John Shearer/Invision/AP
John Shearer/Invision/AP

Billy Corgan quer colocar Smashing Pumpkins no futuro

O líder da banda fala em criar algo mais próximo do teatro

Gary Graff, The New York Times

23 de fevereiro de 2015 | 02h06

Como muitos de seus colegas da música, Billy Corgan está otimista em relação ao futuro - e ansioso para conhecê-lo.

As vendas de álbuns em geral estão em baixa, como o fundador dos Smashing Pumpkins constatou recentemente com os lançamentos de Oceania (2012) e Monuments to an Elegy (2014), discos que fazem parte de um projeto maior, Teargarden by Kaleidyscope, no qual a banda vem trabalhando desde 2009. Há também a impressão de um interesse minguante nos álbuns, ou nas obras musicais de duração mais longa em geral, algo que pareceu um desafio a Corgan, um entusiasta dos antigos LPs de vinil.

"Nunca fui tímido em relação às minhas inclinações populistas", disse Corgan, 47 anos, sentado no Madame ZuZu, um café/casa de chá que pertence a ele em Highland Park, subúrbio de Chicago, onde também vende alguns de seus vinis usados, bem como outros artigos de interesse. "Para mim, o problema é que não vejo que interesse os outros músicos teriam em fazer álbuns."

"A indústria musical ainda gira em torno dos álbuns e da sua data de lançamento", prossegue, "mas, como já vimos, há um grande estardalhaço durante os primeiros dias, e depois a empolgação evapora. É muito difícil de manter o interesse. "E, como artista, sinto grande dificuldade em me comprometer com o longo e tortuoso processo de fazer um álbum - são doze ou vinte e quatro meses - sabendo que o interesse por ele vai evaporar em questão de dois dias ou duas semanas, com base num comentário, numa tendência das mídias sociais que, a qualquer momento, pode decidir se ainda somos interessantes ou não", disse. "Assim, fico pensando que deve haver uma maneira de criar outra forma."

Corgan, que recentemente deu as costas a outro de seus projetos paralelos - a liga de luta livre Resistance Pro Wrestling -, tem até uma ideia de como poderia ser essa nova forma. "Espero que possamos criar uma forma na qual tenhamos algo mais vivo, mais parecido com o teatro ou algo do tipo", explicou ele, "podendo se movimentar e expandir sua música, ser tocado durante algum tempo e registrar o resultado no final, ou quando chegar na melhor parte, de modo que tenhamos começo, meio e fim, chegando a uma espécie de melodia final (que sinaliza a conclusão)".

Corgan e os Smashing Pumpkins, grupo de Chicago formado por ele em 1988, fizeram sucesso com a velha forma de fazer música, é claro. Começando com Gish (1991), o grupo lançou quatro discos seguidos que alcançaram pelo menos o disco de platina, com mais de 30 milhões de cópias vendias em todo o mundo, ganhando também um par de Grammys. Só o épico duplo Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995) ganhou dez discos de platina nos Estados Unidos, com sete indicações ao Grammy.

Canções do grupo como Cherub Rock (1993), Today (1993), 1979 (1995), Tonight, Tonight (1995) e Bullet with Butterfly Wings (1995) integram qualquer coleção do auge do rock alternativo dos anos 1990, e a banda foi a atração principal do festival Lollapalooza em 1994.

Mas o grupo sempre se viu cercado de controvérsia, em boa parte por causa do hábito de Corgan de fazer comentários mordazes a respeito da fama e dos demais músicos. Ao promover Monuments to an Elegy, por exemplo, ele fez comentários surpreendentes a respeito das bandas Pearl Jam e Foo Fighters - pelos quais ele não se desculpa. "Sou sincero no momento em que digo esse tipo de coisa", comentou. "Não estou tentando puxar uma briga ou fazer as pessoas falarem a meu respeito. É sério."

Os Smashing Pumpkins começaram como uma banda convencional de quatro integrantes, mas, hoje em dia, o grupo é menor e mais insular, formado apenas por Corgan e o guitarrista Jeff Schroeder, que começou a participar em 2007. Na verdade, Corgan chegou a desativar completamente os Smashing Pumpkins em 2000, começando uma nova banda, Zwan, e lançando um álbum solo, TheFutureEmbrace (2005), antes de dar vida nova ao grupo com o baterista original, Jimmy Chamberlain, naquele mesmo ano.

