernos, a musa do R&B Alicia Keys. Mesmo ilhado do mundo, vivendo numa redoma de mudez e estranhamento, ele conhece como ninguém os personagens de uma América subterrânea. "Não posso mais ir para o Paraíso/eu matei um homem lá", ele canta, em Spirit on the Water, com uma gaita limpa e a voz clara.  O blues country Rollin’ and Tumblin’ equilibra-se sobre doces duelos de guitarra, evocando os perdidos anos 50, dos quais Dylan nunca demonstrou ter saudade - ele já não os estimava durante seu auge. "Alguma jovem vadia esvaziou meus miolos", esbraveja o bardo, mas de um jeito lânguido, displicente, de falso conformado.  Furiosamente harmônico e melódico, Modern Times é o disco de um artista que esgrime contra o seu tempo, mas não por odiá-lo, senão pela ternura infinita que sente pelo humano e pelos sentimentos. Há pelo menos umas quatro obras-primas no disco, além de grandes achados, como The Levee’s Gonna Break (O Dique se Rompeu, cover de clássico blues de Memphis Minnie). A tragédia do Katrina em New Orleans revista pela lente esmaecida do passado. A turnê atual, baseada neste disco e apropriadamente batizada de A Turnê Sem Fim, está sujeita às próprias mudanças de espírito de Dylan, que altera o repertório a seu bel prazer. Na Cidade do México, ele abriu a noite tocando a guitarra elétrica, instrumento com o qual escandalizou os puristas em 1966, e tocando na seqüência Rainy Day Woman #12 & 35, It Ain’t Me, Babe e Watching The River Flow. Rainy Day Woman foi gravada em Nashville, em 1966. O jornalista Bill Flanagan conta que há uma lenda sobre a canção. Dylan levou os músicos para um estacionamento, onde receberam instrumentos novos para a gravação. Gestava uma nova revolução e entregava as "armas" aos combatentes. Outra música que ele tem incluído no seu set list é Maggie’s Farm (alusão ao clássico folk Penny’s Farm), "sobre o homem comum que tenta simplesmente levar a vida enquanto o mundo amontoa pilhas de indignidades sobre ele", diz Bill Flanagan. Talvez ele não toque All Along the Watchtower, mas se há um rock de Dylan que não deveria faltar em nenhum show é esse. Ele o fez após um acidente de moto, em 1966. Hendrix a gravou e a transformou num monumento do rock psicodélico. Dylan gostou tanto que, após a morte de Hendrix, passou a tocá-la ao estilo do guitarrista. E atenção quando ele tocar Things Have Changed (pela qual ele ganhou um Oscar em 2003, pela trilha do filme Garotos Incríveis). Por conta disso, ele dispõe sua estatueta do Oscar em cima de um amplificador durante o show. Ele termina o show com Summer Days e Like a Rolling Stone e uma versão impraticável para os Suplicy de Blowin’ in the Wind, o hino dylanesco para todas as lutas pelos direitos civis.

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