Antônio Lúcio/Estadão
Antônio Lúcio/Estadão

Belchior fez de seus discos documentos de uma época

O artista gravou seus trabalhos de maior repercussão nos anos 1970, com clássicos que o acompanharam por toda a vida

Renato Vieira, O Estado de S. Paulo

30 Abril 2017 | 17h05

O nome do disco que Belchior lançou em 1979, apesar de o selo do vinil original indicar apenas Belchior, é Era Uma Vez Um Homem e Seu Tempo. O cearense sabia que os discos de seus ídolos eram documentos de uma época e, em seus melhores trabalhos, quis fazer o mesmo. Todos contam como o indivíduo comum brasileiro, seja o migrante nordestino que vem para o sul ou o jovem que vê o fim do sonho hippie, enfrentava a realidade de uma América Latina mergulhada em regimes ditatoriais. Quem escuta sua interpretação emocionada de Fotografia 3 x 4, uma das canções mais contundentes do clássico instantâneo Alucinação (1976), percebe que aquela é a sua história e a de milhões de brasileiros vivendo a ressaca do milagre econômico.

Os grandes discos de Belchior são os cinco primeiros, gravados entre 1974 e 1979. Depois de um compacto na Copacabana com Na Hora do Almoço em 1971, ele foi contratado pela Chantecler para o primeiro álbum, de repercussão modesta, em que a experimentação com a poesia concreta se destaca. Em Mote e Glosa, a primeira faixa, Belchior pergunta: “Você que é muito vivo me diga qual é o novo”. “Novo”, aliás, é uma palavra-chave em sua obra. Belchior representava uma geração que pretendia romper com a geração anterior da MPB de maneira provocadora. As citações irônicas a versos de Caetano Veloso e ao próprio compositor em faixas do disco seguinte, Alucinação, representam esta tensão. Um amigo de Belchior conta que ele adorava o colega. Mas, ao ouvir em primeira mão Apenas Um Rapaz Latino-Americano, em que o autor de Alegria, Alegria é citado como "um antigo compositor baiano", ouviu de seu autor: "Sim, estou dando uma cutucada no Caetano".

Muito já foi dito sobre Alucinação e seu arsenal de sucessos, mas nunca é demais ressaltar que é neste álbum que Belchior chega ao auge criativo. Curioso lembrar que o título inicial era Populus, se não fosse a ação da censura, que vetou a faixa. O produtor Marco Mazzola, que teve de enfrentar a direção da PolyGram para conseguir fazer o disco, chamou grandes músicos de estúdio que entenderam a poética do cearense e sua estética sonora não convencional, que misturava Luiz Gonzaga e Bob Dylan. Com arranjos de José Roberto Bertrami, canções como Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais, lançadas por Elis Regina em seu show Falso Brilhante, têm peso e força também sustentadas pelo instrumental. A partir daí, Belchior conquistou seu lugar. Naquele ano de 1976, poderia tanto cantar para a plateia popular de Silvio Santos à tarde e à noite fazer um show para universitários. Ele representava o homem do povo que, finalmente, estava onde queria.

O álbum seguinte, Coração Selvagem (1977), mantém o padrão do anterior, também sob a batuta de Mazzola. Em Clamor no Deserto, Belchior confessa: “Eu sei que é difícil começar tudo de novo/mas eu quero tentar”. Estão ali versões autorais de Paralelas, Galos Noites e Quintais e Todo Sujo de Batom (esta lançada em seu primeiro álbum), registradas anteriormente por intérpretes tão diferentes entre si como versáteis, como Jair Rodrigues e Antonio Marcos. Ainda mais interessante é Todos Os Sentidos (1978), que mostra um artista fascinado pelo advento da disco music em duas faixas, Corpos Terrestres, com participação das Fréneticas, e Como Se Fosse Pecado. O grande hit, no entanto, foi Divina Comédia Humana. O Brasil inteiro cantou uma música que fazia referência ao poema de Dante Alighieri. 

Finalmente, em Era Uma Vez Um Homem e Seu Tempo (1979), Belchior lança seu último grande sucesso popular, Medo de Avião. Mas também estão ali Pequeno Perfil de Um Cidadão Comum, feita com Toquinho, e Comentário a Respeito de John, escrita com José Luiz Penna, aquela em que ele diz "Saia do meu caminho/Eu prefiro andar sozinho". Nos anos 1980, seus trabalhos têm menor repercussão, mas não são menos instigantes. Cenas do Próximo Capítulo (1984) flerta descaradamente com a new wave e Melodrama (1987) mostra um compositor em forma, em um álbum elogiado à época pela imprensa. A partir de 1995, com Um Concerto Bárbaro, Belchior começa a regravar sua obra indiscriminadamente, em projetos repetitivos. Talvez Belchior acreditasse não ter mais o que dizer. O que ele construiu nos anos 1970 já basta para refletir o hoje. Para sempre. 

 

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