Jotabê Medeiros/Estadão
Jotabê Medeiros/Estadão

Bob Cornelius Rifo, do The Bloody Beetroots, fala sobre sua origem musical

Artista se apresenta sábado no Lollapalozza

Jotabê Medeiros , Santiago do Chile - O Estado de S. Paulo

30 de março de 2014 | 19h04

Sir Bob Cornelius Rifo recebeu a reportagem do Estado em seu camarim, nos fundos do palco eletrônico do Lollapalooza Chile, no sábado, como se parecesse saído de um desenho de Milo Manara ou Hugo Pratt. Afundado numa poltrona três vezes maior que seu corpo, usa uma boina de ladrão de desenho do Tintin, lenço de seda no pescoço, calças justíssimas, pernas cruzadas de pin-up e um sorriso desconfiado. Só abre um sorrisão quando inicia a conversa pelo assunto que mais adora: quadrinhos.

O italiano Cornelius Rifo é o cérebro por trás do massivo instrumento de perturbação eletrônica chamado The Bloody Beetroots, talvez a atração que vá trazer a novidade mais aguda ao Lollapalooza Brasil, sábado, no Autódromo de Interlagos. O grupo tem um disco novo, Hide, do ano passado – sua carreira começou abrindo concertos com um DJ Set para artistas como Ethienne de Crecy e Alex Gopher. Hoje, eles é que abrem pra ele.

No palco, Cornelius vira um possesso. Dá saltos extraordinários por sobre os instrumentos, pilotando uma banda toda de preto com máscaras de Venom, com olhos que acendem. Um luminoso de taberna no alto do palco pisca como se fosse de Hell's Kitchen, há luzes hipnóticas brancas e vermelhas e iluminação cadavérica vinda do chão. A molecada pira. Mas o som também é revolucionário: há os computadores e bate-estacas, claro, mas também violões e piano de cauda. Punk rock orquestral, banhado em dubstep e disco music. Nada será como antes.

Primeiro, quero saber sobre o quadrinista Tanino Liberatore, que fez a capa do seu novo disco Hide. Ele é uma lenda dos quadrinhos, o autor de um dos maiores gibis de todos os tempos, Ranxerox. Como conseguiu?

Oh, man! Ele é meu amigo! A história com Tanino começa em 2008, quando tive a ideia de convidá-lo para desenhar a capa do meu álbum. Cresci com Tanino. Costumava ler, quando moleque, uma revista em quadrinhos italiana que se chamava Frigidaire. Me apaixonei por ele. Tanino destruiu para sempre minha ingenuidade. Ele é grandemente responsável pelo que eu sou hoje.

Você tem uma relação muito próxima com os quadrinhos. As roupas de palco, por exemplo, são de um personagem do Homem-Aranha.

Sim, o show inteiro é como um gibi, com toda aquela coisa de super-heróis, toda a parafernália.

Há um forte componente de rock’n’roll em seu concerto. Mas dizem que você estudou música clássica. É verdade?

É verdade. Comecei a estudar música clássica quando tinha 9 anos e estudei até os 15 violão clássico e solfejo. Essa foi minha trajetória. Então, com 15 anos, comecei a ouvir rockabilly, punk rock: The Germs, Sex Pistols, Clash. Todo o punk britânico de 1977. E o hardcore americano. Black Flag. E então veio a música eletrônica, quando eu tinha 20 anos. E o resultado é The Bloody Beetroots, a mistura de todos esses gêneros. Não se pode dizer que isso é um gênero, porque eu incluí tudo, e traduzi tudo isso para essa linguagem eletrônica.

Houve um boom de música eletrônica nos anos 1990, mas sobraram apenas poucas mega bandas, como Daft Punk por exemplo. Você parece no caminho de se tornar mainstream também. Como lida com isso?

Não importa quão grande você seja, o importante é comunicar para as pessoas o que você faz. Não me importo em ser grande ou mainstream. Só quero ser verdadeiro, não importa se num cenário indie ou em grandes palcos. Quero me expressar apenas. Não existem essas questões de “e se eu me tornar?” ou “como lidar?” para mim.

Você esteve no Brasil antes?

