Black music festeja 30 anos no Rio e ganha site

Os ritmos filhos do soul ainda dão o tom nos bailes cariocas. Charme e funk, gêneros hoje executados por quase todos os DJ´s, têm raízes que os nomes mais tradicionais da música negra não deixam esquecer. Mr. Funk e Dom Filó, nomes da velha guarda, são mestres e amigos de DJ Corello e Dema, por exemplo, expoentes da nova geração e renovadores da música negra. Este grupo de precursores estará reunido, com outros igualmente importantes, no primeiro portal de black music do Brasil, disponível na Internet no fim deste ano. Dom Filó, com o site, quer comemorar os 30 anos da black music brasileira e contar sua história, republicar tudo o que sobre ela saiu na imprensa e disponibilizar músicas em MP3.A história da black music no Brasil começa em 1971, mais precisamente no dia 10 de novembro, quando Mr. Funk fez o primeiro baile em que só tocou soul music, no clube Astória, no bairro do Catumbi. Antes, Big Boy, locutor de rádio, já tocava soul em festas, mas o rock ainda predominava. "O pessoal só dançava quando eu tocava James Brown", lembra Mr. Funk. A partir daí, o caminho da black music no Rio estava traçado, e nomes como Rufus Thomas e Aretha Franklin passaram a fazer parte do acervo dos DJ´s no Rio. E Mr. Funk admite que este foi o impulso para o crescimento dos bailes: "as pessoas ficavam encostadas na parede, o baile enchia pelas beiradas e chegava uma hora que ninguém ficava mais parado". Naquela época, a soul music tinha uma mensagem política que o hip hop e o charme não trazem. Segundo ele, essas novas batidas, renovadas pela tecnologia, "são uma degradação do som original da soul".Dom Filó, Mestre de Cerimônia da famosa e premiada equipe Soul Grand Prix dos anos 70, divide a black music brasileira em A/TM e D/TM: antes e depois de Tim Maia. Hoje Dom Filó é um pesquisador e palestrante de black music, mas dava bailes em que projetava slides do detetive Shaft, o "007 dos negros" e tinha como referência os Panteras Negras. "O Dops ficava de olho na gente, pois em meio à repressão política conseguíamos reunir 15 mil pessoas", lembra. Mesmo ganhando o disco de ouro em 1976, é de Tim Maia que Dom Filó fala com mais respeito: "ele foi a grande virada na black music do Brasil", diz Dom Filó, lembrando outros nomes velha guarda, como Lady Zu, Gerson King Colombo, Tony Tornado e as bandas Black Rio e União Black.Sem desprezar os nomes da antiga, uma comitiva de novos artistas da cultura black está surgindo. O Zoeira anima um dos melhores pontos do Rio, a Lapa, com hip hop, em noites para mais de 2 mil pessoas. Fazem parte do grupo DJ Negralha e Mahal, que é filho de Luiz Melodia. Um grafite assinado pelo Zoeira pode ser visto na porta da Sinuca da Lapa, com os dizeres "preservando a cultura negra". A banda Black Rio, com nova formação, está lançando um CD. A banda mudou, mas ficou em família: William é filho do lendário Oderban Magalhães, fundador da Black Rio, e nome de grande expressão no cenário da Soul nos anos 70. Zé Ricardo é outro que desponta no mundo black. Gravou nos EUA e está concluindo seu CD, a ser lançado no Brasil. Ele foi lançado por Adriana Milagres , que promovia as famosas festas Soul no Rio, há 3 anos. O grupo AfroReggae também está lançando CD, seu primeiro, o que para eles é uma vitória. Eles são o único grupo de grande expressão na black music oriundo exclusivamente de uma favela. Combater a violência com arte é o seu lema, que seguem fielmente, retirando jovens do tráfico e ensinando música. Hoje, o grupo é um ONG, com trabalho reconhecido por Caetano Veloso, que se dispôs a participar do primeiro álbum.Mas é nos bailes que a alma da black music se renova. Pelos subúrbios cariocas, eles têm todo tipo de formato, grandes e pequenos, tocando todos os ritmos. Os maiores chegam a atrair 4 mil jovens numa noite. Um baile de Bangu é particularíssimo: só toca discos de vinil. E com essa moda, consegue arregimentar mais de 400 pessoas toda semana. Mas o que mais se vê são os chamados bailes funk e charme. Uma famosa letra pergunta qual a diferença entre o charme e o funk, respondendo que um anda bonito, o outro, elegante. Para o DJ Corello, inventor do termo charme, essa máxima pode ser verdadeira. "Num baile charme, o cara vai para ser visto. Ele se veste bem, não paga mico, não briga e se sente bem. Nada mais justo para um sujeito que trabalha a semana inteira e ganha pouco", diz. O charme é herdeiro do rhythm´n´blues americano. "Mas da fase moderna", ressalta. Corello conta que o charme começou quando alguns DJ´s rejeitavam certos discos por não achar que fossem música para baile. "E me davam tudo de presente. Só que eu resolvi tocar e deu certo", conta. E assim, desde 1981, Corello faz bailes sem o estigma da violência: "num baile charme damos uma aula de civilidade."

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