Bethânia de Carcará a Maricotinha, em 34 CDS

O presente de aniversário chegou um pouco atrasado, mas adata é detalhe. Maria Bethânia fez 60 anos no dia 18 de junho ea melhor maneira de comemorar veio de uma iniciativa dopesquisador carioca Rodrigo Faour. Foi ele quem se empenhou empersuadir as três gravadoras pela qual Bethânia passou em 40anos de carreira (Sony-BMG, EMI e Universal) para o lançamentosimultâneo da parte mais significativa de sua carreira. O feito é inédito no mercado discográfico brasileiro,envolveu técnicos tarimbados das três gravadoras e deixou os fãstão entusiasmados que alguns criaram comunidade no Orkut comoforma de agradecimento a Faour. Só Bethânia mesmo para despertaresse tipo de atitude. Do álbum de estréia, "Maria Bethânia" (1965), a"Maricotinha" (2001), todos estão de volta às lojasremasterizados, vendidos separadamente, a preços acessíveis (emtorno de R$ 20). Dentre os mais importantes, vários delespertencentes ao acervo da Universal estavam fora de catálogohavia anos: "Drama" (1972); "Drama 3º Ato" (1973), um de seusmelhores registros ao vivo; "Pássaro Proibido" (1976); "Pássaroda Manhã" (1977); "Talismã" (1980); e "Ciclo" (1983), marco desua independência, são alguns que valiam altas notas nos sebos. Peças raras gravadas na RCA Victor Outras peças raras são os compactos que Bethânia lançouno início da carreira, na RCA Victor (hoje Sony-BMG). Algumasdessas gravações saíram antes em compilações, às vezesmisturadas com as de seus conterrâneos e contemporâneostropicalistas. Pela primeira vez, esses registros de 1965 estãoreunidos num só álbum, Maria Bethânia Canta Noel Rosa e outrasRaridades. Como faixas bônus, há "Feiticeira" (do álbum deestréia) e outras de Noel com arranjos de orquestra feitos em1980. As originais são mais interessantes. Como atrativo complementar, todos os encartes vêm com asletras e textos esclarecedores de Faour, que não apenas exalta aforça e a generosidade da obra de Bethânia, mas também a analisae contextualiza os discos na história. Luxo maior, eleentrevistou a diva para comentar cada disco, o que enriquece osencartes com detalhes pouco conhecidos. Quem já tinha os álbuns em CD (especialmente os 22 daUniversal) pode/deve comprá-los de novo, não só pelo recheio dosencartes, mas principalmente por causa do som, que está muitosuperior às edições anteriores, caso de "Talismã", "Ciclo","Drama" e outros. Mas contra a precariedade com que foiregistrado "Rosa dos Ventos", "o show encantado" de 1971, não hátecnologia que faça milagre. A EMI - que anos atrás já tinha reunido numa caixinhabem bacana os três primeiros álbuns que Bethânia gravou na Odeon entre 1968 e 1970 - relança agora os mesmos títulos mais"Âmbar" (1996) em versão digipack, que imita o formato dos LPs.Só o duplo "Imitação da Vida" (1997), seu melhor álbum ao vivo,atrasou e ainda só é encontrado na versão anterior sem o textode Faour. Do pacote da Sony-BMG, o menos cuidadoso em termosgráficos, também falta o álbum de estréia, que tem "Carcará"(João do Vale/José Cândido), seu grito primal, e a estréia deGal Costa, em duo com ela cantando Sol Negro, de Caetano Veloso.Também voltam "Dezembros" (1986) e "Maria" (1988), que tem comodestaque o reencontro com Gal em outra lindeza de Caetano, "OCiúme".De Roberto Carlos a João Gilberto Todos têm sua cota de qualidade, mas os fundamentaisestão no pacote da Universal. Destes, vale a pena tambémrecuperar até os que mais fizeram sucesso, portanto, forammantidos em catálogo, como "Mel" (1979) e "Álibi" (1978). Foicom este que Bethânia tornou-se a primeira cantora brasileira avender 1 milhão de cópias de um mesmo disco. O sucesso comercial do álbum foi espontâneo. "Nunca fizqualquer concessão deliberada para vender mais", disse a cantorasobre "Álibi", mas poderia estar falando de qualquer outro. A coerência e a liberdade de ação são dois dos traçosmais marcantes da carreira de Bethânia. Tanto é que passouincólume até aos famigerados anos 80, que deixou nódoas nadiscografia de muito figurão da MPB. Em estúdio ou ao vivo, são incontáveis os grandesmomentos de sua discografia. "Olhos nos Olhos" (Chico Buarque),faixa de "Pássaro Proibido", é um deles. Foi com ela queBethânia, tida como cantora de elite, pela primeira vez tocou ememissoras de rádio AM. Não que seu repertório não tivesse apelopopular. Em via paralela ao movimento tropicalista, da qual foiincentivadora de bastidores, ela já trazia na bagagem asdelícias e as dores dos boleros assimilados de Dalva de Oliveirae Ângela Maria. Mas a imagem do engajamento de força teatral, de poética e gostointelectual falou mais alto durante muitos anos aos olhos dopúblico. A personalidade que trilhou caminhos diversos de maneiraúnica, unindo de Roberto Carlos a João Gilberto, tratou dedesfazer equívocos e unir os ouvidos do Brasil. Outras águasestão por vir neste 2006 e juntar-se a este manancial.

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