Beth Carvalho canta Nelson Cavaquinho

Sai em dezembro o esperadíssimo disco de Beth Carvalho dedicado à obra de Nelson Cavaquinho. É um lançamento da gravadora alternativa Jam Music e vai ser vendido, inicialmente, em bancas de jornal. Leva o título de uma composição de Nelson, Nome Sagrado - obra não muito conhecida. O disco traz outras composições quase inéditas - daquelas que tiveram uma gravação e não tocaram no rádio - e uma rigorosamente inédita, o samba Nem Todos São Amigos, parceria com Guilherme de Brito. Dessa faixa, participa, na qualidade de convidado especial, Zeca Pagodinho.Gravar um disco só com obras de Nelson era um sonho que Beth acalentava - e não escondia. Mas, quando você está ligada a uma gravadora grande, existe sempre aquela obrigação de fazer, todo ano, um ´disco de carreira´, com músicas inéditas, e a idéia foi sendo adiada, conta a intérprete. Este é um disco à parte, um projeto, um trabalho especial. Que, nem por isso, deixa de ter muito apelo. A obra de Nelson Cavaquinho é conhecida e admirada por todos os que fazem ou gostam de música de boa qualidade, completa.Beth cantou, ainda menina, em programas de calouros, estudou música, participou de shows de bossa nova, gravou o primeiro disco - um compacto simples, daqueles com uma música de cada lado - em 1965, cantou com Zé Kéti e os Cinco Crioulos, tornou-se grande sucesso nacional em 1968, quando lançou a toada Andança, de Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi.A admiração pela obra de Nelson Cavaquinho vinha de muito tempo - mas cadê coragem de procurar o ídolo? Eu freqüentava as rodas de samba das segundas-feiras, no Teatro Opinião, no Rio; o Nelson cantava lá, e também o Cartola, a Clementina, o Xangô da Mangueira, lembra. Um dia, em 1972, eu vinha com amigos e vi Nelson cantando num bar, na Lapa. Tomei coragem, sentei perto, cantei umas músicas dele - eu sabia todas - e acho até que peguei o violão, conta. Ele ficou muito admirado: quem seria aquela menina que conhecia tanto de sua obra?Naquele tempo, Beth já estava decidida a dedicar-se com exclusividade ao samba (e já havia, mesmo, gravado o primeiro disco só de sambas). Depois daquele encontro na Lapa, ficamos amigos, conta. Eu ia para o Opinião e de lá saíamos para os bares, para a madrugada. Foi nesse tempo que Nelson Cavaquinho compôs a obra-prima Folhas Secas e a deu para Beth gravar. Deu o samba e deu o cavaquinho que lhe emprestava o apelido.No tampo do instrumento, uma dedicatória à cantora. Porém, depois da morte do compositor (em fevereiro de 1986), Beth mandou reformar o cavaquinho. Sem perceber o tesouro que tinha nas mãos, o artesão raspou as palavras delicadas do mestre.A quem a cantora foi extremamente dedicada. Fazíamos uma família. Ele passava aniversário, Natal, datas festivas comigo, fosse em casa ou no bar, recorda. Fiz vários show com ele, viajamos juntos no antigo Projeto Pixinguinha, da Funarte, para várias regiões do País. Inegável: se a ligação com Nelson foi boa para Beth, foi boa, também, para o compositor pois ela exigia para ele bons cachês (Nelson nunca deu bola para o quanto ganharia ou deixaria de ganhar), boa hospedagem. Calhou, ainda, que, nesse meio tempo, Nelson conhecesse Durvalina, que seria sua companheira e cuidaria de sua roupa, de sua casa, de sua vida.Por outro lado, Nelson tomava conta de Beth, que sempre gostou da noite. Já vai pra farra?, perguntava ele, quando estavam fazendo shows juntos e ela queria sair. O Nelson não bebia quando fazia show; se o espetáculo era às 18h30, às 17 horas ele já estava na portaria do hotel, arrumadinho, todo bonitinho, de instrumento na mão, lembra ela.E afirma: Se o mundo tivesse a oportunidade de conhecer sua obra, como conheceu a de Jobim, Nelson seria gravado pelos maiores instrumentistas ou cantores de toda parte. O guitarrista Jim Hall, por exemplo, conheceu um samba de Nelson, ouvindo um disco de Beth, e o gravou - Beija-Flor.Seja como for, Nelson está no CD Nome Sagrado. Beth tem fitas caseiras com ele e uma delas foi aproveitada para o disco: ela tocando o famoso cavaquinho, ele cantando o samba Minha Festa, atração adicional.A homenagem reúne várias gerações de instrumentistas. O mais jovem é o violonista Víitor, de 19 anos, do Quinteto em Branco e Preto; o veterano é Dino Sete Cordas, do Época de Ouro. Outros participantes especiais são Silvério Pontes, Dirceu Leitte, Hamilton de Holanda, Zé da Velha, Arlindo Cruz, o trio Tamborins de São Mateus, de São Paulo (que Beth compara à formação clássica, integrada por Luna, Eliseu e Marçal).Os arranjos são de Ivan Paulo. Vozes convidadas: Wilson das Neves, Guilherme de Brito e Zeca Pagodinho. No encarte, textos de quem conheceu bem o compositor, produziu discos seus, estudou sua vida: Sérgio Cabral, Arley Pereira, Pelão, Paulo César Pinheiro, Eduardo Gudin. A produção artística é de Beth.No repertório, entre as raras, além da que dá título ao disco, ainda Cheira à Vela, Caridade, Visita Triste. E os clássicos: Folhas Secas, Luz Negra, Juízo Final, Quando Eu Me Chamar Saudade - ao todo, 20 músicas, em 16 faixas. Os shows de lançamento serão realizados na Tom Brasil, em São Paulo, e no Teatro Rival ou no Canecão, no Rio.

Agencia Estado,

09 de outubro de 2001 | 16h11

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