Bethânia estréia projeto <i>Dentro do Mar Tem Rio</i>

Há um conjunto de fenômenos na carreira de Maria Bethânia que evoluiu para converter o sentido do drama, seja em versos, música ou no teor de interpretação, numa expressão do essencial. Isso tanto na questão da qualidade artística como na relevância da forma em relação ao conteúdo. Seu projeto Dentro do Mar Tem Rio, que estreou no palco na sexta-feira, no Tom Brasil Nações Unidas, é de configuração minimalista. Mas quem foi lá para ver um espetáculo temático sobre as águas saiu instigado a absorver outro elemento inerente às necessidades básicas, mas igualmente desprezado hoje: o silêncio. Bethânia até que conseguiu mantê-lo na platéia durante mais da metade do show. Mas depois de certo tempo, com parte do público já ?em águas? (expressão usada na Bahia para quem bebe demais), teve de insistir para recuperá-lo e repetir três vezes um dos belos versos de Guimarães Rosa que inseriu no roteiro. No fim, veio a calhar uma bofetada verbal por meio do Ultimato, de Álvaro de Campos, emendado com Movimento dos Barcos (Waly Salomão/Jards Macalé), em que diz que ?é impossível levar um barco sem temporais?, mas também não vai ficar no porto chorando, ?lamentando o eterno movimento dos barcos?. Canção gravada por ela no álbum Drama (1972), esta é um dos muitos achados do show, que privilegia, obviamente as canções dos recém-lançados Pirata e Mar de Sophia. Além dos diversos momentos em que aborda ou tange a água, Bethânia evoca recursos naturais afins ­- árvore, pedra, vento, raio - tanto em versos que a aproximam dos orixás como no cenário despojado da diretora Bia Lessa. Este se resume, de maneira eficiente, a um imenso painel com cinzas nuvens de chuva ao fundo, com intervenções de véus de filó e luzinhas simbólicas dos elementos citados. O prenúncio de tempestade não se concretiza no desenrolar do show. Desta vez, mesmo com mais de 40 canções e trechos de poemas no roteiro, Bethânia interpreta uma a uma sem precipitação. Entre excelentes sambas, baladas e modas de viola, alterna momentos densos e alegres, como as marchinhas de carnaval no bis e Sereia de Água Doce (Vanessa da Mata), uma das mais aplaudidas. Palco limpo, com pequenas plataformas, gestos comedidos, luz discreta, arranjos minimalistas. Em boa parte do tempo, ouve-se o som da viola ou apenas o violão de Jaime Alem a acompanhá-la. Um dos momentos mais bonitos e tocantes é quando canta Lágrima, de Roque Ferreira, acompanhada apenas do piano de João Carlos Coutinho. Garimpeira da memória, ela imerge mais profunda na vertente interiorana não só do indivíduo, mas do sentimento brasileiro. Nesse aspecto, boas lembranças constituem o ?bloco da saudade?, em fusões suaves, que reúne A Saudade Mata a Gente (Antônio Almeida e João de Barro), Gostoso demais (Dominguinhos/Nando Cordel) e Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira). De maneira sutil, fazendo mais do menos, Bethânia realiza um paciente trabalho de artesanato, de restauração de práticas que interferiram nas formas de percepção do público. Este pode ter um ouvido musical que não é normal, como dizia Caetano, mas sabe-se que o mal dos palradores é a incapacidade de reflexão.

Agencia Estado,

13 Novembro 2006 | 11h05

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