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Beatles e a conciliação histórica entre povos divididos pelo preconceito

Jazzistas e rappers, metaleiros e eruditos... Pela primeira vez na história, as barreiras era destruídas para que todos tocassem as mesmas canções

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2016 | 07h00

Antes de qualquer consideração musical, se é que podemos ainda fazê-las com algum frescor sobre a expressão artística mais noticiada da história, é preciso dizer que a existência dos Beatles se confirma no tempo como um feito arrasadoramente conciliador. Sem erguer um único panfleto, sem dizer uma só palavra, eles demoliram fronteiras, nocautearam preconceitos, entortaram certezas equivocadas e arrasaram pregadores separatistas que defendiam um planeta livre de seres alienados criadores de uma música que consideravam fácil, fútil, rasteira e massificada. Ao fazer a música que fizeram, os Beatles foram as únicas forças a unir povos secularmente separados, como jazzistas e metaleiros, sambistas e punks, rappers e compositores eruditos. De grupos tradicionais japoneses a orquestras russas, todos tocaram Yesterday, Let It Be, Hey Jude.

O segredo da sagração dos Beatles passa por uma conquista perseguida por qualquer criatura que queira dar algum sentido musical a um punhado de notas. Eles sofisticaram a simplicidade, ou simplificaram a sofisticação, libertando a música pop de suas convenções sobretudo na estrutura harmônica e nos arranjos sinfônicos. Uma música dos Beatles guarda sempre uma surpresa, mesmo depois de 50 anos. Seus passos foram tão largos que ainda não os alcançamos.

Um jazzista pode gostar de Beatles por motivos completamente diferentes dos de um maestro ou de um roqueiro. O jazz se ajoelha para a riqueza das modulações harmônicas de Paul, as orquestras amam as sobreposições de cordas e sopros pensadas por George Martin e os roqueiros entram em êxtase com Lennon no limite da voz e Harrison no auge da criação. Ringo Starr? É o mortal que estava ali para nos lembrar que, um dia, o homem atingiu a perfeição.

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