JF Diório/Estadão
JF Diório/Estadão

Blaxtream, um selo musical de excelência erguido pela esperança

Sem dinheiro, dois produtores de Ribeirão Preto lançam discos e vídeos dos maiores instrumentistas do País

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

04 de fevereiro de 2019 | 03h00

A era das ideias. Talvez seja um dos sinais de que ela estará mesmo no centro da próxima revolução social e econômica o fato de dois jovens de Ribeirão Preto, sem nenhum dinheiro no bolso e nenhuma intenção de depender de leis de incentivo do Estado, terem erguido um selo chamado Blaxtream, de excelência no jazz e na música instrumental. Thiago Monteiro, 41 anos, e Thalita Magalhães, 31, contam a história: à base da boa vontade, eles lançaram, em 2018, doze discos de altíssimo calibre e se preparam para lançar mais doze em 2019. Isso sem um real no bolso.

O segredo estava em acreditar que havia almas por trás das empresas, gente que entenderia, por algum motivo, que seria importante apoiar a música instrumental. Thiago e Thalita saíram a campo e conseguiram logo dois patrocinadores: a Azul Linhas Aéreas e a Cervejaria Colorado. Os músicos que fossem convidados para gravar em Ribeirão Preto, além do transporte, precisavam de hospedagem, e isso foi resolvido pelo hotel Tryp by Windham. A empresa NW3 trabalha de graça no material gráfico dos álbuns, a produtora ZOE Films capta as gravações e as videoaulas que os músicos oferecem, a Fritz Dobbert cede um cobiçado piano Kawaii; o Shopping Iguatemi deixa ações dos músicos expostas e o Sesc de Ribeirão agenda os shows para lançamentos dos discos. E tudo sem um real.

“Queríamos pessoas que sonhassem como estávamos sonhando, que tivessem os mesmos valores em que acreditamos”, diz Thiago. “Eu percebia que havia muita gente boa tocando, uma nova geração muito interessante, mas que não estava conectada, cada um na sua correria”. Ele toca piano e diz ter crescido em um estúdio. Thalita recorda que algumas empresas, como a Colorado, responderam no dia seguinte, dizendo que queriam fazer parte do projeto. “Os músicos entendem que ali é diferente. A alimentação, por exemplo, é levada ao estúdio para baratear e, depois, cada um lava seu prato.”

Os discos começaram então a sair, um a um, mês a mês. Em 2018, vieram álbuns dos instrumentistas mais promissores da nova geração. O excelente trompetista Diego Garbin veio com Refúgio, seu primeiro autoral, e o pianista estrelado André Marques, de Hermeto Pascoal, saiu com Rio São Paulo. Seguiram, entre outros, o baterista vencedor de dois Grammy Edu Ribeiro com Toninho Ferragutti e Fabio Peron; o bandolinista virtuoso Carrapicho Rangel; o pianista, um dos maiores do País, paraibano Salomão Soares; e o trompetista no mesmo estágio, Rubinho Antunes.

Os sócios querem, em 2019, centrar forças na internacionalização do selo. Em abril, de 25 a 28, seguirão para a feira Jazzahead!, na Alemanha, para um showcase do grupo brasileiro selecionado pelo evento, Ludere. Contam que vão abrir também, até abril, uma campanha para escolher um instrumentista brasileiro de talento que será contemplado com a gravação de seu disco pelo selo, em Ribeirão. Os nomes que terão discos lançados neste ano são a violinista Carol Panesi, o baterista lendário Nenê e o baixista de técnica impressionante chamado Michael Pipoquinha, além das promessas ainda menos visíveis em outras regiões fora do interior, como o grupo Pó de Café Quarteto e o guitarrista Thiago Carreri.

A dupla não se contentou com o que já tinha de produção e seguiu pensando. Aproveitando os patrocinadores que estavam nas mãos, concebeu um novo projeto de olho no mundo. Só a música poderia juntar estilhaços de guerras e indisposições diplomáticas. Eles então convidaram instrumentistas de países em situação de conflito ou que já passaram por isso, transmitiram o tema que seria tocado e, com cada músico em seu país de origem diante de uma câmera, fez com que tocassem o mesma música.

“Quando diferentes pessoas de diferentes culturas tocam a mesma música instrumental, elas estão falando a mesma língua”, aparece na abertura do vídeo da música Nuance, do violonista Fabio Gouveia. E então aparecem o acordeonista Roman Andrukhiv, da Ucrânia, e a baixista Daria Cherbakova, da Rússia. O saxofonista Jon Boutellier, da França, e o baterista Mathias Kdorr, da Alemanha. O violonista Fabio Gouveia, um coral de Luanda, Angola; a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto; e a cantora de técnica assustadora Ana-Maria Hefele, da Áustria, capaz de cantar duas notas ao mesmo tempo, coroam tudo.

CONQUISTAS

Diego Garbin

Trompetista fez seu primeiro disco solo, chamado ‘Refúgio’, com Salomão Soares (piano), Paulo Almeida (bateria), Jackson Silva (baixo) e Dô de Carvalho (sax).

Edu Ribeiro convida Toninho Ferragutti e Fábio Peron

Baterista destaque do Trio Corrente registrou o belo álbum ‘Folia de Reis’. 

Carrapicho Rangel

Bandolinista de Ribeirão Preto é um dos grandes nomes de seu instrumento. Na Estrada da Luz insere seu instrumento no jazz 

Salomão Soares

Depois de aparecer em muitos discos, o pianista mostrou seu trabalho autoral com ‘Alegria de Matuto’. Ele e um quarteto. 

Fabio Gouvea

O violonista lançou ‘Método do Acaso’ em 2017

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