Beth Carvalho grava CD e DVD na Bahia

Toda de branco, Beth Carvalho adentra o palco do Teatro Castro Alves, tradicional reduto cultural da capital baiana. E, como sempre, sua presença se expande no palco. A vestimenta típica baiana que a cobre - saia rodada, colar no pescoço e faixa no cabelo - condiz com o contexto daquele momento, daquele show, daquele cenário. Tratava-se do primeiro dia de gravação do CD e DVD "Beth Carvalho Canta o Samba da Bahia", realizada na terça-feira passada. No dia seguinte, mais uma apresentação seria registrada, sempre diante de uma platéia só de convidados. "Vamos transformar o Teatro Castro Alves numa grande roda de samba", sentenciou a cantora.No repertório, Beth prestou tributo aos compositores baianos, numa seleção abrangente. Prova de que a madrinha do samba segue em frente com sua missão de divulgar, festejar e promover a manutenção do gênero. Que ela é uma entusiasta do samba carioca, isso não é segredo para ninguém. Assim como é sabido que o samba paulista ganhou projeção quando a cantora gravou um CD apenas com esse tipo de repertório. Agora, chegou a vez dos sambistas baianos mostrarem seu valor na voz da madrinha.Não que tais compositores sejam uma novidade para Beth. Há anos, ela vem gravando músicas dessa turma, a exemplo de "A Flor da Laranjeira", de Zé Pretinho da Bahia, Humberto de Carvalho e Bernardino Silva (no disco "Canto por Um Novo Dia", de 1973), e "Doce de Cajá", de Roque Ferreira (no álbum "Coração Feliz", de 84). Mas, em nenhum momento em seus mais de 40 anos de carreira, havia feito isso com tamanha unidade. "Nos anos 90, comecei uma pesquisa em Cachoeira (município daquele Estado) sobre sambas de roda", contou ela. Naquele momento, o projeto era mais restrito, não foi adiante. "A gente tem várias idéias que nem sempre realiza. Foi bom, porque ampliei o projeto."Beth Carvalho optou por um amplo mapeamento, agrupando desde sambas tradicionais até os mais contemporâneos. Muita coisa foi resgatada de sua memória musical. "Eu poderia ter feito um trabalho só de inéditas, mas achei melhor colocar só coisas conhecidas." Segura do que quer, insistiu para que a gravação fosse aberta com "Quem Samba Fica" e encerrada por "Mãe Menininha". Vontades acatadas pelo diretor de espetáculo, Túlio Feliciano.No recheio do repertório, canções obrigatórias, como "Samba da Minha Terra" e "João Valentão", de Dorival Caymmi, o homenageado do projeto. "Meu pai me ensinou a gostar de boa música brasileira. Ele me mostrou Caymmi", disse Beth, que, desde criança, é uma apaixonada pela obra dele. "Além de meu pai ser muito parecido com Caymmi." Ela reuniu outras pérolas, como "Cada Macaco", "Vai Morar com o Diabo" (que, anos atrás, foi ouvida em uma ótima versão de Cássia Eller), "Chiclete com Banana", "Siriê", "Ilha de Maré", "Ê Baiana" (famosa na voz de Clara Nunes), "Dindinha Lua" (que já havia gravado, em 79, no disco "Beth Carvalho no Pagode"), "É de Manhã", "Mancada", além de "Verdade" e "Samba pras Moças", dois sucessos na interpretação do afilhado Zeca Pagodinho.Para as participações especiais nos duos, juntou a nata da música baiana, que fez questão de burlar a agenda de compromissos para marcar presença no projeto. Estamos falando de nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Margareth Menezes, Ivete Sangalo, Carlinhos Brown, Daniela Mercury, Riachão, Danilo Caymmi, Olodum, Armandinho, além de compositores como Nelson Rufino, entre outros. "É uma emoção grande, porque tenho uma vida com essas pessoas", constatou a sambista.Segundo Gilberto Gil, são muitos anos de vivência, convivência, aprendizado e compartilhamento com o samba por parte da madrinha. "Ela escolheu logo cedo se dedicar ao samba", observou o músico e também ministro da Cultura. "A Bahia tem um sentido obrigatório para os sambistas. A ligação do samba com a Bahia vem desde Porto Seguro, com a chegada dos portugueses."As cantoras Daniela Mercury e Ivete Sangalo definem Beth como uma referência desde a infância. "Ela fez parte da minha construção musical. Está envolvida no samba do Brasil e nunca saiu desse curso", disse uma lisonjeada Ivete Sangalo, que se prepara para gravar um DVD no Maracanã. "É a maior sambista da música brasileira. E apesar de estar homenageando lindamente a Bahia, ela não deixa de ser carioca", ponderou Daniela que, em início de carreira, foi muito elogiada pela madrinha nos bastidores de um show que realizou no Rio. Para o músico Carlinhos Brown, é o momento de agradecer e enaltecer Beth Carvalho, por ser uma "pessoa que se predispõe a botar mais chama ao que é belo no Brasil, que é o samba".Patrocinado pela Petrobrás e pelo Hipercard, e com apoio da Caixa Econômica, o projeto Beth Carvalho Canta o Samba da Bahia deve chegar ao mercado em 2007, na versão CD e DVD (este, dirigido por Lula Buarque de Hollanda e produzido pela Conspiração Filmes). Será lançado pelo selo da cantora, o Andança, mas sua distribuição ainda não foi fechada com nenhuma gravadora. A repórter viajou a convite da produção do projeto

Agencia Estado,

28 de agosto de 2006 | 12h40

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