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Black Sabbath dá aula de excelência em turnê brasileira

Depois de passar por Porto Alegre, banda de Ozzy toca no dia 11/10 em São Paulo com formação insuperável

Jotabê Medeiros / Porto Alegre, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2013 | 20h15

Quando Ozzy Osbourne inicia o show em Porto Alegre, com War Pigs, e o grande coro se aperta na beirada do palco para berrar junto os versos, é como se o público soubesse que está diante do último grande show de rock.

Quantos são capazes, na atualidade, de, apenas com uma guitarra e um baixo de pulsões extraordinárias, ocupar vales inteiros, convocar exércitos, espalhar uma mensagem ultrassônica de rebelião? No caso do Black Sabbath, não se trata de mitomania ou fanatismo: é reverência, reconhecimento, sentimento de gratidão. Considerados os inventores do heavy metal (na forma como o conhecemos, e também nas subformas, como doom metal, stoner e sludge metal), deram forma a um gênero, e também solidificaram seu aparato cênico – os crescendos ameaçadores, os ataques inesperados, a disposição de enfrentamento, a contraposição ao espírito de pacificação hippie. E isso foi há 45 anos, em plena era do Flower Power.

É essa trupe que desembarca nesta sexta, 11, no Campo de Marte, na Zona Norte de São Paulo, para cerca de 55 mil sortudos. Os portões abrem às 13h e os ingressos estão esgotados há muito tempo. Ozzy é o mestre de cerimônias da indução selvagem de Tony Iommi (guitarra) e Geezer Butler (baixo), músicos que são, para o rock, o equivalente de Hieronymus Bosch para a pintura.

Mesmo alquebrado, Ozzy (que chegou a ser expulso do grupo em 1979 por excessos de toda ordem) compreende hoje que sua função é mágica: trata-se de preencher aqueles grandes espaços, emprestar seu grito metálico à excelência do som do Sabbath como se fosse um anfitrião das trevas. E ele faz isso com orgulho, batendo no peito, exaurindo as forças. Ao baterista convidado, Tommy Clufetos, chegam a ceder um solo de quase 8 minutos durante o show (entre Rat Salad e Iron Man), mas definitivamente não é dele o lugar. Está ali com bravura, representando Bill Ward (que está em litígio com o grupo), mas ficou faltando o tambor bárbaro, o tremor, a convocação.

“Você consegue ouvir o desespero e o perigo das ruas proletárias de Birmingham vindos de cada groove”, disse, sobre o Black Sabbath, o guitarrista Tom Morello, do Rage Against the Machine, um cara que sabe muito sobre rebeldia e inconformismo. Sabbath, sanguinário Sabbath. Ao longo de 45 anos de atividade, 23 músicos estiveram em sua formação cervical, mas nenhuma supera essa que está trazendo seu derradeiro circo do rock ao Brasil nessa jornada. À sua música de martelo de demolição, eles juntam, no palco, um aparato visual quase mínimo: não há grandes telões laterais, só um central e, nele, são exibidas cenas de ousadia histórica – freiras queimam seus hábitos e se beijam durante a execução de Under the Sun, e Al Pacino, em Scarface, barbariza enquanto atores são consumidos em montanhas de pó.

Ao longo da noite, os riffs de Tony Iommi são arrastados e precisos, quase nunca se postam à frente do palco para reivindicar protagonismo. Mas, quando ele faz isso, é uma aula, uma exibição de excelência – sem ele, segundo Eddie Van Halen e James Hetfield, não teria existido o heavy metal. Iommi está em forma, nem parece que quase foi abatido por um linfoma no ano passado (sua cura foi completa). Curioso personagem do rock (enquete entre críticos da revista Rolling Stone colocou-o entre os 25 maiores guitarristas da história), cuja revelação, ele mesmo conta, se deu por conta do descobrimento da música de um jazzista, Django Reinhardt.

Iommi e Butler postam-se ao lado de Ozzy como escudeiros, mas são a alma do negócio. Antes mesmo de cantar Into the Void, Ozzy molha os cabelos numa bacia ou coisa parecida ali no fundo do palco, para que se fixem e não atrapalhem sua visão. Tira a capa de Exú, joga ao chão, e corre com o cabelinho balançando ao vento de um lado a outro do palco, fazendo caretas, jogando beijinhos, anunciando didaticamente cada canção antes de cantá-la. Ozzy hoje já desenvolveu um coté paternal, está todo o tempo preocupado em ver se a coisa anda bem lá embaixo, se os fãs não estão se triturando por coisas tolas e se estão de fato se divertindo.

Um outro milagre causado pelo Sabbath parece ser sua multidisciplinaridade social: o público é heterogêneo, apesar da homogeneidade das camisetas pretas – parece juntar descamisados e playboys, empresários e office-boys, patricinhas e fadas de botas. Sua música perpassa os guetos, aproxima, desfronteiriza. É uma Nação sem mapa. O show cai muito nas baladas, como Age of Reason, que são “respiros” da pancadaria, cuja origem está evidentemente no baixo de Geezer Butler. O baixista inicia já no começo do show uma progressão implacável que vai tomando conta da noite e não parece que tem intenção de parar. Infelizmente, acaba. Ou talvez tenha sido incontrolável, como vemos no rock atual.

SETLIST

War Pigs

Into the Void

Under the Sun/Every Day Comes and Goes

Snowblind

Age of Reason

Black Sabbath

Behind the Wall of Sleep

N.I.B.

End of the Beginning

Fairies Wear Boots

Rat Salad

Iron Man

God is Dead?

Dirty Women

Children of the Grave

Paranoid

Sabbath Bloody Sabbath

Zeitgeist

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