Bezerra da Silva lança 2º disco da carreira

Canalhocratas, alcagüetes e manés, atenção! Bezerra da Silva está na área. De mansinho, sem alarde, ele chegou a São Paulo para lançar seu CD, Malandro É Malandro, Mané É Mané - o 26.º em 26 anos de carreira e o primeiro pela gravadora Atração Fonográfica. O disco traz tudo o que fez de Bezerra um músico com livre trânsito em todas as classes sociais: da turma de compositores "discriminados" às letras mostrando a realidade das favelas e de "um povo sofrido e marginalizado"."Falam mal das minhas músicas porque é um gênero que deu certo, que não conseguiram atravancar e, por isso, ficam me chamando de cantor de bandido, amigo do Escadinha, maconheiro", afirma Bezerra. Apesar da bronca, o cantor curte um bom momento na vida. A primeira alegria foi a troca de gravadora. Na anterior, a CID, ele rescindiu o contrato depois que passou a sentir-se lesado. "Meu CD ao vivo vendeu uma quantidade absurda e divulgaram um número muito menor", reclama. "Mas a música que canto eu guardo em casa, se estou aqui até hoje é porque sou eu quem faço as coisas acontecerem."Pode-se dizer que Malandro É Malandro, Mané É Mané marca uma aproximação de Bezerra da Silva com São Paulo. As faixas Os DPs de São Paulo (Capri/Silvio Modesto) e Zona Leste Somos Nós (Marco Antônio) - samba-enredo da escola de samba Nenê da Vila Matilde - transportam a temática denunciadora das opressões sociais para a capital paulista. Para o cantor, não se trata de uma homenagem. "São músicas feitas por gente boa; o samba do Nenê eu ouvi uma vez e me disseram que a zona leste de São Paulo é discriminada; minha música é contra a discriminação", explica Bezerra.Mas o disco não é só denúncia, a malandragem está lá, do jeito que a galera gosta. Na divertida Tem Coca aí na Geladeira, da primeira-dama Regina do Bezerra ("ela é mulher, empresária, figurinista e ainda faz marcação em cima nos shows; me deixa no zero a zero"), o cantor volta ao gênero entenda-como-quiser: "Na minha festa não tem bebedeira/Porque aqui no meu barraco/Só tem coca aí na geladeira."Papo de Malandro (G. Martins/Batatinha) é o próprio hino do malandro, desfiando expressões só encontradas numa conversa de boteco na Baixada Fluminense, regada a cerveja e cachaça: "Siri esperto/Arranca pelanca/E não cai no puçá/Come a isca por fora/E de barriga cheia/Se manda pro mar." Já em Medo de Virar Galeto (Luiz Grande/Barbeirinho do Jacarezinho/Marcos Diniz), a crítica social volta com graça: "O negócio tá preto/E urubu não vem na terra/Pra pegar seu rango/Porque tá com medo de virar galeto."Bezerra não quer saber se sua metralhadora verbal incomoda a "elite". Já foi acusado de fazer apologia às drogas, mas discorda com veemência. "Conheço o Código Penal, fui assessor jurídico", orgulha-se. "Uma vez, um juiz disse que a letra de A Semente fazia apologia da maconha, mas sei que você só fere a lei se elogiar a droga; se explicar o problema e falar da repressão, não está infringindo nada."Confusões - Um dos problemas que enfrentou foi Malandragem Dá um Tempo, que virou hit de rádios em regravação do Barão Vermelho. Quando gravou a música, na década de 80, o refrão "Vou apertar/Mas não vou acender agora" fez com que ele precisasse dar explicações às autoridades. "Uma vez me perguntaram se eu não estava incentivando a juventude a fumar maconha, mas essa letra nunca fez apologia; na verdade, se você ler com atenção, vai perceber que a música diz para não usar", esclarece Bezerra. "O trecho ´Se segura malandro, pra fazer a cabeça tem hora´ é um aviso para não fumar."Outra encrenca que Bezerra teve de encarar foi provocada pela música Overdose de Cocada ("É cocada boa/ É cocada boa"). "Até procurador