Bienal aposta no ineditismo da música contemporânea

A 14.ª Bienal de Música Brasileira Contemporânea, de hoje ao dia 31, olha para o futuro. Ao contrário da edição anterior, que fez uma retrospectiva da produção nacional trazendo ao Rio os compositores que marcaram a segunda metade do século 20, a característica comum às obras a serem apresentadas na Sala Cecília Meirelles, Teatro João Caetano e Salão Leopoldo Miguez, da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é o ineditismo. Nenhuma peça a ser apresentada foi ouvida na cidade e boa parte será executada pela primeira vez."Na Bienal passada, a última do segundo milênio, conferimos o resultado das experiências musicais dos últimos anos. Agora queremos conhecer o novo. Devido à exigência do ineditismo, compositores importantes ficaram de fora por não ter peças a estrear", explica o coordenador da Bienal, Flávio Silva. Ele é diretor do Departamento de Música da Fundação Nacional de Artes (Funarte), que promove o evento com a Rioarte, e substitui o maestro Edino Krieger, criador da Bienal e seu diretor até 1999. "A diversidade de estilos é enorme. Afinal, o rótulo contemporâneo diz mais respeito à cronologia que à estética. Aplica-se às peças criadas nos dias de hoje."E os compositores e instrumentistas atacaram em todas as frentes, nessa Bienal que pode ser dividida em duas partes: o Concurso Nacional de Composição, que apresentará 30 peças divididas em dez categorias, que vão de solos a sinfonias, e a apresentação de peças de compositores convidados. Aí, os destaques vão para a Cyclophonica, criação coletiva dirigida por Leonardo Fuks, misturando instrumentos acústicos, elétricos e bicicletas e o mato-grossense Roberto Vitório, que trará obras inspiradas em música indígena, tocada em flautas e tambores dos bororós.Silva reconhece que a eletrônica está mudando a forma de se produzir música, mas acredita que muitos compositores estão se voltando para os instrumentos acústicos (ou sua combinação com a eletrônica) e compondo de forma mais tradicional. "Há cerca de 20 anos, era quase pecado mortal apresentar uma peça tonal, fugindo ao serialismo ou ao dodecafonismo. Hoje, essa tendência mudou um pouco, há quem experimente, mas boa parte dos compositores já encontrou seu caminho. Não dá para ficar experimentando a vida toda", teoriza o coordenador. No entanto, ele lembra que o número de pessoas que se dedica à música erudita é animador e a Bienal reflete essa situação. "Cresce o número de alunos das escolas de música e os cursos de composição e, só para o Concurso da Bienal, foram apresentadas 166 peças novas. Posso garantir que pelo menos 80% tinham alta qualidade técnica", conta Silva. Ele só não sabe o que vai predominar no encontro, se a música tradicional ou a que usa recursos modernos. "Quem faz música acústica, mesmo que invente um instrumento novo, não foge muito à linguagem tradicional. Já a música eletrônica está criando tudo novo, é como inventar as palavras e a gramática de uma nova língua. Só depois da Bienal será possível saber o que predomina."

Agencia Estado,

22 de outubro de 2001 | 11h44

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