Bebel Gilberto é musa do verão francês

Tal qual Cole Porter na belíssima canção I Love Paris, Bebel Gilberto ama Paris em todas as estações. E o sentimento é recíproco. Os franceses compraram 70 mil exemplares do primeiro álbum da cantora e compositora, Tanto Tempo (Universal Music). Segundo o canal France 2, Bebel é a artista do verão e prepara-se para receber o disco de ouro na terra de Serge Gainsbourg. A conquista da França vem somar-se ao êxito em outros cantos do planeta, ao todo os números passam das 400 mil unidades vendidas no Japão, Estados Unidos, Reino Unido e Brasil. A turnê norte-americana começa no domingo e segue até agosto. Em setembro, a artista vai ao Japão e em outubro volta ao Brasil, após a "situação adversa" da festa de encerramento do Prêmio Multishow, no mês passado. Com hora marcada no médico ortopedista por conta de um tombo de escada, a famosa filha de João Gilberto e Miúcha falou à Agência Estado, diretamente de sua casa em Nova York. "Eu ainda estou andando", avisa ela, com o riso largo de quem está de bem com a vida.Agência Estado - Como foi em Paris?Bebel Gilberto - Foi ótimo. Eu fui gravar cenas de um filme publicitário, uma espécie de comercial do "Tanto Tempo" que será veiculado pelo canal France 2. O mais legal é que o France 2 é um canal aberto bastante visto. Com isso, acho que agora se inicia um processo de real popularização do meu trabalho na França. A emissora até me escolheu como a artista do verão e está dando um suporte incrível na divulgação. Além disso vou receber o meu primeiro disco de ouro pelas vendagens do disco por lá.Pode dizer-se que esse é o primeiro videoclipe de "Tanto Tempo"? Qual é a canção escolhida?Acho que não, sei que a base será a de Close Your Eyes, com imagens do show do Olympia (de Paris), eu andando pelas ruas, coisas assim. Pode até ser que pinte um videoclipe daí, mas não fui informada de nada ainda.E falando na bilíngüe "Close Your Eyes" em dado momento você canta: "Eu vou rodar o mundo, mas aqui é o meu lugar." A que lugar você está se referindo? (Risos) Isso é engraçado. Quando escrevi a letra é claro que eu estava me referindo ao Brasil, o Brasil é o meu lugar. Mas, por outro lado, eu canto essa estrofe nos países da Europa e aqui nos Estados Unidos com a total certeza de estar no meu lugar também. Acho que sou cada vez mais uma cidadã do mundo.O disco foi gravado em São Paulo, no Rio, em Londres e em Los Angeles, isso de alguma forma era um prenúncio desse seu sucesso no exterior? E era inevitável que você deixasse o Brasil há dez anos para concebê-lo?Não sei se era uma coisa inevitável. Apesar de pensar no Brasil o tempo todo, ter passado infância e adolescência no Rio, nasci aqui em Nova York e viajei muito por conta da atividade dos meus pais, é uma confusão natural que aparece até mesmo quando eu faço mapa astral. Mas não fiz Tanto Tempo por estar fora. Nunca estive fora.Você foi a atração de encerramento da 8.ª edição do Prêmio Multishow no Teatro Municipal do Rio. Ficou claro que os colegas músicos e parte dos profissionais da mídia estavam mais interessados no coquetel servido no saguão. O que você achou dessa recepção, digamos assim, pouco calorosa?Nunca pensei que fosse acontecer uma coisa dessas (pessoas debandando do auditório antes do término da apresentação). Foi uma situação estranha. Além de estar tarde e ser uma terça-feira à noite, havia um clima de desunião e revolta no ar por causa dos vencedores de algumas categorias. Queria muito tocar no Brasil e achei que aquela seria uma boa oportunidade. Não tenho toda essa malícia, tanto que abri o espetáculo com No Return, do The Kinks. Gravei a faixa no finalzinho do ano passado para uma compilação. Minha idéia era mostrar algo recente para a platéia brasileira. Sei de gente que implicou com a letra em inglês. Mas entre mortos e feridos, o saldo foi positivo. Pude cantar com o Otto, com o Caetano, com o João Donato. Em outubro eu volto ao País para uma turnê de verdade (ainda sem datas e locais definidos). Dessa vez, sem premiação e sem público convidado.Você teve alguma participação efetiva nos discos de remixes lançados recentemente pelo selo belga Crommed Discs e o norte-americano Ziriguibom?Não tive nenhuma participação direta nos remixes pois é nesse momento em que o compositor perde o controle da obra. São versões mais house music das faixas Sem Contenção (assinadas por One Rascal e Ugo & Sanz), Tanto Tempo e Close Your Eyes (Chari Chari e Faze Action). Nem cheguei a gostar tanto, não ouviria em casa, mas é a visão que esses DJs têm do meu trabalho. E outra, é remix para os clubs, não é para ouvir em casa mesmo.Você preferiria então ouvir remixes drum´n´bass, trance, ambient...Olha, na verdade o meu desejo de consumo é ouvir qualquer das músicas do álbum remixadas pelo Air (duo francês). Já pensou? Isso seria ótimo. Eu sei que até o fim do mês sai pela Crammed Discs um outro álbum de remixes do pessoal que participou do Tanto Tempo. Com Amon Tobin, Mario Caldato Jr. Thievery Corporation.Seu pai fará aniversário no domingo. Como está João Gilberto na proximidade dos 70 anos?Como ele não costuma dar entrevistas, fico constrangida em falar dele para jornalistas. Ainda mais de algo tão pessoal assim. Mas o que posso dizer é que ele está mais jovem do que todos nós. Nossa relação é intensa e a modernidade dele sempre me surpreende.E já dá para pensar num sucessor de "Tanto Tempo"?Já. Há algumas idéias em desenvolvimento, estou na estrada tocando e pensando em música o tempo todo. Mas estúdio de gravação só no fim do ano.

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