de Justiça bateu lá em casa dizendo que eu tinha de dar depoimento", lembra o cantor.Bezerra diz que as letras que canta só colocam pedras no seu sapato porque falam de "pobre" e "preto". Para ele, a verdade é muitas vezes confundida com polêmica. "Se fizerem uma música com o caso desse juiz (Nicolau) Lalau aí, vai ser polêmica ou verdade?", questiona. "Sou um grande vendedor de discos, mas me enganaram muito na vida; os grandes aproveitam que somos ignorantes e deitam e rolam na gente, comem a carne inteira e deixam só o esqueleto em pé."O gênero que Bezerra vem seguindo durante todo esse tempo arregimentou uma horda de jovens fãs que fazem parte de uma realidade distante da vista nas favelas. Foi um fenômeno praticamente involuntário, ocorrido graças a essa combinação de irreverência e descrição da vida nos morros. "Já fiz até palestra em universidade", conta Bezerra. O interesse da turma do rock pela obra de Bezerra foi outro forte fator de atração desses novos ouvintes. "Eu canto a realidade numa linguagem simples e num português rasteiro para todo mundo entender; a mensagem é a mesma do pessoal do rock, do rap, etc."Para Bezerra, o segredo de se dar bem com os jovens é não ficar falando de "coisa velha". "Tenho quase 73 anos, meu filho mais novo tem 26 anos e diz que não gosta de conversar com velho, mas comigo ele fala porque não fico dizendo que Cabral descobriu o Brasil, falo só de coisas atuais", garante o cantor.A fama de malandro também serviu para sedimentar a imagem de ídolo da juventude. Bezerra só não gosta quando mudam o sentido da palavra. Diz que malandro não existe no mau sentido, que isso é coisa inventada pela "elite" para dizer que malandro é bandido. "Como posso ser malandro no mau sentido, se tenho ficha policial exemplar?", pergunta. "Se for assim, todo malandro que conheço está em Brasília; malandro não mora no morro."Tomando sacode - Mas se malandro é malandro, quem é mané? "Mané é otário, pilantra, safado, tem de tomar sacode", afirma o cantor. Na faixa que dá nome ao novo disco, escrita por Neguinho da Beija-Flor, Bezerra diz a diferença entre um e outro: "Malandro é aquele que sabe o que quer/Malandro é o cara que está com dinheiro/E não se compara com um zé mané/Malandro é um cara maneiro/E não se amarra em uma só mulher."Contudo, por falta de malandragem, Bezerra já cansou de ser passado para trás. Ele conta que assinou muito contrato em branco quando estava em "gravadoras grandes". Regina, com quem ele vive há 18 anos, tomou a frente dos negócios quando a situação começou a ficar sem controle. "Os empresários roubaram muito dinheiro dele", diz Regina. "Agora, eu leio tudo e consulto advogados." Segundo ela, Bezerra demorou a aceitar sua participação nos negócios, por "machismo". "Não teve jeito, se fosse dar tiro em todo mundo que me roubou, estava preso hoje", afirma Bezerra.Nas contas (do tipo acredite se quiser) de Bezerra, se não fosse tão roubado, teria vendido, do início da carreira até agora, uma quantidade de CDs que faria Michael Jackson chorar de inveja. "Com certeza teria passado de 200 milhões de exemplares vendidos", garante o cantor.Malandro É Malandro e Mané É Mané - produzido pelo competente Ivan Paulo, também responsável pelos arranjos e regências - reúne uma trupe de músicos do primeiro time. Muitos acompanham Bezerra da Silva há um bom tempo. Gente como Jorge Gomes (bateria, repique de anel), Paulinho da Aba (pandeiro), Alceu Maia e Márcio Almeida (cavaquinho), Beto Cardoso (violão de seis cordas) e Carlinhos (violão de sete cordas), entre outros. Bezerra ainda toca pandeiro e tamborim.

Agencia Estado,

27 de agosto de 2000 | 17h39

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