Belle & Sebastian brilha em The Life Pursuit

Em vez de sépia, novas cores e tons. Quem acompanha a carreira do Belle & Sebastian já cansou de notar as inúmeras referências do rock dos anos 60 e 70 em sua música. No sétimo álbum do grupo, o ótimo The Life Pursuit (Trama), porém, há algo que o septeto escocês ainda não havia absorvido com tanta intensidade: as cores da psicodelia. Oscilando de alvos sonoros desde a soturna trilha do filme Storytelling (2002), o grupo não se furtou a continuar experimentando. Agora acerta na mistura de rock, folk,eletro, funk/soul, blues e nos tons psicodélicos. É desde já um dos melhores álbuns do ano. Como se pode observar a partir do nome do disco, que significa "busca pela vida", as intenções são bem diretas. Não importa que temas banais, como Funny Little Frog, o primeiro single extraído do álbum, predominem nas letras (isto não é novidade). Se eles mantêm o frescor adolescente, também exibem sinais de maturidade, como em Dress up in You e na contemplativa Mornington Crescent, balada que encerra o disco em clima de fim de festa. Apesar da predominância de ritmos dançantes, há espaço razoável para o folk intimista que dá a tônica do estilo do Belle & Sebastian. The Blues Are Sttil Blue é uma tentativa bem-sucedida de fazer blues à moda deles: parece até Rolling Stones no começo da carreira, ou algo equivalente. Another Sunny Day fala de dias comuns, com encontros no jardim, flores, fotos... É uma das mais "fofas" e mais belle-&-sebastianas do disco, meio mod meio bubblegum anos 60. The Life Pursuit foi produzido por Tony Hoffer, mais conhecido por seus trabalhos com o duo francês Air (10,000 Hz Legend), o grupo Supergrass (Life on Other Planets) e o cantor Beck (Guero), todos com resultados positivamente surpreendentes. Daí talvez a diversidade que faz do novo Belle & Sebastian uma agradável (con)seqüência de Dear Catastrophe Waitress (2003), até então o disco mais ensolarado da banda. Como o álbum antecessor, considerado por muitos como marco da retomada criativa da banda, este é capaz de manter o suspense da primeira à última faixa, porque a cada passagem há uma novidade, um detalhe surpreendente. Com textura eletrônica que induz a uma suposta incursão pelo pop de toques jazzísticos, como De-Phazz ou St.Germain, Act of the Apostle abre o CD dando uma falsa pista do que vem pela frente. Na faixa seguinte, Another Sunny Day, a guitarrinha característica de Stuart Murdoch, bem como seu vocal, e a pulsação da bateria de Richard Colburn não deixam dúvida: os fãs antigos podem respirar sem nostalgia. A abertura de White Collar Boy, também por causa da eletrônica, faz voltar a impressão parecida com a da primeira. Com um pé no eletro, já houve quem a comparasse a My Uptight Life, do conterrâneo Teenage Fanclub, mas ela igualmente faria par adequado se mixada com Panic, dos Smiths, numa pista de dança. Grupo não perdeu as característicasO curioso é que mesmo colocando as antenas de fora da toca, o som do grupo não perdeu as características fundamentais, o que mantém a ligação com os princípios básicos. Status Quo, The Monkees, Giorgio Moroder, R.E.M., T.Rex, clássicos da Motown, Beatles - quem quiser tem uma infinidade de referências para apontar. Já se comentou muito sobre a imitação do vocal de Michael Stipe em To Be Myself Completely, mas a música toda parece R.E.M., o que absolutamente não soa depreciativo. Sukie in the Graveyard, com seu tecladinho vintage, tem acento de soul music, que ressurge em Song for Sunshine e For the Price of a Cup of Tea (que tem inspiração nos primórdios do Jackson 5 ou similar), em diferentes abordagens. The Life Pursuit marca os dez anos de carreira do Belle & Sebastian, que se formou na cidade de Glasgow, Escócia, e só trocou dois integrantes desde então. Liderado pelo guitarrista, vocalista e tecladista Stuart Murdoch, o grupo perdeu Isobel Campbell (vocais e cello), dois anos depois de Stuart David ter deixado a banda. Em 2001, ainda com Isobel, eles se apresentaram em São Paulo no Free Jazz Festival, incluindo no repertório uma versão de A Minha Menina (Jorge Ben) em arranjo idêntico ao gravado pelos Mutantes em 1968, outro sinal de seu interesse mais amplo pela música daquele período. O que The Life Pursuit sugere é que o grupo evoluiu experimentando caminhos novos, ainda que voltados para o passado, sem perder a identidade.

Agencia Estado,

03 de abril de 2006 | 20h55

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