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Biografia de Duke Ellington revela um artista mais admirado do que amado

Obra aborda desde suas contribuições ao jazz a briga com músicos que o acusavam de roubar melodias

Lucia Guimarães / Nova York, O Estado de S. Paulo

29 de dezembro de 2013 | 03h00

A capa da biografia Duke, a Life of Duke Ellington mostra um raro close up da cicatriz no rosto do músico que elevou o jazz à grande arte de composição nativa dos EUA. A origem da cicatriz recebeu versões variadas do próprio gênio opaco, nascido Edward Kennedy Ellington, em 1899. Mas o novo biógrafo de Ellington, Terry Teachout, deixa claro que não foi acidente e sim uma navalhada recebida na cama da mulher Edna, de quem Ellington nunca se divorciou e a quem nunca foi fiel.

“Não deixe ninguém arruinar seu belo estado de espírito.” Quando encontrei Mercedes Ellington, pouco antes do centenário de Duke Ellington, ela repetiu A frase que sempre ouviu do avô sobre o preconceito racial. O conselho resume a atitude que fez Ellington merecer o apelido de Duque e ajuda a explicar seu sucesso numa sociedade dominada por brancos.

Seu instrumento não era o piano e sim a orquestra, o diagnóstico preciso é de Billy Strayhorn, seu mais talentoso e mais explorado parceiro. Duke não contém novas revelações sobre o grande compositor mas é reveladora por costurar a narrativa de um artista que foi mais admirado do que amado. Autor da elogiada Pops, A Vida de Louis Armstrong, Teachout resiste aos floreios característicos da persona pública de Ellington. Faz a crônica de seu enorme talento e do mau comportamento, que incluía assumir crédito e receber direito autoral por melodias clássicas compostas por seus músicos, como Sophisticated Lady ou Mood Indigo. Mas se hoje seria impossível um compositor se apropriar tanto, Teachout acredita que Ellington teria chegado onde chegou, ainda que por um caminho criativo mais árduo.

Terry Teachout, autor da nova biografia de Duke Ellington, já havia lançado em 2010 um livro sobre Louis Armstrong. Pergunto a ele, depois de passar uma década debruçado sobre os dois gigantes do jazz, qual a companhia que prefere ou, como perguntam os americanos, com quem gostaria de tomar uma cerveja. “No caso de Armstrong, seria fumar um baseado”, responde o autor com uma gargalhada. “Nunca conversei com alguém que não amasse Armstrong. Ellington inspirava respeito mas, afeto? Não sei.”

Por que a biografia começa em 1943, o ano do primeiro concerto de Ellington no Carnegie Hall?

Gosto de começar biografias num momento chave que aponta para o passado e o futuro e que possa resumir uma grande transição. E, para Ellington, foi aquela estreia. Ele era sensível à questão do prestígio, preocupado com sua estatura, no mundo do jazz e na cultura em geral. E, para ele, estrear no Carnegie Hall com a peça mais ambiciosa que havia composto, Black Brown and Beige, foi para mim uma oportunidade.

A ironia é que o concerto expõe o gênio e também as limitações de Ellington como compositor.

Com certeza. Ele era um gênio complicado, com um lado meio perverso. Só começou a escrever a composição do concerto mais importante de sua vida seis semanas antes da estreia. Isto era típico da personalidade dele.

Ellington era mestre em se manter misterioso para o público e a imprensa. Foi um desafio construir a biografia através de testemunhos?

Sim. Minha biografia anterior foi sobre Louis Armstrong, um homem aberto que escreveu sobre si mesmo e se correspondia bastante com outros. Com Ellington, é preciso se apoiar em entrevistas formais, ele não manteve um diário, quase não mandou cartas. E a autobiografia que escreveu, Music is My Mistress, foi evasiva e pouco reveladora. É preciso contar sua história com base na narrativa de quem o conheceu e decidir quem tem credibilidade é mesmo um desafio.

Por que diz que escolheu escrever um certo tipo de biografia, não um tratado acadêmico musical?

Eu incluí muita pesquisa original no livro mas também trabalhei com enorme quantidade de material pesquisado por acadêmicos, cujo trabalho é conhecido mais pelos colegas e não pelo público em geral. Achei que a minha tarefa era transformar tanto conhecimento especializado numa narrativa que tivesse a força de um romance, mas sempre apontando as fontes. O meu livro é uma janela para tudo o que se conhece sobre Duke Ellington até o momento.

O que faz de Duke Ellington um compositor único?

