Bibi Ferreira estreia show em que canta músicas de Sinatra

Espetáculo reforça plano de tornar Bibi conhecida nos EUA

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

17 Setembro 2014 | 03h00

Bibi Ferreira é uma artista acostumada a ousadias. Depois de encantar os franceses com o repertório de Edith Piaf e os portugueses com o fado de Amália Rodrigues, a cantora prepara-se para um novo feito: apresentar um espetáculo apenas com músicas interpretadas por Frank Sinatra. “Acho que serei a primeira mulher no mundo a fazer isso”, acredita Bibi, esbanjando confiança nos seus 92 anos. O resultado poderá ser conferido a partir de sexta-feira, no Teatro Renaissance, com a estreia do espetáculo Bibi Ferreira Canta Repertório de Sinatra.

O roteiro traz 23 canções, algumas unidas em pot-pourri, outras apenas apresentadas por meio da melodia. “O principal entrave é que o repertório dele é extremamente masculino”, comenta Bibi. “Isso me impediu de escolher algumas músicas que me agradam muito, mas que são impossíveis de cantar.”

Acompanhada de uma orquestra de 18 músicos, ela teve a ideia de montar o show após uma brincadeira de bastidor em torno de um certo temor que o cantor tinha, que Bibi chama de “efeito Sinatra”: o medo de abrir a boca para cantar e a voz não sair.

O receio também rondou sua preparação. “Interpretar Sinatra empolga qualquer um, mas, durante os ensaios, quando ouvia CDs com suas canções, eu me sentia humilhada”, conta. “Decidi não fazer nenhum tipo de comparação, pois, quando fazia isso, não cantava com alegria, com vontade.”

A primeira ousadia de Bibi Ferreira - participar de um show apenas com músicas eternizadas por Frank Sinatra - será seguida de outra: levar o espetáculo para os Estados Unidos. “Estamos planejando apresentações em Las Vegas e Nova York, no final do ano que vem”, comenta Bibi, que cantou duas vezes em solo americano no ano passado, quando foi aplaudida em pé por três vezes.

Tais concertos fazem parte de uma estratégia de internacionalização da figura de Bibi, que ganha corpo ainda neste ano: até o Natal, a rede de livrarias Barnes & Nobles deverá oferecer dois CDs (Bibi, Histórias e Canções e Brasileiro, Profissão Esperança) e uma biografia da cantora brasileira escrita em inglês. “Ela será apresentada como ‘the new Brazilian Bombshell’”, conta Nilson Raman, seu empresário há mais de 20 anos, repetindo a forma como Carmen Miranda ficou conhecida em Hollywood.

O passo decisivo, no entanto, será o show com canções de Sinatra - em outubro, duas apresentações no Teatro Renaissance serão gravadas em vídeo, para um DVD que será lançado no Brasil até o fim do ano, juntamente com um box de CDs com sete discos. Os produtos também deverão chegar aos Estados Unidos.

A facilidade com o idioma é uma vantagem. Fluente em inglês por ter sido educada em escola britânica no Rio, ela podia entender os diálogos e as letras das músicas dos filmes americanos que assistia e, mais tarde, lhe deram sucesso no teatro de revista.

Nesse período também, descobriu a qualidade das canções interpretadas por Sinatra. “Ele sabia escolher músicas com versos muito bons, apurados, que se adequavam bem à sua voz”, observa ela que, ao montar o repertório de seu show, partiu de um princípio elementar: “Escolhi as que mais gosto e, claro, as que consigo cantar”, explica. “Sinatra tinha uma seleção mais propícia à voz masculina, o que impõe desafios. I’ve Got You Under My Skin, por exemplo, de Cole Porter, é uma das mais difíceis de se cantar. Quase que a tirei da seleção.”

Em outros casos, pesou a preferência pessoal. Strangers in the Night (Bert Kaempfert/Charles Singleton/Eddie Snyder) é a canção que abre o show, mas apenas no formato instrumental. “O motivo é que detesto essa música, não gosto mesmo, mas descobri, por livros, que Sinatra também não gostava. Então, satisfeita com essa revelação, eu a coloquei na versão com instrumentos, assim não preciso cantar.”

No lado oposto, Bibi classifica That’s Life (Kelly Gordon/Dean Kay) como a sua preferida. O motivo é simples: é uma canção que a libera para também representar no palco. E sua apresentação acontece em um momento específico do show, ou seja, quando falta um terço para terminar. “É um lugar perigoso. Ali tem que haver um agudo, uma música muito importante, pois, se o show está decaindo, é a chance para reerguê-lo”, ensina.

Com 73 anos de carreira, Bibi encara o projeto como mais um desafio. “Nos anos 1960, quando produtores buscavam a protagonista para o musical Minha Adorável Dama, eu aceitei e ficamos dois anos em cartaz”, relembra, com orgulho. “Interpretei ainda Aldonza, de O Homem de La Mancha, mas não é um papel que me encanta, pois suas canções são muito românticas, apaixonadas demais, e eu gosto de algo mais ritmado.”

Corajosa, porém prudente - apesar de idolatrar Judy Garland, Bibi não se sente confortável em interpretar publicamente suas canções. “Fazer um show em homenagem a Judy exigiria muita responsabilidade”, comenta. “É mais fácil uma mulher cantar Sinatra que Judy Garland. A questão está na tessitura da voz, ou seja, mesmo não cantando bem as músicas dele, é possível relevar. Agora, as de Judy, não cantando bem, qualquer uma se dana.”

BIBI FERREIRA CANTA REPERTÓRIO DE SINATRA

Teatro Renaissance. Al. Santos, 2.233, tel. 3069-2286.6ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 140. Até 16/11. Estreia sexta (19).

SET LIST 

(1) 'Strangers in the Night'

(2) 'Night and Day'

(3) 'Please'

(4) 'Ol’ Man River'

(5) 'Nature Boy'/ 

'Autumn Leaves'/ 

‘Cheek to Cheek’/ ‘All of Me’ / ‘Someone 

to Light up My Life’ 

(6) ‘Dindi’ 

(7) ‘All the Way’ / 

‘The Lady Is a Tramp’ 

(8) ‘I Get a Kick Out of You’ 

(9) ‘I’ve Got You Under 

My Skin’ 

(10) ‘You Make Me 

Feel So Young’ 

(11) ‘Rock Around the Clock’

(12) ‘Fly me to the Moon’

(13) ‘That’s Life’ 

(14) ‘Meditation’ / 

‘Quiet Nights of Quiet 

Stars’ / ‘Water to Drink’ 

(15) ‘My Way’

BIS: ‘New York, New York’

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