Bluesman Johnny Winter morre, aos 70 anos, em Zurique

O músico se apresentaria em São Paulo em outubro

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

17 de julho de 2014 | 09h29

Atualizado às 20h18.

Johnny Winter entrou de pé. Arqueado, mas de pé. Era a principal atração da Tenda Blues em uma das tardes do New Orleans Jazz Festival, há quatro meses, e muita gente não acreditava que ele apareceria. Mesmo vivo, em pouca pele, muito osso e duas dúzias de tatuagens, ele já era uma lenda. Sentou-se na cadeira tateando o pedestal à sua frente, plugou a guitarra e fechou os olhos como se fizesse uma contagem mental. O furacão do Texas, aos 70 anos, estava na estrada para a última turnê.

A morte chegou no bonde das lendas. Assim como sua ex-namorada Janis Joplin, encontrada morta em um quarto de hotel de Hollywood, em 1970; assim como seu amigo Jimi Hendrix, encontrado morto no quarto de um hotel em Londres, no mesmo 1970; assim como o guitarrista irlandês e um dos discípulos Gary Moore, encontrado morto em um hotel na Espanha; Johnny Winter estava longe de casa, em uma hospedagem de Zurique, na Suíça, quando seu coração parou. 

As causas ainda não foram reveladas, mas uma autópsia já foi requerida pela polícia. “Sua esposa, família e parceiros de banda estão todos tristes com a perda de um ente querido e de um dos melhores guitarristas do mundo”, informou um texto oficial divulgado no Facebook do guitarrista. Johnny estava em turnê, que deveria passar pelo Brasil em outubro, com um show no Clube Juventus, em São Paulo. Um novo disco, com participação de Eric Clapton e Ben Harper, está previsto para ser lançado em 2 de setembro.

Mais branco do que os brancos, o albino John Dawson Winter III também foi negro. Ouviu tanto John Lee Hooker, T-Bone Walker, Muddy Waters e BB King que se viu obrigado pelo instinto de sobrevivência a peitar o próprio pai, prefeito de uma cidade do Mississippi, conservador e intolerante com pessoas de pele mais escura que a dele, para empunhar uma guitarra. Mais precisamente, uma Firebird, que o diferenciava de outros texanos, amantes de Fender Strato e Telecaster. Ao ver BB King em ação na boate Raven, tocando para uma plateia formada por 98% de negros – ele e seu irmão Edgard eram as exceções – Winter venceu a timidez dos 17 anos e pediu a King que o deixasse subir ao palco. “Ele me perguntou se eu tinha um cartão de sócio, e eu tinha.” BB King, logo ele, teve de engolir o preconceito e aplaudir o garoto.

Em 2010, Johnny Winter fez sua última aparição no Brasil na extinta casa de shows Via Funchal. O Estado o entrevistou naquela ocasião. Seus problemas recorrentes com as drogas, que debilitaram sua saúde e o levaram para clínicas de reabilitação, não eram mais uma preocupação. “Eu não poderia estar melhor. Parei de beber e de usar coisas que me faziam mal. Isso me fez passar por uma transformação. Minha voz e meu jeito de tocar estavam sendo afetados por esse lixo. Minha vida está mudando para melhor.” Sobre os caminhos do blues, perguntei se não havia riscos de extinção assim que ele, BB King e Buddy Guy deixassem a estrada. E ele respondeu: “O blues sempre estará por perto, não há perigo de desaparecer. Não importa que música você toque, ela sempre terá um pouco de blues”. Sobre sua origem em Beaumont, no Texas, ele já havia se pronunciado em uma entrevista de 1979. “Eu não podia praticar esportes por causa dos problemas na visão e, assim, fui me alienando das pessoas. Sabe, você só precisa de um bom problema para se tornar um astro.”

Winter ajudou a criar a escola dos guitarristas texanos. Aos 15 anos, lançou o primeiro disco, School Day Blues, e logo estava ao lado do baterista Uncle Joe Turner e do baixista Tommy Shannon, o mesmo dínamo que, uma década depois, sustentaria os solos do diabólico Stevie Ray Vaughan, morto em 1990, em um acidente de helicóptero.

A guitarra de Johnny Winter era movida a fúria e paixão. Quando estava no auge da forma, nos anos 70, seus dedos grudavam no braço do instrumento e não paravam mais de solar. Oito, 12, 24, 48 compassos. Quando outros guitarristas entregavam os pontos para a voz retomar a canção, Johnny Winter começava tudo de novo. Um de seus discos mais relevantes é Still Alive and Well, de 1973. Outro é Johnny Winter And Live, de 1970, com uma versão vulcânica de Jumping Jack Flash, dos Stones. Sua gravação do blues Rock me Baby é a demolição da fronteira que separa a coerência da insanidade, a razão da loucura. 

Tudo o que sabemos sobre:
Johnny WinterBlues

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.