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Beleza da sonoridade de Evgeni Kissin é resultado de refinado equilíbrio

Em concerto na Sala São Paulo, o pianista russo mostrou que explora como ninguém "a vibração dos harmônicos"

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

16 de junho de 2015 | 07h00

Para ser bem-sucedida, a execução precisa nascer de uma leitura pessoal do texto musical. O que o pianista interpreta não são as notas, mas a relação que as une. A observação de Luca Chiantore em Historia de la tecnica pianistica bate com o que outro agudo pensador do piano, Charles Rosen, diz ao lembrar que “tocar uma tecla de modo gracioso não faz a mínima diferença em relação ao som resultante” (em Piano Notes). “Os diferentes tipos de beleza tímbrica (...) não advêm do modo como se produz cada som individualmente. Quando as harmonias vibram, e a melodia tem um perfil unificado e convincente, o som é belo.”

Chiantore e Rosen nos ajudam a tentar explicar o modo miraculoso como o pianista russo Evgeni Kissin tocou anteontem na Sala São Paulo. A beleza de sua sonoridade é resultado de um refinado equilíbrio: a uma mão direita perfeita corresponde uma mão esquerda espetacular. Cada acorde é rico em sonoridade, porque Kissin explora como ninguém o que Rosen qualifica como “a vibração dos harmônicos”. Além disso, comentou um pianista em transe na Sala São Paulo, todas as notas soam ao mesmo tempo quando ele toca um acorde; mais incrível ainda, cada nota tem pesos diferentes no acorde. 

O repertório do recital foi convencional, típico de um mágico da era de ouro dos grandes pianistas da primeira metade do século 20: de Mozart a Albéniz, passando por Beethoven e Brahms. Em entrevista ao Estado, Kissin disse que tocaria só obras que ama. A um pianista do seu talento, basta compartilhar conosco sua maestria para nos levar ao nirvana. Pois seu recital de completa exceção foi uma autêntica e personalíssima aula de amor de um gênio ao piano. 

Foi como ouvir Mozart, Brahms e Albéniz sob novas e inéditas luzes. Kissin assume todos os riscos. É isso que separa os medianos dos grandes. Em Mozart, mostrou por que o andante cantabile central é praticamente um lied. Levou o dramatismo de Beethoven ao limite acentuando os já enormes contrastes entre o lírico e o tempestuoso que se sucedem numa leitura sanguínea da Apassionata, mas, ao mesmo tempo, de tensão assustadora. Outras interpretações incensadas desta sonata soam, a partir de agora, pálidas (polidas demais?).

Nos Intermezzi opus 117 outonais em que Brahms navega em cores sombrias combinadas com belas e resignadas melodias, Kissin nos retirou da sala de concertos e nos transportou para a sala de estar do compositor, tamanho o intimismo da interpretação. Nos deliciosos, suingantes e ritmados volteios das danças de Albéniz, entregou-se ao puro exercício de prazer sensorial do ato de tocar (gloriosa a versão de Córdoba). E, entre os quatro extras, impossível não gostar de sua leitura vertiginosa da Polonaise heroica opus 53 de Chopin. Perdeu o recital de anteontem? Trate de assistir o de amanhã. 

 


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