Sim, fiz um DJ set com Yggor Cavalera em 2009. Foi divertidíssimo, eu amo o Yggor.

E você gosta do som do Sepultura?

(Risos) Bem, Bloody Roots (nome de uma música do Sepultura). Ora, tem tudo a ver!

Você tem Paul McCartney e Peter Frampton como convidados no disco. Como foi isso?

Bom, é uma longa história. Paul McCartney foi o seguinte: temos um amigo em comum, Youth (codinome de Martin Glover), que era baixista da banda Killing Joke. Youth estava ajudando a produzir o disco. Quando ele me perguntou quais colaboradores eu gostaria de ter no disco, eu disse que um deles seria Paul McCartney. Ele disse: Ok!. Eu disse: Tá zoando comigo? É que Youth tinha um projeto com Paul chamado de The Fireman. Então, ele me deu essas canções e trabalhei em cima delas. Mas acabei alterando quase tudo que ele tinha me dado, virou outra música totalmente diferente. E Paul gostou. Então, uma manhã ele me chamou para juntar-me a ele no estúdio e produzimos aquela música juntos, Out of Sight. É um cavalheiro. É provavelmente o mais incrível músico da História. E Peter Frampton hoje é como se fosse um tio para mim, tornou-se um grande amigo após nossa colaboração. Como foi também com Tommy Lee (da banda Motley Crue). Cada um deles me proporcionou uma experiência diferente, e o que tentei foi transmitir seus legados para a plateia de música eletrônica, criar uma ponte entre a antiga e a nova geração. Porque a plateia de música eletrônica, a maior parte, não tem a maior ideia de quem são. Propus o seguinte: caras, parem por um minuto e considerem que toda essa música do passado é parte do que somos, ela nos pertence.

***

Há meio que um consenso em torno do fato de que o Lollapalooza Chile é melhor que o brasileiro. Para ajudar a resolver a pendenga, reportagem do Estado fez um ranking dos prós e dos contras do Lolla chileno.

PRÓS

1. É o mais limpo festival de rock que já se viu. Tudo que cai no chão (que é quase nada) é recolhido em minutos, e ninguém faz xixi nas árvores (ou coisa mais densa nas imediações do festival);

2. O público chileno é o mais ordeiro; raríssimas brigas, confrontos, demonstrações públicas de incivilidade;

3. Crianças frequentam MESMO o festival, desde bebês recém-nascidos a fãs precoces de música eletrônica, e são muito bem tratados - há desde atrações especiais a espaços de lazer preparados especialmente para eles;

4. Os serviços essenciais funcionam como um relógio, e o trânsito e o policiamento são nota 10;

5. A organização é impecável; o credenciamento, a fiscalização, tudo funciona. Os pedidos de entrevistas são conduzidos com profissionalismo e sem discriminar meios;

6. O Parque O'Higgins, onde rola o festival, é talvez um dos mais agradáveis locais que abrigam o rock no Planeta (perde talvez só para Chicago);

CONTRAS

1. Bom, um festival de rock sem nem uma cerveja é como uma missa sem nem um sermão. As bebidas são proibidas;

2. O público de Santiago parece menos crítico em relação às atrações; demonstram gostar de tudo, não se ouve nem um pio de contrariedade, uma pequena vaia;

3. O engajamento nas causas ambientais é sério demais, tem até palestra com barulho de punk rock ao fundo, ninguém ouve nada (a reportagem presenciou uma com quatro pessoas assistindo);

4. A internet é péssima em qualquer lugar e forma que for buscada;

5. A comida é meio fantasiosa - não dá para todo mundo, e é até tocante ver um velhinho sozinho tentando preparar hambúrgueres para uma fila de 200 pessoas;

6. Os banheiros também não dão conta, e isso piora sensivelmente no caso das mulheres - as filas de garotas são dezenas de vezes maiores que a dos homens, o que exigiria que tivessem 10 vezes mais banheiros;

LOLLAPALOOZA

Autódromo de Interlagos. Avenida Senador Teotônio Vilela, 261,

tel. 4003-5588. Sáb. (5), a partir das 12h20; dom. (6),

a partir das 11h50, De R$ 145 a R$ 540. 

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