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Boa liderança pode tirar novas gerações do sofrimento, diz rapper africano

Tumi toca nesta quinta em SP; seu preferido beat é Bob Kaufman, e, na música brasileira, ouviu primeiro Gil

Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo,

18 Julho 2012 | 22h30

O rapper Tumi Molekane é poeta que se ocupa em propor um debate vigoroso, uma análise aberta da questão africana. Ele afina o discurso desde os anos 1990, quando integrou o coletivo de spoken-word chamado Perm (que incluía MXO, Sliq Angel, Simphiwe Dana e Lebo Mashile).

A mistura de seu som potencializa o recado, e isso não seria possível sem a contribuição de seus parceiros luso-falantes (e luso-ouvintes), os moçambicanos Tiago Correa (guitarra) e Paulo Chibanga (bateria), que lhe mostraram o samba e a bossa brasileiros. Eles têm ainda o baixista Dave Bergman.

Tumi tocou com Shakira na Copa do Mundo da África e também já dividiu palcos com Coldplay e The Roots, entre outros. Em Paris, desde 2010, já é um cult - a atração começou com um show na Maroquinerie, naquele ano. Seduzido pelo som de Tumi, Mos Def fez uma resenha de seu primeiro disco. Rimando em um universo mais erudito e menos espalhafatoso, menos Broadway, que o hip hop de Kanye West e Jay-Z, por exemplo, ele se insere num nicho muito particular da música negra moderna.

O álbum mais recente do grupo, Pick a Dream, foi lançado em 2010. Nas redes sociais, Tumi já anuncia o novo trabalho, mas ainda não dá detalhes de como e quando vá sair. O Sesc vai ficar pequeno para todo mundo que vai querer conferir essa preciosidade da música africana.

Na sua página no Twitter, você citou Ralph Nader (ativista norte-americano): "Eu começo com a premissa de que a função da liderança é produzir mais líderes, e não mais seguidores." Qual o seu conceito de liderança? E por que você considera que precisamos de novos líderes?

Minha visão de liderança não é diferente daquela expressa pela citação de Ralph Nader. Venho de um lugar onde a boa liderança é a diferença entre duas gerações de sofrimento ou de prosperidade. Creio que o acesso à informação acordou o mundo, não só o mundo das corporações, mas também o do ativismo e da atenção. O movimento Occupy e a Primavera Árabe mostraram que devemos sempre questionar e agir com vigilância e consciência.

Você têm duas canções, Light in Your Head e Learning, que trabalham com um pouco de bossa nova e samba. Quais são suas conexões com a música do Brasil?

A vantagem de ser um MC com uma banda é que esses músicos da banda trazem suas influências e tradições para a música que fazemos, e nosso baterista e guitarrista são de Moçambique, então é daí que vem a influência. Meu primeiro sabor de música brasileira veio de Gilberto Gil, e antes, de alguma coisa de Sergio Mendes. Mais tarde, conheci MV Bill.

Você demonstra trabalhar com um senso refinado de poesia. Escrever é uma parte muito importante do seu trabalho. Gostaria de saber quais são suas mais remotas influências. Você acha que está próximo da tradição de um Langston Hughes ou uma Miriam Makeba?

É muito certo dizer que eu me inspirei nos escritores da corrente Harlem Renaissance. Há uma linha fina que eu sigo na África do Sul, que inclui de Nat Nakasa e Bra Willie Kgositsile a Mzwakhe Mbuli e Lesego Rampologeng a Lebo Mashile. E eu mesmo.

A África do Sul foi sede da última Copa do Mundo de Futebol, dois anos atrás. O Brasil vai ser sede da próxima, em 2014. Que tipo de saldo você considera que seu país teve daquela experiência? Acha que foi boa para o povo da África do Sul?

Foi boa para nossa imaginação e nós precisamos de inspiração. Mas custou um pouco da nossa qualidade de vida. Sou um fanático do futebol, espero ir aí a um grande estádio e ver Lucas (do São Paulo Futebol Clube) jogar. Eu acho que é um grande momento para o maior país do futebol no mundo.

Spoken-words teve um começo muito forte com os beatniks, na América do Norte. Você leu aqueles livros de Allen Ginsberg, Burroughs, Ferlinghetti?

De fato, eu amo a liberdade que foi liberada pelo movimento beatnik, embora eu seja um pouco crítico do seus estilos de vida, provavelmente porque eu sou um pouco mais convencional. Meu poeta favorito naquele movimento foi Bob Kaufman (autor negro morto em 1986, aos 61 anos).

O afrobeat de Hugh Masekela e a música malinesa de Ali Farka Touré e Amadou et Mariam têm sido muito influentes na música brasileira desde os anos 1990. Também foram influentes para você?

Sim, para nós aconteceu o mesmo. O afrobeat foi uma força incrível e ajudou a desenvolver a música em muitos cantos do globo.

Também posso ouvir influências do acid jazz em sua música, bandas como Digable Planets e A Tribe Called Quest. E, é claro, no campo do hip hop, o som do Roots. Estou muito errado?

Há uma coisa em todas essas bandas que você mencionou: todas têm em comum uma musicalidade destemida. Eles ousaram ser diferentes e forçaram as fronteiras daquilo que era considerado hip hop.

Para muitos brasileiros, a música urbana da África não é muito conhecida. Acho que grupos como o Konono nº 1 (grupo congolês), com seu sabor de primitivismo, é o que mais reconhecemos como música africana urbana. Você, ao contrário, parece mais conectado com o suingue urbano, com o hip hop e o reggae.

Não vou discordar de você. A ingenuidade musical às vezes significa a abertura de possibilidades da mente.

Em sua canção, Afrika, você põe todos os países do continente na letra, exceto a República Centro-Africana. Por quê? E qual país cortaria da letra da música hoje?

Foi um engano. Agora, é o Sudão que não está na canção. Você me pegou....

Nesse momento, experimentamos um grande boom do hip hop no Brasil. O rap está no foco dos interesses nesse instante, com muitos músicos novos, como Emicida e Criolo. Conhece algum deles?

Só MV Bill, nada mais. É a barreira da língua.

 

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