Berio vem reger sinfonia em SP

O compositor italiano Luciano Berio, que completará 77 anos em outubro próximo, estará em São Paulo no final de junho para apresentar sua obra Sinfonia, composta em 1968-69. O tempo veio provar que essa música trepidante e o seu não menos inquieto compositor estão entre as coisas efetivamente boas que a segunda metade do século passado nos legou, no plano da música criativa de verdade. Para esperar esse artista (ele regerá a Sinfônica do Estado, tendo a seu lado o grupo vocal The Swingle Singers, que estreou a Sinfonia), pode-se "esquentar" os ouvidos com a audição do mais recente disco do autor. Trata-se de Voci (Vozes), lançado pela ECM New Series. Nele, a estupenda violista Kim Kashkashian executa duas obras recentes do compositor - a que dá nome ao CD, para viola e duas orquestras, e Naturale - (Su melodie siciliani), para viola e percussão. Fã ardoroso dos Beatles A voz sempre esteve no centro do interesse criativo de Luciano Berio. A Anunciação, sobre poema de Rilke, escrita em 1945-46, foi o ponto de partida de uma produção vocal que o levou a tratar esse instrumento até mesmo através da música eletrônica (Thema - omaggio a Joyce, de 1958). Entregou à voz um novo virtuosismo (Sequenza III, de 1966), deu a ela empregos inusitados (Opera, 1969-77) e tratou-a tanto como solista (Recital, for Cathy, de 1971), quanto aparato coral (Cries of London, de 1973-74). Além do seu amor pela voz, pela música popular (foi fã ardoroso dos Beatles), Berio sempre sentiu forte atração pelo folclore. Até agora seu trabalho mais importante nessa linha era Folk Songs, de 1973, ciclo imortalizado por sua primeira mulher, a estupenda meio-soprano armênio-americana Cathy Berberian (1925-1983). Agora, é preciso colocá-la ao lado de Voci e de Naturale. Artista irriquieto A voz anônima do folclore tem para Berio um significado múltiplo. Aponta para uma prática distante da ensinada nas escolas acadêmicas e concretiza um universo sonoro a um só tempo estranho, inovador e arcaico. A música vocal folclórica da Sicília, complexo mundo no qual se encontram várias faixas da história da música ocidental aliadas a velhas influências orientais, instigou o compositor italiano a compor Voci, que é subintitulada Folk Songs II. Aí, a viola solista entrelaça citações folclóricas à heterofonia criada pelos dois grupos instrumentais. Já em Naturale, desdobramento de Voci, um cantador siciliano se encarrega das canções, que são postas em proliferação pela viola e pela percussão. Nesta gravação, entre as duas obras estão registradas as seis canções sicilianas que serviram como estopim para a farta imaginação desse irriquieto Luciano Berio.

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