Ândrea Possamai
Ândrea Possamai

BNegão, do Planet Hemp e Seletores de Frequência, faz show com os sucessos de Dorival Caymmi

Apresentação tem sua estreia marcada para os dias 28 e 29 de abril, no teatro do Sesc Pompeia

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2018 | 06h01

BNegão era mais conhecido como Bernardo Santos do que pelo apelido com o qual passou a ser identificado ao se transformar em um dos nomes mais importantes do rap nacional a partir dos anos 1990, com o estouro do Planet Hemp. Moleque de tudo, adolescente que ouvia de Emílio Santiago, por influência do pai, a punk rock nacional (Garotos Podres, Ratos de Porão e outros nomes do gênero mais combativo surgido naquela década), ele comprou por uma pechincha Dorival e o Violão, disco de 1959 de Dorival Caymmi, em um sebo no centro do Rio de Janeiro. Rumou de volta ao apartamento dos pais, no bairro de Santa Tereza, para seu ritual: num quartinho da casa, encaixou o vinil na vitrola, desceu a agulha, deixou a bolachona rodar.

+++ Planet Hemp volta à ativa para comemorar 20 anos do primeiro disco 'Usuário'

Com as luzes apagadas, deitou no chão. De olhos fechados, viu o mundo. Um novo mundo. Pensou que ouviria canções praieiras, “solares”, como ele explicou. Recebeu, de volta, um petardo sombrio e denso do início da carreira de Caymmi - grande parte das canções do disco era de Canções Praieiras, a estreia do cantor, compositor e poeta nascido em Salvador, lançado em 1954. 

“Aquilo era quase Black Sabbath”, brinca BNegão, dono de um dos risos mais fáceis e bem-vindos do hip-hop brasileiro. Aos 44 anos, ele enumera os projetos que estão por vir. São shows com Planet Hemp e as ideias de um novo disco ao lado do grupo seminal. Há também o relançamento do vinil de Enxugando o Gelo, disco de BNegão com Os Seletores de Frequência, pela Assustado Discos, para celebrar os 15 anos do álbum que levou sete anos para ser compreendido pelo público do País.

+++ Biografia do Planet Hemp chega às livrarias em 2018

O que mexe com a cabeça de BNegão atualmente, contudo, é a lembrança dos tempos de Bernardo Santos. Vai resgatar a sensação de ouvir aquele disco de Dorival Caymmi com o primeiro show completamente de canção da carreira do rapper.

+++ Lollapalooza 2016: Planet Hemp faz show político e encerra o palco Axé

Com o nome de BNegão Canta Dorival Caymmi, a apresentação tem sua estreia marcada para os dias 28 e 29 de abril, no teatro do Sesc Pompeia. Nela, Bernardo estará ao lado apenas do seu xará Bernardo Bosisio, que tocou com nomes que vão de Ed Motta a Arthur Verocai, ao violão. O repertório não incluirá as canções solares da carreira de Caymmi e, sim, dará foco nos discos Canções Praieiras (1954), Caymmi e o Mar (1957).

Há pelo menos dez anos BNegão cogitava realizar a apresentação, mas, como ele conta, faltava-lhe coragem. “Era como aquela pessoa que nunca viu o mar, sacou?”, ele diz. “E então essa pessoa fica diante do mar, aquela coisa gigantesca, mas não entra. Fica com medo e diz: ‘deixa para amanhã’. E vai embora”, explica. Há dois anos, os dois Bernardos já se juntavam para alguns ensaios desse repertório. “Fiquei apavorado e parei”, ri BNegão. Ano passado, a mesma coisa. “Fiz mais alguns ensaios, apavorei e parei”, conta, “mas tinha tudo na cabeça, os arranjos. Sabia como seria o show.”

As turnês dos últimos anos ao lado de Wilson das Neves (que morreu em 2017) mostraram a BNegão (ou Bernardo) que aquele medo era bom. “É um show difícil, porque não tem como você se esconder”, ele explica. É o mesmo sentimento que invadiu o adolescente que, deitado, ficou diante do ameaçador, misterioso e apaixonante mar cantado por Dorival Caymmi. “Com aquele disco, eu senti medo, fiquei apavorado, sem respirar. Foi algo que me marcou.”

Biografia do Planet Hemp será lançada ainda em 2018

Presente em um dos primeiros shows históricos do Planet Hemp em Niterói, Rio e Janeiro, em 1996, o escritor e quadrinista Pedro de Luna é a figura responsável por colocar em palavras a história ainda em construção da banda que dinamitou a barreira entre o hardcore e o rap - pelo menos, em território nacional.

Prevista para sair no segundo semestre, entre agosto e setembro, a obra do jornalista nascido em Volta Redonda busca elucidar os fatores que, unidos, culminaram na explosão do grupo em nível nacional. O oitavo livro de Luna, garante o autor, não vai passar panos quentes pelos momentos mais densos da carreira da banda, como o uso de drogas e a prisão deles em Brasília, em 1997. “Não será uma biografia sensacionalista”, ele avisa. No total, foram 40 entrevistas. “O leitor vai ter uma visão da cena musical carioca da época.

BNEGÃO CANTA DORIVAL CAYMMI

Sesc Pompeia. Teatro. 

Rua Clélia 93. Tel. 3871-7700. Sáb. (28), 21h. Dom. (29), 18h. R$ 9 a R$ 30. 

Mais conteúdo sobre:
Planet Hemp música Dorival Caymmi

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.