Até hoje ele fala com ambivalência na continuidade que existe entre a música que faz hoje e o som de sua banda original. "Pessoalmente, estou disposto a dar outro nome ao projeto", disse Corgan, "mas foi o público que não me permitiu deixar isso para trás. Então, acho que a solução é dar de ombros e dizer 'OK'. Quem se importa com o nome? Ainda sou eu, continua sendo a minha música… Se fazem questão de chamar assim (Smashing Pumpkins), que seja. No momento, o conceito é bastante aberto".

Teargarden by Kaleidyscope, um projeto de download na internet desenvolvido para lançar uma canção ou conjunto de canções de cada vez, foi a aposta de Corgan para trazer os Smashing Pumpkins para o futuro, mas talvez esteja um pouco à frente de seu tempo. Isso o levou a novas tentativas com os álbuns convencionais com Oceania, embora ele afirme que Monuments to an Elegy e uma sequência planejada para 2015 e intitulada Day for Night continuam a ser partes dessa ambição maior.

"Em algum momento tive que redefinir pessoalmente o significado de estar numa banda", disse Corgan. "É o veículo por meio do qual transmuto um tipo de abordagem - no meu caso, algo como o rock'n'roll - que existe em toda parte, entre os Beatles e o Led Zeppelin e coisas do tipo, e outras influências externas que não me parecem ser exatamente como os Smashing Pumpkins, embora entremos nesse território."

"Basicamente, é o meu sonho, e o fato de eu ter compartilhado esse sonho com outras pessoas em alguns momentos foi às vezes um prazer - e às vezes uma chateação." Schroeder, que coproduziu Monuments to an Elegy, disse numa entrevista separada que, de sua parte, foi um prazer na maioria das vezes. Ele cresceu em Silverlake, Califórnia, como fã dos Smashing Pumpkins, e entrou para a banda com "um profundo amor e respeito pela (sua) música".

Corgan disse que essa atitude o ajudou a conservar o próprio entusiasmo. "Às vezes, é como se ele conseguisse enxergar fora da bolha". 

Ele disse ainda que Schroeder assumiu um papel criativo ainda maior em Monuments to an Elegy, incluindo a análise de uma "imensa pilha de canções" para criar a versão final do álbum, com nove faixas. 

"Seria interessante olhar a lista original", disse Schroeder, "porque provavelmente apenas 60% daquilo que se tornou o álbum final fazia parte do conjunto inicial de canções. Houve um momento em que tínhamos algum material pronto e, ao analisá-lo, percebemos que ainda faltava algo, que ainda estávamos à procura de outro som, e tentamos compor mais". 

Foi também por sugestão de Schroeder que os Smashing Pumpkins chamaram o baterista do Mötley Crue, Tommy Lee, para tocar no álbum. 

"Ele é um músico incrível", disse Corgan. "É o tipo de pessoa que sabe viver a vida. Tem uma personalidade vivaz e, ao trabalhar com ele, isso se traduz bem musicalmente. A compreensão instantânea que ele tem da música e sua abordagem deram ao som o tipo de eletricidade que talvez fizesse falta há algum tempo. Ele simplesmente trouxe essa energia e pronto, a música instantaneamente ganhou um novo elemento fantástico."

"Fazia anos que Billy não se entregava assim ao rock", disse Lee em entrevista separada. Corgan discorda, embora muitas das resenhas do álbum digam praticamente o mesmo. "Eu implicaria com a ideia de chamar esse disco de um 'clássico' álbum dos Smashing Pumpkins", disse ele. "Para os meus ouvidos, acho que temos a energia dos velhos discos dos Smashing Pumpkins, mas a musicalidade é diferente."

"Não passa de um truque de iluminação", prosseguiu o cantor. "Temos aquela vibração que identificamos com os Smashing Pumpkins, e conseguimos isso ao manter o foco naquilo que eu provavelmente faço melhor, que é compor ótimas músicas sem medo de fazê-las soar demasiadamente conhecidas ou acessíveis."

Corgan disse que o próximo lançamento, Day for Night, é "um álbum completamente diferente de Monuments", com ideias musicais que talvez façam os fãs se lembrarem do experimental Adore (1998), e letras com conceitos que conduzem a Siamese Dream (1993), que obteve quatro discos de platina./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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