Bethânia, uma rainha entre os independentes

Se tudo sair como planejado, este ano será marcado por três discos de Maria Bethânia. Em maio, foi a vez de Cânticos Preces Súplicas à Senhora dos Jardins do Céu, com hinos à Nossa Senhora. Até o fim do ano, virá outro, só com músicas de Vinícius de Moraes. Agora sai Brasileirinho, item n.º 1 do selo Quitanda, parceria da cantora com a Biscoito Fino, pela qual lançou Maricotinha ao Vivo. Iniciativa semelhante teve em São Paulo o compositor Chico César, que criou o selo alternativo Chita Discos, pelo qual acaba de lançar o CD Vem no Vento, do grupo paraibano Jaguaribe Carne. Maricotinha ao Vivo vendeu 120 mil cópias e tornou-se o recorde da gravadora de Katy Almeida Braga e Olívia Hime, a Biscoito Fino. Além de Brasileirinho, a Quitanda de Bethânia lança Vozes da Purificação, o primeiro disco de Dona Edith do Prato, conhecida de infância da cantora, que Caetano Veloso mostrou ao País no elepê Araçá Azul, dos anos 70. O bom desempenho, a nova empreitada, os dois discos novos, tudo foi comemorado anteontem pela cantora e seus amigos. Bibi Ferreira fez um versinho ("Levei um um mês para conseguir", confessou) para entregar o disco de ouro de Maricotinha ao Vivo. Miúcha e Nana Caymmi, que cantam em Brasileirinho, bateram papo com Denise Stoklos, que fala um poema de Mario de Andrade. Leila Pinheiro, Ana Jobim, Joyce, Nélida Piñon, Lya Luft, Lenine, Suely Costa estavam lá. E Bethânia não pára. Na semana que vem, vai a Portugal para quatro shows com Gilberto Gil e depois segue para Angola. Primeira proposta Ela contou isso na coletiva antes da festa. Explicou que o selo Quitanda foi sua primeira proposta à Biscoito Fino. "Quando saí da BMG, estava completamente infeliz com as grandes gravadoras e não queria mais discos naquele esquema. Propus a Katy e a Olívia projetos especiais para gravar o que acho bonito, bom de cantar e útil às pessoas que quiserem ouvir", disse Bethânia. "Mas elas pediram também discos de carreira. Saiu Maricotinha ao Vivo e, até o fim do ano, deve sair o disco de Vinícius. Já estou do meio para o fim e gravei músicas com os parceiros que todo mundo já sabe, como Tom Jobim, Baden Powell e Carlinhos Lyra, e trabalhos menos conhecidos, com Adoniran Barbosa e Ary Barroso. É uma declaração de amor, de saudade, da falta que ele faz para mim, para o Brasil e para o mundo." Enquanto Vinícius não vem, Bethânia conta que Brasileirinho era um projeto pequeno, só com quatro ou cinco músicas, acoplado ao disco de Dona Edith do Prato. "Mas foram surgindo músicas, idéias do Jaime Além, meu maestro, e dos outros músicos (Jorge Helder no baixo e Marcelo Costa na percussão), participações importantes como a de Ferreira Gullar, do Uakti e do Tira Poeira, e acabou ficando um CD com o tempo normal", lembrou. Situações inusitadas desaguaram num repertório em que só uma música é inédita: Yayá Massemba, de Roberto Mendes e Capinan. "Pedi música ao Chico César, mas ele preferiu me mostrar coisas antigas." Brasileirinho é a tradução de Bethânia para o País. Começa com Mario de Andrade (dito por Ferreira Gullar) e termina com a Melodia Sentimental de Villa-Lobos. No meio, tem Guimarães Rosa, Luiz Gonzaga, Vinícius, pontos de candomblé, hinos a São João, Santo Antônio e São Jorge, canções de domínio público e uma homenagem à violonista Rosinha de Valença. Foge aos padrões convencionais, mas Bethânia não se preocupa isso. "Faço o que gosto, não sigo tendências nem abro caminhos. Só quero que apreciem essas músicas tanto quanto eu", pede ela, explicando que Quitanda foi a segunda opção de nome para o selo. "Ia ser Tupi, por minha admiração pelo índio brasileiro, que nunca se deixou escravizar. Quando soube que esse nome já tem dono, fiquei com Quitanda, que é um lugar onde se vende tudo o que pode ser imaginado." OrigensSe Brasileirinho traduz o País, Vozes da Purificação revela as origens da cantora. Dona Edith é uma bonita senhora de 86 anos, amiga de toda vida de dona Canô, mãe de Bethânia, que promove festas animadas e marca o ritmo do canto com uma faca de cozinha e um prato de louça. "Muito do que veio para o meu repertório, aprendi com ela. Conheço Dona Edith desde que nasci, quando abri os olhos ela já estava lá, comemorando", conta a cantora. "Mas não pensei em revelar minhas origens, quis só mostrar uma artista maravilhosa, que faz o som mais bonito do Recôncavo Baiano, com toda a força da nossa terra." O disco foi pago pelo governo da Bahia, que registra artistas de todos os gêneros e estilos, do erudito aos pontos afros. A produção foi de J. Velloso, sobrinho de Bethânia, que gravara neste esquema os discos de Batatinha, Riachão e dos cantores da Igreja do Rosário dos Pretos, da Bahia. Aqui, ele conseguiu trazer para o disco as festas de Dona Edith, as cantigas com suas amigas, as danças que as acompanham. "Eu queria um som que desse prazer às pessoas, não só um registro para pesquisadores", avisou ele. O selo Quitanda volta à ativa no ano que vem e Bethânia ainda não sabe o que gravará. Pode ser Ferreira Gullar declamando seus textos ou de outros poetas, ou pontos cantados no terreiros de Santo Amaro. O sucesso comercial não preocupa Bethânia e as sócias. "Quando abrimos a Biscoito Fino, há três anos, era para gravar os discos que queríamos ouvir e não encontrávamos nas lojas. O resultado foi além do esperado", disse Katy. Mas houve sucesso comercial também. As 120 mil cópias de Maricotinha ao Vivo não surpreendem, mas a vendagem de Cânticos Preces Súplicas, que teve os 3 mil exemplares da primeira tiragem vendidos em menos de uma semana, indica que Bethânia, mais uma vez, mostra ao tal "mercado" o caminho das pedras.

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