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Bernard Sève põe instrumentos musicais sob investigação filosófica

Dos mais de 14 mil inventados ao longo da história da humanidade, poucos sobreviveram, diz livro do francês

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

03 de novembro de 2014 | 03h00

O filósofo Bernard Sève constata, na sua fascinante investigação filosófica sobre os instrumentos musicais em livro lançado ano passado, que bem poucos sobrevivem atualmente, entre os mais de 14.000 inventados pelo homem ao longo de sua história (L’Instrument de Musique – Une Étude Philosophique, Ed. du Seuil). O avanço da industrialização na Europa do século 19 marcou o período como uma usina de invenções e aperfeiçoamento tecnológico e construtivo. As inovações se incorporaram e deram a forma que eles em geral possuem hoje em dia. 

Já os muitos instrumentos inventados do século 19 para cá tiveram em geral vida curtíssima. A exceção foi o saxofone, que leva no nome a marca de seu inventor, Adolphe Sax. Ele foi um dos últimos a conquistar um lugar na orquestra sinfônica, a partir de meados do século 19. E, durante o século 20, tornou-se símbolo do jazz, é presença marcante nas bandas sinfônicas e um dos reis das músicas instrumentais populares espalhadas pelo mundo.

Duzentos anos atrás, em 6 de novembro de 1814, nascia na Bélgica Adolphe Sax. Em 1840, radicado em Paris, Sax se propôs um desafio: “Apenas os instrumentos de sopro em metal soam bem ao ar livre. As cordas, todo mundo sabe, são nulas ao ar livre. Por isso criei um instrumento que pelo timbre se aproxime das cordas, mas que tenha mais força e intensidade que elas. Este instrumento é o saxofone”. 

Berlioz deu-lhe uma mãozinha, incluindo o sax em seu Canto Coral. E descreve assim seu timbre: “Tem algo de sofrido e doloroso nos sons agudos; as notas graves, ao contrário, são de uma grandiosidade pontifícia. Tem, como os clarinetes, a capacidade de inflar e estender o som, de onde resultam, no registro grave, efeitos inéditos que só ele oferece”.

A família nasceu com 11 instrumentos, do mais agudo, o sopraníssimo, ao mais grave, o subcontrabaixo, mas só quatro sobreviveram modernamente: sax soprano, alto, tenor e barítono. Todos têm palheta única, afixada numa boquilha e um corpo de metal que pode ser retilíneo no caso do sax soprano – curvo, como no alto e no tenor – e com curva dupla, com duas voltas na metade inferior do tubo, como no barítono.

Desde a segunda metade do século 19, os compositores franceses e os que lá viveram por algum período de suas vidas popularizaram o instrumento. Bizet o usa na Suíte Arlesienne e Ravel em sua famosa orquestração dos Quadros de uma Exposição e no Bolero, entre outros.

No fim do século 19, John Philip Souza introduziu o sax nas bandas norte-americanas. Daí para os grupos e as big bands de jazz o passo foi curto. Sidney Bechet, desde os anos 1920, já usava um sax soprano. Dos anos 30 em diante, os magos do saxofone se sucederam: Coleman Hawkins, Lester Young, Charlie Parker, John Coltrane. Ainda hoje, dois oitentões como Wayne Shorter e Sonny Rollins ainda sopram maravilhosamente seus saxofones.

A segunda década do século 20 marcou a ascensão do sax no Brasil por duplas e ilustríssimas mãos. Primeiro Pixinguinha, que em 1922 deslumbrou Paris com os Oito Batutas. Ele popularizou o instrumento no País. No ano seguinte, 1923, quem desembarcou em Paris foi Villa-Lobos. Dois anos depois, em 1925, o sax já estava em seu Choros n.º 3. Um círculo virtuoso que se fechou com a bela Fantasia para sax soprano, três trompas e orquestra de cordas, de 1948.

Com certeza, Adolphe Sax jamais imaginaria um futuro tão brilhante e diversificado para sua invenção. Afinal, o sax é, no século 21, possivelmente o instrumento que trafega mais à vontade em todos os gêneros musicais.

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