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Baterista clássico do jazz Jimmy Cobb vem ao Brasil

Único sobrevivente da gravação de Kind of Blue traz dia 14 o mesmo show do Festival de New Orleans

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

05 de maio de 2009 | 09h52

Eram quase 6 horas da tarde de sábado quando o trompete de Wallace Roney disparou o primeiro acorde de So What, a canção que abre o mitológico disco de Miles Davis, Kind of Blue. A plateia parecia entrar em órbita. O cineasta Francis Ford Coppola veio da Califórnia para ouvir. De olhos semicerrados, as pessoas acompanhavam a execução (como se escutassem o sermão do seu pastor) das cinco canções do mais clássico dos discos de jazz já gravado, lançado em março de 1959.

Dos seis homens no palco, apenas um participou da gravação do álbum: o baterista Jimmy Cobb, de 80 anos. Cobb integrava de fato o sexteto de Miles. Os outros estão no lugar dos que morreram: Wallace Roney (no ?papel? de Miles Davis), Javon Jackson (no de Cannonball Adderley), Vincent Herring (no de John Coltrane), Buster Williams (baixo, no lugar de Paul Chambers) e Larry Willis (no piano de Bill Evans). Agora, 50 anos depois daquele feito, liderados pelo sobrevivente Jimmy Cobb, eles vêm ao Brasil no dia 14, para o Bridgestone Music Festival, no Citibank Hall, para tocar inteiro o álbum mais conhecido do jazz em todo o mundo - até hoje, vende em média 5 mil cópias toda semana, segundo estima o escritor Ashley Kahn, autor do livro Kind of Blue: A História da Obra-Prima de Miles Davis (Editora Barracuda), que também estava na plateia.

Na privilegiada tarde de sábado, quando Kind of Blue voltou à vida no grande terreiro do 40º Festival de Jazz de New Orleans, Wallace Roney, discípulo incensado pelo próprio Miles Davis, usava um paletó excêntrico, dourado. Baixou o santo: estava tão marrento e invocado quanto Miles. Para emular de vez o ídolo, só faltava querer tocar de costas para o público. Vincent Herring parecia que recebia o espírito de Coltrane. Javon Jackson vestia a pele de Cannonball Adderley. Ao piano, Larry Willis, gentleman do Harlem, tinha dupla missão: além de ressuscitar a elegância estilística de Bill Evans, cumpriria também o próprio papel (ele tocou na banda de Miles Davis).

Jimmy Cobb, testemunha viva de todo o processo de composição, gravação e depuração de Kind of Blue, é um sujeito de humor afiado. No auditório do hipódromo de New Orleans, sede do festival, quando indagado sobre se sabia que estava participando de um clássico que mudaria a história da música, ele disse: "Para Miles e para mim, eram apenas grandes caras tocando alguma música nova. Não era nada de extraordinário. O conceito de gravar um disco era diferente do que é hoje", contou Cobb.

Kind of Blue é uma obra que até hoje turbina apaixonadas discussões musicais. "Miles entendia que menos era mais. O mais impressionante sobre aquele disco é que, se você quer analisar algo, não há muito o que analisar. São apenas alguns acordes. Freddie Freeloader não tem mais do que cinco notas", afirmou o pianista Larry Willis. O escritor Ashley Kahn discordou radicalmente e disse que a declaração era "incrivelmente não verdadeira". Willis voltou atrás e disse que o fato de Bill Evans estender os acordes fez a diferença, e salientou a influência da música impressionista francesa, de Eric Satie e outros, no mundo harmônico que emanava do piano em Kind of Blue.

SOBRAS PRECIOSAS EM DOIS CDS E UM DVD

OBJETO DE DESEJO: A Sony-BMG acaba de relançar Kind of Blue no Brasil. Trata-se de uma edição especial com dois CDs e um DVD, ao preço sugerido de R$ 79,90.

Além das faixas originais, raras sobras de estúdio compõem a caixa, que é diferente da que foi lançada nos Estados Unidos - havia também um disco de vinil na original, que virou objeto de desejo dos colecionadores, que ficaram insatisfeitos com o lançamento incompleto.

O DVD da caixa traz dois filmes. O primeiro, Celebrating a Masterpiece, é uma versão expandida do documentário de 2004, Made in Heaven, e traz novas entrevistas conduzidas por Michael Cuscuna, três vezes vencedor do Grammy. O segundo é a gravação de um show para a televisão CBS, em 1959, no qual o quinteto de Miles Davis tocava com a Gil Evans Orchestra, executando composições de Miles, Dave Brubeck e Ahmad Jamal.

MILES DE ELOGIOS

"Não sei por que, mas essa vai ser sempre minha música. Eu toco Kind of Blue todo dia. Ainda soa como se tivesse sido feito ontem."

QUINCY JONES, MÚSICO, EM 1999

"É a Bíblia, cara. Esse é o jeito que as pessoas sentem a respeito de Kind of Blue. O disco se tornou a Bíblia essencialmente apenas seis meses após ser lançado."

DONALD FAGEN, DO STEELY DAN, EM 1999

"Uma coisa é tocar só uma música, ou tocar um programa musical, mas outra coisa bem diferente é praticamente criar uma nova linguagem de música, que é o que Kind of Blue fez. Miles Davis criou uma nova linguagem."

CHICK COREA, EM 1999

"É como ouvir a Tosca, você sempre chora."

SHIRLEY HORN, CANTORA, EM 1999

"Às vezes eu ouço isso entre os movimentos da 9ª Sinfonia de Beethoven. Ou quando Pablo Casals toca o cello sem acompanhamento, eu ouço aquela qualidade. Acho que é um epítomo universal de sofisticação no desenvolvimento da música. É um fórum para um grande artista apresentar no auge do seu desenvolvimento - é apenas algo que vai durar por centenas de anos, talvez por milhares de anos."

ELVIN JONES, BATERISTA, EM 1999

"Se estiver saindo de férias e puder levar só uns três ou quatro discos, Kind of Blue será o disco um e o dois."

RON CARTER, MÚSICO, EM 1998

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