Biafra ressurge e estréia como escritor

Ela tem espaço garantido nos momentos flashback que as rádios nacionais tanto gostam de fazer durante a madrugada. Sonho de Ícaro, gravada por Biafra em 1984, fez tanto sucesso nos anos 80, que se tornou cartão de visitas do cantor. "Biafra? Aquele do ?voar, voar, subir subir??", brinca o cantor se referindo à primeira estrofe da canção, uma das muitas de seu extenso repertório açucarado."Até gravei outros estilos de música, cheias de apelos sociais. Mas as pessoas querem ouvir poesia, querem se emocionar", diz Biafra com a experiência de quem tem no currículo mais de 20 anos de carreira, 12 discos lançados e canções independentes, que acabaram virando tema de novelas globais.Anda sumido dos palcos, da TV e dos estúdios desde 1998, mas seu estoque de baladas românticas está longe de terminar. Biafra acaba de lançar o CD Segundas Intenções, sem muitas novidades. "O importante é manter o estilo, ter uma identidade de cantor e não mudar apenas para se encaixar nas tendências do mercado".Ícaro volta com ele, agora promovido a personagem de livro. "Era apenas um título de canção, mas acabou virando meu porta-voz", diz o cantor que está à procura de uma editora para publicar O Vôo de Ícaro, sua estréia como escritor. "Ícaro pode falar tudo aquilo que eu penso, sem qualquer censura".Entre o ficcional e o biográfico. Este é Ícaro, espécie de amigo imaginário que Biafra inventou para lembrar seus tempos de menino. Aquele dos cabelos levemente compridos, sem papas na língua, que em 1979 chegou aos palcos cariocas querendo falar de problemas sociais e descobriu que clichês românticos tinham mais espaço nas rádios comerciais."Quantos meninos no fundo. Tanto sonho não vingou. Quem se lembrará?", cantava Biafra em Nos caminhos do Porto Argentino, de 1984, auge da Guerra das Malvinas. "Foi a música que mais gostei de gravar, feita para denunciar o massacre dos jovens argentinos. Mas ninguém me deu ouvidos", lamenta.O público preferiu ouvir seus agudos em Jogo Aberto, que Biafra cantou por dezenas de sábados consecutivos no programa do Chacrinha. "Passei dez anos participando toda semana do programa do Chacrinha. Ele confiava no meu trabalho", lembra. Foi graças aos esforços do velho guerreiro que o tímido garoto de Niterói se acostumou à vida de celebridade. "Ele me jogava em cima das mulheres. No começo, ficava roxo de vergonha".Constrangimento de garoto bem comportado, que começou a carreira cantando no coral da escola e tocando flauta doce, numa época em que ainda lhe chamavam por Maurício Pinheiro Reis, seu nome de batismo. "Sentia que a música erudita era para um público muito restrito, uma pequena elite. Então parti para a MPB, que me colocava mais perto do coração das pessoas", diz.Juntou alguns amigos do Coral do Centro Educacional de Niterói e fundou a banda O Circo, com a qual gravou seu primeiro álbum, Primeira Nuvem. "Tocávamos de tudo, de Bach ao frevo, passando pelo rock e pela música romântica", conta. Da salada musical do vocal Biafra e seu conjunto, o público elegeu a música Helena como preferida, selecionada também para compor a trilha sonora da novela Marron Glacê, de 1979. "Acharam que minha voz e jeito combinavam melhor com esse gênero, a partir daí, me tornei um romântico assumido".Desses, que aos 44 anos, pai de duas meninas, de mães diferentes, ainda têm pique para romances adolescentes. "Estou namorando, outra vez apaixonado", declara. Influência de um certo Ícaro, aquele que tinha mania de ser "sentimental em qualquer tom", como dizia a canção.

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