Beatriz Azevedo mistura ritmos brasileiros em 'Alegria'

'A música no Brasil é o processo de devoração', diz a cantora, que apresenta seu álbum no Sesc Santana

Francisco Quinteiro Pires, de O Estado de S. Paulo,

09 de maio de 2008 | 18h10

À primeira vista, Beatriz Azevedo pode ser considerada uma herdeira da Tropicália e do manguebeat. Ela afirma, no entanto, ser fruto da música brasileira, que desde sempre é antropofágica. "A música no Brasil é o processo de devoração", ela diz. Beatriz faz tributo a essa tradição de deglutir o que é estrangeiro, misturando à coisa nossa brasileira, para daí regurgitar algo inteiramente novo no CD Alegria. "O que é diferente de rezar pela cartilha do outro." Neste sábado, 10, e domingo, 11, às 21 h e 19 h, ela faz dois shows no Sesc Santana. Veja também:Ouça trecho de 'Pelo Buraco'  Ouça trecho de 'Alegria'   A música que dá nome ao disco foi composta com Vinícius Cantuária, radicado nos EUA há mais de 20 anos. "O mote da alegria tem a ver com os ritmos brasileiros, ela é uma característica não só minha, mas da história do Brasil." Beatriz conta que ter morado em Nova York e Barcelona só acentuou nela essa peculiaridade nacional. Para traduzir esse estado de espírito verde-amarelo, a parceria de Cantuária e Beatriz devorou maxixe, Cesária Évora, Ernesto Nazareth Beethoven e Schiller. O trombone de Bocato encontra a guitarra, que encontra o pandeiro e o xequerê. Deu no seguinte: "Eu estava quieto no meu cantim/ ela chegou ‘ocê quer saber o meu nome?’/ meu nome é Alegria, e agora/ eu só quero é dançar/ e eu esperando ela girar." O cuidado com as letras - cheias de lirismo - vem do ofício de poeta, que Beatriz valoriza: não quer ser confundida como mais uma cantora da nova safra. Ela também compõe em francês (Savoir Par Coeur) e inglês (Speak Low). Na primeira, Jean Genet e Henri Salvador são fundidos para cantar a beleza da expressão "saber de cor", pois é o coração que sabe, ela diz. Por isso que, em Speak Low, ela vai pedir respeito ao falar de amor: tem de ser baixinho, com bastante cuidado diante desse mistério. Beatriz rende homenagem a Raul Bopp (Coco de Pagu), a Hilda Hilst (Sem Fronteiras) e a Oswald de Andrade (Relicário). Ela diz ser Oswald o seu padroeiro. Neste ano, completam-se 80 anos da "bíblia" desse patrono: o Manifesto Antropófago, "a única filosofia original do Brasil", segundo ela. Os arranjos e a direção musical de Alegria são de Cristóvão Bastos. Tom Zé participa da canção Pelo Buraco, mistura de frevo e polca. A letra de Beatriz se presta a um bem-humorado trocadilho. Neste sábado, Jorge Mautner, "um pré-tropicalista", faz uma participação especial: canta Maracatu Atômico. "Ele era antenado, já falava de cibernética, antecipou o manguebeat", ela diz.

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