Bezerra da Silva traz seu novo show a São Paulo

Tem malandro na área: Bezerra da Silva. Sinônimo de inteligência, como ele costuma definir malandragem - termo que a cada dia ganha sentido mais pejorativo -, o grande partideiro indigesto lança sábado e domingo, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), o seu 26.º disco, Malandro É Malandro e Mané É Mané (Atração). Bezerra canta a realidade dos subúrbios que, por meio da visão dos compositores anônimos das favelas do Rio, transforma-se em sambas vibrantes e irônicos. Para ele não há meias palavras. É ou não é. A linguagem crua presente nas letras tem atraído até a garotada. No entanto, pode-se dizer que o mérito não se deve apenas à temática das canções (sem máscaras), mas também à construção sonora e o instrumental de que se vale o malandro. Durante 35 anos, ele foi músico profissional, acompanhando grandes intérpretes, integrando grandes orquestras (como a da Copacabana Discos, em São Paulo, ou a da TV Globo, no Rio). Agora, vem à cidade acompanhado de sua banda, Punhado de Bambas: Paulo Corrêa, Sérgio Fernandes, Stênio Barcellos, Carlos Alberto, Fabiano Ferreira, Denilson Santos, Leandro Alves, Luiz Felipe, Glaucio Alves e Isaías dos Santos.Malandro - Malandro é Malandro e Mané É Mané é um disco que registra a aproximação de Bezerra (mora no Rio) com São Paulo. Em recente entrevista ao Estadão.com.br, disse que não estava prestando uma homenagem à cidade. E explicou: "São músicas feitas por gente boa; o samba do Nenê eu ouvi uma vez e me disseram que a zona leste de São Paulo é discriminada; minha música é contra a discriminação". Fazem parte desse repertório Os DPs de São Paulo (Capri/Silvio Modesto), que abre o disco, e Zona Leste Somos Nós (Marco Antônio), samba-enredo da escola de samba Nenê da Vila Matilde.Bezerra não prestou homenagem a sampa, mas está tendo grande respeito com os manos da Zona Leste. Sábado, após o espetáculo no CCSP, ele vai à periferia. Por volta da meia-noite canta, com os Filhos de Gandhy, no Amigão Show, uma casa que fica na Avenida Marechal Tito, 2.813, no bairro São Miguel Paulista.Quem entrou também na onda de Bezerra foi a sua mulher, Regina do Bezerra. Ela estreou como compositora no disco anterior, Bezerra da Silva ao Vivo (CID), com a música Se Leonardo Dá Vinte... (por que é que eu não posso dar dois?). Nesse disco, ela também mandou bem. De autoria da primeira-dama, ele vai mostrar Tem Coca aí na Geladeira (Na minha festa não tem bebedeira/Porque aqui no meu barraco/Só tem coca aí na geladeira) - o tipo de samba com duplo sentido que gosta de cantar.O sambista não se declara santo, mas um "cara discreto", que se dedica à mulher Regina e aos estudos de música. Segundo Bezerra - que diz não ligar para o rótulo de cantor de bandido -, a sociedade quer acreditar que na favela só há marginal, mas 80% dos favelados são honestos. "Como as pessoas dizem, eu sou o embaixador do morro e dou voz aos compositores desconhecidos e oprimidos, pois são eles e suas famílias que sofrem no fogo cruzado do traficante e da polícia" afirma. "Quem está de fora, não sabe o que é descer o morro, com a marmita na mão, e ser enquadrado pela polícia sem motivo nenhum."No ano passado, a sabedoria do malandro ganhou análise acadêmica. Foi lançado o livro Bezerra da Silva, Produto do Morro - Trajetória e Obra de um Sambista Que não É Santo (Jorge Zahar), da antropóloga Letícia C.R. Vianna. Nele, a autora reconstituiu a formação do sambista, de origem pernambucana, que morou nas ruas do Rio durante sete anos. Além disso, contou sobre a sua passagem pela Marinha Mercante, o reencontro decepcionante com o pai e a ascensão social como artista. A partir dessas histórias, a escritora concluiu: "Bezerra é sociólogo sem diploma".Bezerra da Silva - Sábado, às 19h30, e domingo, às 18h30. R$ 12 00. Centro Cultural São Paulo. (Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611, ramal 250).

Agencia Estado,

12 de outubro de 2000 | 22h24

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.