Beach House mostra repertório do CD 'Bloom'

Duo traz a sua obsessão neoclássica a São Paulo

Roberto Nascimento - O Estado de S.Paulo

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Devotos da canção pop em sua tradição mais elaborada, o duo Beach House, de Victoria Legrand e Alex Scally, se estabeleceu entre os expoentes modernos de uma linhagem que passa por Beach Boys, Zombies e Cocteau Twins. Bloom, disco lançado em 2012 e que a banda mostra na quarta que vem, no Cine Joia, como parte do evento Popload Gig, consolida o olhar preciso que a banda tem sobre este legado, com melodias e arranjos que preservam apenas a beleza essencial de poesias e melodias. De sua casa em Baltimore, Victoria falou ao Estado sobre memórias, influências e o que lhe incomoda na indústria musical.

O Beach House é famoso pelo intimismo de suas canções, mas Bloom, o último, parece menos introspectivo. Você acho que a banda caminha nesta direção?

Este disco em particular tem esse tom grandioso. Não quer dizer que será desta forma nos próximos discos, mas foi o que aconteceu. O mundo que criamos, as histórias que as músicas contam, nos trouxeram esta sensação. É um disco grandioso e intenso. Faz uns dois anos que o ouvi pela última vez... Acho que só conseguimos entender um disco 5 ou 10 anos depois. Mesmo que você esteja controlando o processo, sentindo coisas, deixando outras acontecerem por acaso, é difícil compreender o que saiu naquele momento.

Isto acontece com os primeiros discos do Beach House?

Sim. Já estive em bares em que as primeiras músicas estavam tocando e literalmente não as reconheci. Até perguntei de quem era o disco. É uma sensação esmagadora e assustadora, porque você percebe que fez e viveu algo que está muito distante. É que nem ver uma foto e acreditar que você era aquela pessoa. Há algo muito belo nisso. Muitas coisas vêm junto. É um sentimento complexo. Por isso que envelhecer é tão insano. Tudo fica mais intenso e mais rico e mais impressionante. Há uma certa ironia nisto, porque quando somos jovens – adolescentes, digo – procuramos sensações igualmente intensas através das drogas. Você busca e aguenta, porque sobra energia para voltar à realidade. Mas as experiências mais fascinantes acontecem diariamente quando nós crescemos. Nem precisamos de drogas para sentir que a vida é uma coisa louca e maravilhosa. Voltando aos discos, há artistas, como o cantor Scott Walker, que gravam um disco, saem do estúdio e nunca mais o escutam. Na arte, o futuro é o que interessa. Eu pessoalmente gosto do passado. Pode ser sagrado e belo, mas o passado não é onde eu busco inspiração.

Mesmo assim há um forte apreço pela tradição nas canções do Beach House. Concorda?

Quando explico minha música para alguém de 70 anos digo que é um tipo de música pop. Há certas estruturas. Versos e refrões. É bem clássico, feito nos moldes da tradição e de bandas que nos influenciaram, como os Zombies. Eu amo os Zombies. Ouvimos muita música antiga, sim, mas quando estamos no estúdio, não ouvimos nada, apenas aquilo que estamos fazendo. É como estar apaixonado. Você só vê aquela pessoa. A questão do passado, para mim, tem mais a ver com a estrutura. Ainda há muita liberdade para se criar com os instrumentos. Nós amamos os nossos teclados e o montante de coisas que colecionamos através dos anos. Os timbres precisam ter algum vínculo com o espírito e o significado da canção.

Algumas críticas sobre Bloom apontaram que a banda mudou pouco desde o último disco. Como vê esta pressão constante para se renovar?

Esta é uma parte da indústria que veio à tona com o crescimento da internet nos últimos anos. Há muitos artistas que têm esta pressão de mudar todo disco. Alguém como Rihanna, que tem de mostrar algo fresco, novo e interessante toda vez. Mas esta não é a minha relação com a música. Você pode até argumentar que nós somos parte da indústria porque vendemos discos, mas eu acho que o que aconteceu conosco foi uma coisa simples. Vendemos discos porque as pessoas gostaram da música. Nunca fomos vendidos. Estamos numa ótima posição. As pessoas que trabalham conosco nos respeitam. Temos liberdade total. E, pessoalmente, não sinto nenhuma pressão para fazer algo diferente e interessante e todo aquele “blá-blá-blá”.

BEACH HOUSE

Cine Joia. Praça Carlos Gomes, 82, tel. 3231-3705.

Dia 28, às 20 h (show: 23h30). R$ 180.