Editora Seoman
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Biografia vai aos porões de Janis Joplin, morta há 50 anos, quando a festa ia começar

Como defende a autora Holly George-Warren, trata-se de um olhar para as complexidades da personalidade de Janis explorando vida íntima e feitos musicais ao mesmo tempo

Julio Maria , O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2020 | 05h00

O subtítulo é um tanto pretensioso. Janis Joplin – Sua Vida, Sua Música – A Biografia Definitiva da Mulher Mais Influente da História do Rock. O problema está na palavra “definitiva”, um termo que o mercado de biografias adora, mas ao qual os biógrafos jamais deveriam sucumbir. Afinal, elas não existem. E mesmo esta que sai agora no Brasil pela Editora Seoman, às vésperas de se completar 50 anos da morte de Janis, em 4 de outubro de 1970, quando a festa da década estava para começar, não pode ser considerada assim apesar de todas suas visíveis boas intenções. Sim, como defende a autora Holly George-Warren, trata-se de um olhar para as complexidades da personalidade de Janis explorando vida íntima e feitos musicais ao mesmo tempo, algo que seria indissociável em uma carreira passional como a de Janis. No entanto, e até por se tratar de uma mulher tão gigante, jamais haverá alguma abordagem completa.

A própria Warren, ao ser informada sobre a existência de uma história no Brasil de que um roqueiro chamado Sergei (morto em 2019, aos 85 anos) teria tido um affair com Janis durante sua passagem pelo Brasil, se interessa pelo assunto: “Ela conheceu David Niehaus (seu maior amor) logo depois de chegar ao Rio, então seu caso com Sergei deve ter acontecido antes. Eu gostaria de saber mais detalhes sobre isso”. Talvez o detalhe chegue um pouco tarde para a biografia que ela mesma venda como “definitiva”. Por outro lado, aqui está uma boa visão sobre Janis Joplin e de como foi formada sua personalidade artística desde os seus primeiros anos.

Das vozes que a atravessaram até o ponto de tornar a sua própria algo poderoso, o livro aborda a importância de Bessie Smith. A “Imperatriz do Blues”, nascida no Tennessee, em 1894, ganhou evidência nas décadas de 20 e de 30 e foi descrita por Carl Van Vechten como se conseguisse “abrir o coração com uma faca até expô-lo, de modo a fazer-nos sofrer junto com ela, exposta com uma ferocidade rítmica”. Janis leu essa citação, segundo Holly, e se tornou uma obcecada por Bessie depois de já conhecer outro poderoso totem dos primeiros anos do blues, o cantor e compositor Leadbelly, preso por quatro vezes, acusado de dois homicídios. “Ninguém jamais me afetou tanto”, dizia Janis sobre Bessie, afirmando exageradamente ter passado os dez primeiros anos de sua vida tentando ser Bessie. “Ela me fez querer cantar.”

A montanha-russa das emoções, um coquetel autodestrutivo de frustrações amorosas, incapacidade de sentir-se aceita e decepções, havia começado cedo e, aos 22 anos, Janis já havia chegado bem perto da morte. Quando percebeu que seu vício em anfetaminas poderia tornar o romantismo de um suposto script cinematográfico em tragédia real, decidiu se esforçar. Sofreu de forte depressão, crises de ansiedade, transformações repentinas de humor e instabilidades de apetite que a faziam ganhar e perder peso constantemente. Janis, mesmo depois de começar a cantar, tentou ser a filha que os pais desejavam, conta Holly. Ao aceitar levar adiante um noivado com Peter de Blanc, ela poderia “afinal encaixar-se, e a vida doméstica aplacaria a escuridão e o turbilhão que trazia dentro de si”. Mas De Blanc foi uma tragédia. Mentiroso e desonesto, manteve Janis fragilizada por perto até quando pode.

Quando tudo enfim terminou, com a última carta que Janis envia a ele – e essas cartas são um material precioso do livro – Janis, para o bem e para o mal, voltou a ser ela mesma e reatou suas relações com a música da qual havia se distanciado como parte de sua tentativa de se reerguer das drogas. Além do blues, o vício em codeína, uma espécie de paracetamol, a inspirou a fazer uma letra para a música Cod’ine, da cantora Buffy Saint-Marie, algo que ganhou uma interpretação explosiva. “No dia em que nasci, a morte sorriu”, dizia em uma parte.