As big bands apareceram antes de Ellington. Mas ele foi o primeiro compositor de jazz a usar a orquestra com imaginação em cor e na flexibilidade estrutural que, até então, um autor clássico trazia para uma sinfônica. As primeiras gravações importantes de Ellington, em 1926, introduziram esta mudança no jazz. Antes o jazz não era fundamentalmente uma arte do compositor e sim do improvisador. O jazz ainda é uma arte de improvisação mas, quando um compositor talentoso aparece, seja Ellington então, ou Maria Schneider hoje, consegue integrar composição e improvisação.

Ele tinha uma relação complicada, às vezes hostil, com seus músicos. Alguns brigavam, saíam e voltavam, não?

Era comum brigarem porque Ellington usava suas improvisações como base para escrever composições. Ele queria assumir o crédito sozinho e pagar apenas um cachê fixo ao músico. O arranjo se tornou insustentável e ele fez novos acordos. Mas houve músicos que nutriram um profundo ressentimento por ele assumir autoria e direitos autorais de composições famosas. Sophisticated Lady deve ser o melhor exemplo. Ele não escreveu uma nota da melodia. Parte da melodia é do trombonista Lawrence Brown, parte do Otto Hardwick, o saxofonista. O que o Ellington fez foi combinar suas ideais musicais numa canção. O nome dos autores continua desconhecido do público. Mas os músicos ficavam com ele porque ele era Duke Ellington. Ele pagava bem, escrevia arranjos que destacavam os solistas e também porque, se eles tinham propensão a se comportar mal na vida privada, Ellington não prestava atenção.

Ellington era então o grande harmonista e não um melodista.

Exatamente. Ficou claro para mim que, como Beethoven e Stravinski, o grande talento de Ellington era a harmonia e ritmo, não a criação de linhas melódicas. Canções populares que o tornaram famoso, como Mood Indigo ou Sophisticated Lady, têm a mão de outros músicos.

Por que considera 1940 o auge de sua carreira?

Ele começou com a orquestra na década de 1920. Com a passagem de inúmeros músicos, ele estava experimentando nos arranjos, lembro que era basicamente um autodidata. Quando chega 1940, tudo parece se ajustar. Ele já tinha uma obra expressiva, sabia como usar seus melhores instrumentistas e dois músicos seminais se juntaram a ele, o contrabaixista Jimmy Blanton e o sax tenor Ben Webster. Durante dois anos, ele parece não conseguir criar nada menos do que uma pequena obra prima. E acho que Ko-ko, daquele período, pode ser a mais perfeita das composições curtas de Ellington. É um blues em tom menor, poderoso, dissonante, a orquestra está esplêndida, os solos não têm tanta importância. Reina a composição com sua forma perfeita, ela avança para um clímax, usa uma economia de recursos, tudo o que Ellington tinha de melhor está ali.

Ellington tinha sinestesia, descrita geralmente como uma contaminação de sentidos. O quanto isto se reflete na sua composição?

Ellington era uma das raras pessoas que, quando ouvem um som, veem uma cor. Entre compositores clássicos, Olivier Messiaen é um sinestésico conhecido. Acho que a grande sensibilidade de Ellington para cor em composição deve ser relacionada à sinestesia. É como se ele experimentasse o mundo em outra dimensão e incorporasse isso na musica. Ele mesmo falou muito sobre o assunto, sobre sua sensibilidade a estímulos visuais.

Vamos falar da importância da relação pessoal e musical de Ellington com Billy Strayhorn.

Eles se encontraram em 1939 quando Strayhorn era muito jovem e desconhecido. Ellington percebeu de imediato o talento dele e o trouxe para o grupo como arranjador. Strayhorn decifrou o código do método de composição de Ellington. E foi transformado basicamente num compositor assistente. Ele arranjou a maioria das canções populares da orquestra e, mais tarde, os dois escreveram juntos peças mais longas como Such Sweet Thunder. Sua relação era complicada, parte de pai e filho - o pai de Strayhorn era um homem violento. Mas Strayhorn era homossexual em uma época em que ser gay não era aceito no mundo do jazz. Ele não poderia ser abertamente gay e ao mesmo tempo ser uma figura pública com a orquestra. Então, houve este pacto. Strayhorn compunha para a banda mas não aparecia. Ganhava um bom salário e vivia como queria, com seus namorados. Não dava entrevistas. E, em retorno, Ellington se beneficiava deste grande artista nos bastidores. Se, de maneira geral, Ellington não tentou roubar o crédito de Strayhorn, nós temos esta figura carismática e famosa recebendo toda a glória e um outro artista que o público na época desconhecia. Strayhorn escreveu a canção tema de Ellington, Take the A Train, a maioria das pessoas não sabe disso. Mesmo quando o nome dos dois apareceu em álbuns, mais tarde, até críticos achavam que Ellington era o principal compositor. Até no caso de uma composição como Isfahan, da The Far East Suite, totalmente composta por Strayhorn, se tornou um ponto de contenção entre eles.

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