Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Belle and Sebastian e Spoon promovem bailão da fofura em segundo dia de Popload Festival

Explosão raivosa do punk foi trocada pela candura pop dos grupo liderados por Stuart Murdoch e Britt Daniel

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

18 Outubro 2015 | 10h36

A mesma praça, o mesmo banco... Ops! A mesma casa, o mesmo palco, mas tudo diferente. Dois dias seguidos de Popload Festival, na casa de shows paulistana Audio Club, nestes sexta e sábado, dias 16 e 17, escancaram a diferença comportamental de uma escalação de festival. Se a primeira noite transpirava energia e confronto, com o conflito de interesses musicais escancarado pela presença de Iggy Pop e Emicida, o sábado e último dia foi de paz e amor.

E muita fofura – o que não significa que melancolia inexista ali, afinal, é essa a fórmula certeira do grupo escocês Belle and Sebastian, cuja roupagem soft esconde versos tristonhos e emotivos. Prestes a completar 30 anos de carreira, B&S tem carreira invejável no indie. Nunca foram grandes demais, a ponto da popularidade os tirarem do nicho no qual nasceram, mas mostraram uma base de fãs brasileiros consistente. Há um outro choque de realidade quando se percebe que a noite encabeçada pelos escoceses e pela norte-americana Spoon mostrou ser mais popular do que aquela liderada pelo padrinho do punk. Os fãs pareciam mais engajados também. Frente, fundão e laterais da Audio balançavam na sintonia das dancinhas pouco inspiradas de Murdoch. Belle and Sebastian foi o grande headliner do Popload Festival 2015, sinto muito fãs de Iggy Pop.

Foram 16 canções e o segundo e esperado bis que nunca aconteceu. Não duvido que alguns fãs estariam esperando agora a hora da publicação deste texto para ouvir Get Me Away From Here I'm Dying, executada no Rio de Janeiro, na sexta-feira, 16. Em São Paulo, a canção foi trocada por Judy and the Dream of Horses, única mostrada quando o grupo voltou ao palco.

A história de Belle and Sebastian com o público brasileiro é de longa data. E o clima é de reencontro de amigos que não se viam há alguns anos (5 anos, para ser mais exato). O Audio Club se transformou nessa atmosfera conduzida pela voz doce de Murdoch e pelo inventivo som da banda. O grande lance, ao ouvir o grupo, contudo, está nos detalhes. Está no som da flauta que surge de súbito, ou nos vocais entrelaçados dos integrantes. A casa de shows, contudo, não comporta esse nível de detalhamento. Embaralha o som e despeja nos nossos ouvidos.

Ainda assim, há desprendimento cool do grupo no palco. Murdoch, com uma curiosa calça prateada digna de nota, conversa em português e os integrantes sorriem e trocam de instrumentos a todo momento. Todos sorriem ali em cima. E o público sorri de volta. Não há sinal que o punk passou por ali 24 horas antes.

Já no fim do show, quando um punhado de pessoas estava no palco, como é o costume nas apresentações de Stuart Murdoch e companhia, para cantar e dançar The Boy With Arab Strap e Legal Man, o Popload Festival se viu transformado numa espécie de “bailão da fofura indie”. Foram dancinhas coreografadas por parte dos fãs, selfies e nenhum descabelamento. Curioso como, ali, todos eram cool. Ninguém quis agarrar ninguém, abraçar, esmagar. Lição aprendida do dia: o bom fã indie sobe no palco e dança casualmente de olhos fechados, curtindo o som. Imagine o que aconteceria se a invasão do palco tivesse ocorrido durante o show do Iggy Pop?

É como se as canções do grupo, cujo recorte do setlist abocanhou do primeiro ao último álbum, do clássico Tigermilk (1996) ao irregular Girls in Peacitime Want To Dance (2015), emanassem uma espécie de “gás de leveza instantânea”. Difícil não ser capturado pela energia do B&S, sentir um calor no coração e se entregar a essa atmosfera. A melancolia de alguns versos pode chegar arrebatadora, uma hora ou outra, mas logo é lavaga para fora, de novo. A fofura, por fim, ganha a batalha.

Spoon e as ótimas canções anti-climax

Atração anterior ao Belle and Sebastian, Spoon já viu diante de si a casa quase cheia. Embalados por um retorno depois de cinco anos e um discaço, They Want My Soul, os cinco texanos poderiam não ser o motivo principal pelo qual o público foi até o Audio Club, mas era latente o respeito pelo trabalho do grupo, três anos mais velho do que a atração principal.

O Spoon, diferentemente do Belle, se reinventou demais no seu novo trabalho. They Want My Soul é cativante pelos efeitos e pela voz deliciosamente rouca de Britt Daniel. Também há cantos obscuros nas canções, dores e desamores, desilusões, lágrimas, mas nada é escondido. Pelo contrário, Daniel coloca tudo para fora com força, como se tudo isso lhe causasse dor ao deixar o seu corpo, ao passar pelas suas cordas vocais.

O grupo sabe usar o vazio – algo que cai muito bem no Audio. Eles não se preocupam em preencher todos os espaços das canções. Menos aflitos, eles entregaram versões potentes de canções novas, como Inside Out, Knock Knock Knock e Do You, e do hit The Way We Get By – que parece ser lançada por outra banda, não por Daniel e companhia, se comparada ao trabalho atual.

Falta ao Spoon o climax. E não é um problema só da noite de sábado, é uma constatação. Por uma hora no palco, com a simpatia moderada do líder do grupo, a banda não tem sua explosão. Não arrebata, não impregna, não arranca ninguém da sua zona de conforto. Ótimas canções anti-climax, mas é preciso se entregar a elas, porque essas músicas não vão atrás de você e puxá-lo para perto.

Rock na marra

Banda brasileira a lançar, até agora, o melhor disco de rock do ano, Cidadão Instigado não é novato em festivais, sabe como é o jogo de eventos assim funciona. Toca-se canções novas, mostra alguns hits, tenta buscar um público que às vezes não é o seu. É a fórmula pop, pelo menos. O pop que passa longe de Fernando Catatau e companhia.

O grupo deixou os discos anteriores para trás, a fase menos guitarreira e mais experimental, e atacou com Fortaleza, álbum lançado recentemente. Emendou dez músicas, todas integrantes do trabalho mais recente. Se a estética do Cidadão não dialoga com Spoon e Belle & Sebastian, o grupo se impôs na marra. Escancarou a virtuose de seus integrantes, apresentou a guitarra de Catatau aos desavisados, e conquistou palmas crescentes ao fim de cada faixa. O fim do show, o Cidadão Instigado havia conseguido atrair mais olhares para o palco do que quando o grupo começou. E isso, num festival, é uma vitória.

Veja fotos do primeiro dia de festival: 

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