Beyoncé dribla a caricatura para garantir trono do pop

No quinto álbum, com participações de Drake, Jay-Z, Frank Ocean e outros, cantora vai do lirismo ao erotismo

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

14 de janeiro de 2014 | 11h00

Um locutor (o ator Harvey Keitel) pergunta a Beyoncé no início de Pretty Hurts (Beleza Machuca), a primeira faixa de seu novo disco: “Miss Third Ward, sua primeira questão: qual é sua aspiração na vida?”. A resposta da cantora: “Oh, minha aspiração seria... ser feliz”. Nos versos da canção, ela denuncia as cosméticas cirúrgicas que tornam as mulheres reféns e a ditadura da Vogue, que só absolve as magras. “Você não pode consertar o que não pode ver/Quem precisa de cirurgia plástica é a alma.” A felicidade dourada e consciente de Beyoncé, no entanto, tem um detalhe tão perceptível quanto seus apliques: nunca poderia passar incólume pelos milhões de voyeurs do pop da aldeia global.

 

 

Sua beleza machuca, mas é uma mina de ouro. Talhada para o palco, montada para a cena, esculpida para 200 câmeras, Beyoncé não vive exatamente de um desafio musical, mas de um esforço de sofisticada produção. Pouco antes do último Natal, a cantora norte-americana usou uma estratégia já experimentada por outros artistas de sua geração e, sem aviso prévio nem promoção (apenas um aviso no Instagram), soltou seu novo disco na internet. A estratégia, ousada, teve efeito imediato: em uma semana, já tinha vendido um milhão de cópias nos Estados Unidos.

À parte seu talento empresarial, o faro musical de Beyoncé parece alimentar-se de grande senso de oportunidade e até um certo conservadorismo, um leque de artifícios que ajuda a solidificar sua figura de proa na música pop. Seu quinto álbum, intitulado simplesmente Beyoncé (Columbia/Sony Music), pareceu mais experimental para alguns observadores, por lançar mão de truques eletrônicos e ter como referência vídeos clássicos de Madonna, como Justify My Love e Erotica (o CD/DVD lançado no Brasil vem com uma advertência, “Não recomendado para menores de 18 anos: Situações Sexuais Complexas”).

O NYT assinalou: “Beyoncé consolida uma das mais refinadamente equilibradas personas do pop: ela é, ao mesmo tempo, glamourosa e caseira, carnal e doce, rainha da comunidade e uma diligente filantropa, educada e humana”.

Correto: a palavra-chave é “consolida”. Em 14 canções (e 17 vídeos, entre os quais figura um com imagens inteiramente filmadas no Brasil, Blue, que conta com a participação de Blue Ivy, sua filha com Jay-Z), ela rega o hedonismo e capricha no papel de modelo feminino. Cuida de explorar um erotismo de grande desregramento, em canções como Drunk in Love e Flawless, e também analisa com delicadeza sua própria ascensão no show biz, em Grown Woman (que foi lançada originalmente em uma propaganda da Pepsi).

O álbum enche de lenha seca o fogareiro do pop, é coisa de alta combustão. O hip-hop condiciona totalmente Partition, que é uma faixa tão boa e virótica que já ganhou até um remix de Busta Rhymes e Azelia Banks. A letra usa Monica Lewinski (ex-estagiária da Casa Branca que fez sexo oral com o então presidente Clinton) como um verbo. “Ele apertou todos os meus botões e rasgou minha blusa/Ele monicalewinskizou todo o meu vestido.”

Partition termina com um trecho em francês. “Você ama o sexo? Sexo, quero dizer, a atividade física, o coito, você ama? Não te interessas pelo sexo? Os homens pensam que as feministas detestam o sexo/Mas é uma atividade muito estimulante e natural/Que as mulheres adoram.”

Dona de seu próprio destino, Beyoncé fala essas bobagens e obviedades sem perder o rebolado, mas é vitoriosa principalmente por não se deixar aprisionar numa armadilha paródica (caso de Lady Gaga, vitimada por um gigantesco flop com seu novo álbum, Artpop). “Bey” reivindica sua posição de timoneiro de seu futuro, não deixa que a caricatura se torne maior que seu desejo de controlá-la. Para lembrar disso, usa velhos vídeos domésticos de seu passado com a irmã, Solange Knowles, e seu início como aspirante ao estrelato.

Mas a diversidade musical de Beyoncé no disco tem pinta de calculada, de planejada. Nos vídeos e nas letras, além do feminismo, da liberação, da sensualidade, Beyoncé usa um trecho de um discurso da escritora e ativista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, clamando para que “não se julgue livro pela capa”. No simbolismo, entretanto, deixa transparecer uma certa obsessão por triunfos, troféus esportivos, concursos, competição. Mas, no artesanato pop, ela elimina sem piedade as rivais, pulverizando com sintetizadores retrô e uma batida quebrada a canção XO, que se nutre de uma levada afropop; incutindo uma atmosfera sobrenatural e efeitos eletrônicos em Haunted, que lhe dão um clima meio Carmina Burana pop; no fastio de alta burguesia de Jealous; ou no dueto com Drake em Mine, tentativa de reedição dos sucessos de Rihanna.

No Angel tem sussurros demais, não parece à altura das rendições R&B da cantora. Para um espetáculo dance, o lote de canções parece denso além da conta, mas Beyoncé sabe perfeitamente encaixar isso em suas óperas de caixeiro-viajante.

Para contrapor-se a todo seu intrincado jogo de preenchimento de expectativas, ela ainda se mostra mais sensível que praticamente todas as colegas de métier. É quando a gente chega ao delicadíssimo vídeo de Blue, no qual contracena com Blue Ivy numa praia do Nordeste, e faz um dos mais delicados tributos ao povo brasileiro já captados por um megastar de seu calibre. Sob uma cadência ensolarada, o Brasil gentil, feliz e cavalheiresco que ela garimpou (o vídeo é dirigido por ela mesma) tem um brilho nos olhos, é humilde e de uma emoção sem par.

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