Ben Harper lança dois CDs simultaneamente

Bancar dois discos de uma vez não é para qualquer um hoje em dia, e nem tanto pelo custo da produção. A questão é o conteúdo, o equilíbrio de boas idéias. Para quem tem o dom de compor belas canções e o que dizer nas letras, como o californiano Ben Harper, isto não é problema. Quando se trata de manter a unidade e um mínimo de coerência, a situação se complica para muitos. Mas ele encontrou uma boa solução para acomodar as 18 faixas de Both Sides of the Gun (EMI). Basicamente teve de domar seu conhecido ecletismo, que engloba folk, blues, rock, soul, funk, R&B, gospel e reggae.No primeiro CD, aparece o Harper introspectivo, melancólico, em canções tocantes, como Waiting for You, Never Leave Lonely alone, cuja melodia lembra vagamente Michelle, dos Beatles, e Picture in a Frame, que tem versos como "Você pode vender sua alma/ Mas não pode comprá-la de volta/ Tenho passado a vida inteira/ Trabalhando para dar tudo que lhe falta". Nos arranjos predomina a instrumentação acústica.Combinando rock e funk com consciência política, o segundo CD revela a face mais agressiva do músico. Na faixa-título ele brada: "Viver nestes dias está me deixando nervoso/ Doutrinas arcaicas há muito não nos servem." Se há uma leve sombra dos Beatles no CD1, neste a referência é dos Rolling Stones, em Engraved Invitation, e de Sly Stone, em Black Rain. Isto não tira absolutamente o brilho pessoal de Harper, que ainda brinda os ouvidos com sua slide guitar em algumas faixas. Há quem possa achar monótona a divisão do álbum em dois segmentos únicos, mas apesar de durar mais de uma hora Both Sides of the Gun prima pela concisão. É para se ouvir sem pressa, sob condições distintas e por muito tempo.

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