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Beth Carvalho, 70 anos: a única que o samba chamou de rainha

A cantora tem muito a comemorar em seu aniversário: produção de cinco décadas a deixa sem rivais entre os nobres do partido alto

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2016 | 21h03

A ficha de Elizabeth Santos Leal de Carvalho não apontava indícios de alguém que passaria a vida subindo o Morro da Mangueira. Moça fina, nascida e letrada na zona sul do Rio de Janeiro e apaixonada por bossa nova, levava no sangue o incômodo do pai comunista perseguido pela ditadura. Um amontoado de falsas pistas que derrubariam as previsões. Quando chegasse aos 70 anos, Elizabeth Leal seria Beth Carvalho, a única mulher que o samba chamou de rainha.

Grande parte das cantoras decide o que quer ser moldando suas vozes à imagem e semelhança do espelho que lhes interessa. Algumas emplacam, se livrando do simulacro no segundo ou terceiro disco, outras são condenadas à sombra eterna. Com Beth, foi diferente. O poder de sua voz era tamanho, de coloração tão rara, que a redirecionou, à sua própria revelia, a um território até então impensável para alguém que havia começado a carreira em 1965 cantando 'Por Quem Morreu de Amor?', de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, com arranjo de Eumir Deodato.

Mesmo depois de ganhar o Festival Internacional da Canção de 1968 com 'Andança', de Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, e de lançar o álbum de 1969, um desejo de colecionadores, Beth resistiu à exclusividade do samba com um compacto lançado em 1970, outra peça de valor arqueológico. Beth canta 'Minie' com apego a Elis Regina, mostra 'Sem Rumo e Sem Destino' cheia de arranjos orquestrais, faz sua porção soul com 'Bloco Leblon', toda recortada por linhas de sopro, e fecha o compacto com a balada jazzy 'Minhas Tardes de Sol', tudo a cinco mil léguas do samba que a iria escolher.

Os anos 70 e sobretudo os 80 definiram Beth como um estandarte. Nelson Cavaquinho estava esquecido pela Mangueira quando a moça bateu à sua porta, em 1972. 'Folhas Secas', de Nelson, seria toda sua, com o violão do próprio Nelson, se Elis Regina não tivesse dado o golpe da fita. Cesar Camargo, pianista de Elis e produtor de Beth, levou o material com as bases da música gravadas por Beth para casa depois de um ensaio. Elis ouviu, gritou “é minha!” e correu para lançar primeiro. Beth Carvalho ficou mais de 20 anos sem falar com Cesar Camargo, mas jantou o casal em prato frio. A versão de 'Folhas Secas' que ficaria para a história não seria a de Elis, mas a de Beth Carvalho.

Cartola também merecia mais carinhos quando Beth bateu à sua porta, em 1975. Ao voltar para o estúdio, ela trouxe 'As Rosas Não Falam' e promoveu a maior revalorização do compositor desde o garimpo de Nara Leão, nos anos 60. Seu faro foi sendo apurado, e Beth se tornou “A Madrinha”. Quando chegaram os 80, ela começaria a gravar toda a nobreza de Cacique de Ramos, a quadra de Olaria, no Rio de Janeiro. O partido alto se firmaria em sua voz, que cantava Almir Guineto, Sombrinha, Luis Carlos da Vila, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão e todo o grupo Fundo de Quintal quando ninguém olhava para eles.

No dia de seus 70 anos, comemorado nesta quinta (5), Beth pode se orgulhar de outro feito. Em 1997, sua gravação de 'Coisinha do Pai', de Jorge Aragão, Almir Guineto e Luis Carlos da Vila, foi enviada a Marte para “despertar” o robô  Pathfinder em uma espaçonave da Nasa. Ninguém, nem do samba nem de qualquer outro universo, chegou tão longe.

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