Baterista Nenê comemora 50 anos de carreira com dois discos de jazz

Um dos maiores bateristas do País comemora meio século de baquetas com lançamentos em linguagem jazzística

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2018 | 14h28

Gaúcho como a patroa de um dia, Elis Regina, Nenê legitima a constatação de que o músico toca nada mais do que aquilo que ele é. Observe-o em ação. O tempo o deixou mais enigmático, talvez menos pesado, e sua música tem sido também assim. Em outros tempos, Nenê tocava com mais explosão, mais volume, sem medo das toneladas do próprio braço, mas há discos também em que ele buscava nuances que o aproximava dos compositores eruditos, apostando em uma bateria que fala tanto quanto um instrumento de sopro ou de cordas. Quanto mais homens houver ali dentro, mais recursos o baterista terá.

Seja quantas forem suas facetas, o fato é que Nenê se tornou com os anos um dos maiores instrumentistas do País. Seus 50 anos de baquetas são comemorados agora com dois álbuns. Em Verão ele vem produzido pelo também baterista Carlos Ezequiel, que acaba de dar dignidade a outro obelisco das percussões, Airto Moreira, que fez pela primeira vez um álbum no Brasil depois de mais de 50 anos. Sua formação aqui é de trio, com Irio Jr. (piano) e Alberto Luccas (contrabaixo), e a ideia é fechar uma quadrilogia. Outono saiu em 2009 e Inverno em 2013. O próximo será Primavera.

Verão abre com o Nenê dos experimentos e do jazz. Sua música tem imagem e seu instrumento parece interferir na melodia tamanho seu desprendimento do chão rítmico. A seguinte, Calunga, tem mais tensão, com o diálogo do trio, de novo, em alta intensidade. A experiência que a música propõe é outra, de absorção, como um livro. Uma história está sempre sendo contada. Fraterna é outra criação que sai de uma cabeça fora dos lugares comuns. Um piano que parece brincar, como se estivesse criando a melodia ali mesmo. E Meu Sábado Cai Sempre No Domingo inicia por um solo. Nenê é da época em que os bateristas solavam.

O outro disco tem o nome de Pantanal, com a mesma produção de Carlos Ezequiel. Além de Nenê, estão nele Rodolfo Guilherme (trompete), Gustavo Benedetti (sax), Fabio Leandro (piano) e Jakson Silva (contrabaixo). A história aqui é outra. Um grupo grande, com sopros, vem mais ironicamente quente que o verão. É agora uma música suingada que aparece em Pantanal. Calunga, do álbum anterior, é de novo mostrada; e seguem Tarde Fria, Dark Square, Choramingando. Mais melodias, belíssimas, até que outros temas de Verão são reapresentados em uma nova proposta.

Os álbuns referenciais já chegam com liberdade poética e carta branca. Nenê usa o seu para mostrar-se em duas faces complementares, mas ele não se esgota aí. Nascido em 1947, Realcino Lima Filho, seu nome de batismo, começou a tocar profissionalmente aos 15 anos. Assim que Airto Moreira foi para os Estados Unidos, ele assumiu seu lugar no antológico Quarteto Novo, de Hermeto Pascoal, Heraldo do Monte e Theo de Barros.

Ao lado de Elis Regina, com algum grau de turbulência (Nenê, Cesar Camargo Mariano e Elis tiveram momentos de altas temperaturas em ensaios e shows) gravou o disco e fez parte da temporada histórica de Falso Brilhante. Mais tarde, cairia nos braços de Milton Nascimento para fazer shows de Geraes e gravar Clube da Esquina 2. Hermeto Pascoal foi outro companheiro de palco e de estúdio. Juntos, os dois estavam no Festival de Montreux, em 1979, em um momento inesquecível.

Mais conteúdo sobre:
músicajazz

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.