A autora Holly fala sobre a tarefa de escrever sobre uma personagem tão visitada por estudiosos do rock and roll, objeto de outras biografias. “Eu tentei mostrar um lado que não estava nos outros livros. Eu queria descobrir como ela se tornou a musicista que era.” Teria Janis acreditado demais na personagem que criou sobre si mesma, dado seu fascínio por histórias igualmente trágicas como a de seus ídolos? Holly diz que não. “Ela sabia que havia se tornado a personagem/pessoa que desenvolveu com o tempo. Às vezes, se cansava de ser ‘Janis’, mas apreciava a fama que isso lhe trazia.”

A relação de Janis com sua banda, a Big Brother and the Holding Company, é tratado com toda a complexidade das vivências de estrada. Com o passar dos primeiros tempos e a descoberta de Janis pela indústria, seus integrantes Peter Albin (baixo), Sam Andrew (guitarra), David Getz (bateria) e James Gurley (guitarra) foram, de certa forma, ficando para trás. Ou sendo tragados pelo talento de uma garota que nem sequer pedia para ter seu nome à frente do grupo. Mas estar em uma banda, ainda que não houvesse nela nenhum Eric Clapton, foi importante. Se por um lado o guitarrista Gurley abreviou seu tempo na terra trazendo a heroína para o seu desfrute, por outro, as canções chegavam graças às conexões com outros artistas feitas por meio do grupo.

Jack Casady, por exemplo. Foi o baixista do Jefferson Airplane que levou uma sugestão que se tornaria o primeiro grande sucesso do grupo e de Janis.

Piece of My Heart, de Jerry Ragovoy e Bert Berns, havia sido gravada por Emma Franklin em uma versão deliciosamente soul. Pois Janis a ouviu e resolver fazer de seu jeito, gravando a versão definitiva da música (sim, ao contrário das biografias, as músicas são passíveis do adjetivo). Emma, uma cantora excepcional, teve dois problemas na vida. Ela era irmã de Aretha Franklin, um peso intransponível a qualquer terráqueo, e gravou a mesma canção que serviria como o cartão de chegada de Janis.

Gurley, aponta Holly, sofreu depois de ver Jimi Hendrix em ação. Seu consumo de heroína, álcool e calmantes só aumentou e ele foi perdendo espaço, ainda mais perturbado com os holofotes cada vez mais voltados à vocalista. O segundo guitarrista Sam Andrews, aos poucos se tornando o primeiro, disse o seguinte à biógrafa: “Usávamos heroína por achar que tínhamos que fazer isso – era o que Charlie Parker tinha feito, assim como tantos grandes nomes”. Os perigos da romantização da própria vida rondavam todos. Janis havia devorado a biografia de Billie Holiday, publicada em 1956, que detalhava os vícios que a levariam à morte prematura.

A história contada pelo tubarão da indústria do disco, Clive Davis, é, de certa forma, confirmada na biografia. Davis diz que, logo depois de contratar Janis, recebeu dela um convite inesperado. Havia sido durante a visita de Janis e sua banda ao edifício de Nova York que abrigava a CBS e a Columbia Records em uma tarde, depois que a cantora leu uma crítica no New York Times na qual o jornalista Robert Shelton escrevera uma matéria intitulada Nasce uma estrela do rock na Segunda Avenida. Dias antes, Janis havia se declarado ao produtor Albert Grossman de brincadeira: “Albert, estou tão feliz que quero trepar com você”. O próprio Grossman ligou para Clive e disse que Janis havia falado que gostaria de ir para a cama com ele também nesse dia, mas o diretor achou melhor declinar do convite.

Sobre o Brasil, a ligação com Janis, segundo a biografia, era, até então, por meio do filme Orfeu Negro, de 1959. Desde que o assistiu, Janis tinha vontade de conhecer o carnaval. Então, depois de seu aniversário em 19 de janeiro de 1970, num momento em que tentava livrar-se da heroína, ela veio com a amiga Linda Gravenites e se divertiu muito com a forma como foi recebida. Ao telegrafar à amiga Myra Friedman, disse que se sentia como Brigitte Bardot. “Nunca tive uma recepção de imprensa tão incrível.”

Deitada nas areias de Ipanema, as amigas viram chegar dois norte-americanos, sendo um deles David Niehaus. Juntos, aproveitaram o Rio, tentaram dançar samba e foram parar na Bahia. Niehaus tentou ajudar Janis nas crises de abstinência e se tornou sua maior paixão, mas nenhum dos dois quis abrir mão de suas vidas para se dedicarem um ao outro. Ao final, com Niehaus viajando pelo mundo, Janis cantaria a ele Cry Baby e Move Over. “Ela realmente amou estar aí, foi uma época muito feliz. Janis queria fazer um show de rock gratuito no Rio”, conta a autora.

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