Bebel volta com novo disco, nostálgica e autoral

É só no Brasil que o inverno começa com elevação de temperatura, depois de um outono quase nórdico. Curiosamente, a estação traz o esperado segundo álbum-solo de Bebel Gilberto, que leva apenas seu nome, e no qual há uma canção chamada Winter, com jeito de quem evoca o verão. Bebel gravou o CD entre Nova York, onde mora desde 1991, Londres e Rio, com escala na Bahia. De lá trouxe a bem-vinda colaboração de Carlinhos Brown, autor de duas das mais saborosas faixas do disco - Aganju, já gravada por ele, e Jabuticaba, parceria inédita dos dois. Tocando percussão e fazendo vocal, Brown participa de ambas e de outras duas, também incluídas entre as mais bonitas: Simplesmente e O Caminho, esta composta por Bebel para a cantora cabo-verdiana Cesaria Evora, que não chegou a gravá-la.A expectativa geral em torno do novo trabalho, depois do merecidamente incensado Tanto Tempo (2000), deixou a cantora um tanto apreensiva. "Confesso que fiquei um pouco mais tensa", conta, por telefone, de Nova York. "Não queria que o disco tivesse a mesma sonoridade de Tanto Tempo, mas o mesmo sentido, e mais moderno. Quer dizer, moderno a gente sempre é, mas consegui manter a influência de Europa e Estados Unidos." E sem perder a identidade brasileira. "É importante ter esse lado forte brasileiro. É uma lente de quem mora fora do País e acaba aprendendo muita coisa viajando pelo mundo. O que fiz foi misturar o velho e o novo, dar vazão à criatividade, usar instrumentos inesperados."Mais autoral que o anterior, e igualmente prazeroso de ouvir, Bebel Gilberto (Crammed/Universal), cantado parte em inglês, parte em português, privilegia instrumentação acústica, com uso mais comedido da eletrônica do que no primeiro, que foi produzido pelo iugoslavo paulistano Suba. A conjunção de elementos deste dá uma significância mais global à música de Bebel. Ao mesmo tempo paira um sopro de nostalgia. Ela chamou a mãe, Miúcha, para acrescentar vocais em Aganju, fez letras de amor falando de perda (que refletem de viés o rompimento de um namoro). Inspirada no Rio de Janeiro, onde cresceu, a bonita River Song diz: "Sonho com o vento que não sopra mais/ Gotas de um momento que não conta mais". Jabuticaba lembra a árvore da fruta que havia na casa de sua avó Memélia, a quem dedica o CD. Entre a bossa supernova e outras variantes delicadas e sedutoras do samba e do pop, Bebel reafirma um estilo sem horizonte. A lânguida Simplesmente talvez seja a que melhor simule esse vôo, com potencial para fazer sucesso nas searas da lounge-music, mas sem merecer rótulo tão redutor e impreciso.Ao contrário do primeiro disco, este sai no Brasil poucos dias depois de lançado nos Estados Unidos. Para Tanto Tempo, Bebel demorou a conseguir distribuição no País, que ficou por conta da Universal. Ela tem contrato com o Ziriguiboom, braço dedicado à música brasileira na gravadora belga Crammed, para mais um álbum. Obviamente, a crise mundial no mercado fonográfico afeta sua carreira. A Warner, que distribuía seus discos na França, fechou. "Por outro lado, aqui tem uma produção independente que está funcionando melhor para o meu lado. Apesar de ter menos grana, e ser mais complicado fazer turnês, porque está todo mundo cortando tudo, os pequenos estão se juntando e ficando mais fortes." No dia 13 de julho ela inicia a turnê européia pelo Bataclan, em Paris. Deve vir ao País para divulgar o disco, mas ainda não há shows programados. "Espero que consiga cantar no Brasil ainda este ano." Já não é sem tempo mesmo.

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