Cultura Artística
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Bernarda Fink mostra elegância vocal em concerto na Sala São Paulo

Aos 62 anos, a argentina já não exibe tanto brilho nos agudos nem os amplos graves de sua linda voz de mezzo-soprano, mas mantém intactas características fundamentais como a elegância vocal discreta, afinação impecável e espantosa adequação neste repertório

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

15 Abril 2018 | 06h00

“Como você me vende 10 canções sem me avisar que são escritas em checo? Para mim e para o mundo inteiro elas não têm nenhum valor, exceto para a Boêmia – e você ainda exige 1.000 marcos”. Foi assim que o editor Simrock reagiu ao receber as Dez Canções Bíblicas, opus 99, de Antonín Dvorák. A bronca aconteceu porque o compositor usou a versão checa da Bíblia. É, o escritor checo Milan Kundera – que estudou música e faz dela um dos núcleos fundadores de sua ficção além dos ensaios dedicados à música – tem razão quando afirma que a originalidade de Leos Janacék está no modo como ele põe em música as inflexões de altura e o ritmo da fala checa. Kundera descarta Smetana e Dvorák. Não sei se ele ouviu com atenção estas emocionantes canções de Dvorák sobre versículos de vários salmos. Mas seu diferencial está nos textos em checo, que induzem a um acompanhamento sinfônico mais quebrado.

Por tudo isso, vale a pena chamá-las de Biblické Pisné. Aos 62 anos, Bernarda Fink já não exibe tanto brilho nos agudos nem os amplos graves de sua linda voz de mezzo-soprano. Mas mantém intactas características fundamentais como a elegância vocal discreta, afinação impecável e espantosa adequação neste repertório. Enfatiza a prosódia checa, transfigurando textos bíblicos tão conhecidos como O senhor é meu pastor, do salmo 23, na terceira canção. A Camerata Salzburg poderia ter praticado dinâmicas mais suaves em vários trechos nos quais a voz quase foi encoberta pelos instrumentos. Com certeza, estas canções, que convivem com Bernarda há tantos anos (ela cantou de cor), receberam uma interpretação à altura de seu significado para Dvorák – uma espécie de catarse para superar muitas perdas, familiares e artísticas, naquele momento em que morava e atuava nos EUA.

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Com instrumentação mais modesta, a célebre ária Descansai, olhos cansados, da cantata BWV 82 de Bach, permitiu-lhe impor seu timbre límpido e luminoso. A Sinfonia no. 3, escrita por Schubert aos 18 anos, encerrou a noite. Todo mundo erra. Brahms, quando editou as sinfonias em 1884, disse dela que deveria ser apenas estudada. Não merecia chegar aos palcos. Enganou-se.

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