andre lauz/divulgação
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Bienal Música Hoje está redefinindo o fazer e a escuta musical

Evento realiza a sua terceira edição com pioneiro trabalho em rede

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2015 | 03h00

CURITIBA - O prédio da Universidade Federal do Paraná, inaugurado em 1915, tornou-se, no sábado, 22, espaço de experimentação. Pontualmente às 20h, começou a ecoar por seus corredores a obra Thirteen, de John Cage. Foram pouco mais de 20 minutos de música – e, na hora seguinte, por diversos cantos do prédio, grupos passaram a interpretar uma série de obras. No primeiro andar, uma orquestra de câmara – ou um trompete solo; no segundo, um quarteto; no subsolo, piano e contrabaixo; e assim por diante. O público, enquanto isso, percorria o prédio, desvendando experiências sonoras. 

O “concerto” encerrou a 3.ª edição da Bienal Música Hoje, promovida pelo coletivo entreCompositores, formado por Márcio Steuernagel, Fernando Riederer, Lucas Fruhauf, Vinicius Giusti e Luiz Malucelli. O evento já é um marco da cena contemporânea brasileira. E isso tem a ver com a própria noção que deu origem ao entreCompositores: defender a experimentação e, sem patrulhas estéticas, abrir espaço para o trabalho de quem se dedica à música nova. “Damos apenas algumas diretrizes na hora de montar os programas: ter pelo menos uma obra de autor brasileiro, uma obra de uma compositora e uma peça clássica do século 20”, explica Steuernagel.

Nesse espírito, a programação de sexta e sábado contou com a apresentação de Estudo n.º 1 para Dançarina e Quarteto, investigação sobre a possível relação entre dança e música na qual a coreografia “rege” os instrumentistas, criação do compositor José Luis Manrique e da bailarina Marila Velloso; um concerto da pianista Ana Cláudia Assis com peças para piano e sons eletrônicos, para vídeo e sons eletrônicos e para piano, vídeo e sons eletrônicos, de autores como João Pedro Oliveira; uma amostra de obras de autores como Silvio Ferraz, Maurício Dottori, Fernando Riederer e Edson Zampronha, pela Nova Camerata; ou o experimento sonoro no prédio da universidade.

Por toda a programação, perpassa uma ênfase na percepção. Ela aparece, por exemplo, na fala do compositor Harry Crowl, quando sugere, em conversa com o público, as possibilidades de escuta de um experimento como o proposto pelo concerto de sábado; ou na explanação de Dottori, antes da apresentação da Nova Camerata, chamando atenção para os “novos territórios” que cada obra programada sugere ao público. Em outras palavras, o que se propõe, na teoria e prática, é a redefinição da escuta.

A riqueza da proposta da bienal contrastou, neste ano, com a falta de patrocínio e apoio. “Havíamos decidido: se não tivéssemos condições financeiras de fazer, não faríamos. Mas o fato é que, no momento em que optamos pelo cancelamento, surgiu, dentro da comunidade musical, uma sensação de que a bienal precisava acontecer: se não tivesse dinheiro, as pessoas se mobilizariam em torno do projeto”, diz Fruhauf. Então, eles se deram conta de que, nas últimas edições, a bienal foi além do simples evento e ajudou a renovar a disposição em torno da nova música na cidade.

“A filarmônica da UFPR, anos atrás, estava apenas começando a tocar esse tipo de obra e hoje entende a interpretação da criação contemporânea como uma das marcas de seu trabalho. Surgiu o Núcleo Música Nova, que reúne compositores. E uma geração ainda mais nova de autores se reuniu no Círculo de Invenção Musical. No espírito de rede, todos participaram da bienal e nos ajudaram”, diz Steuernagel. “Essa união faz de Curitiba hoje um polo importante nesta área”, completa.


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