Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Barítono Paulo Szot surpreende em papéis mais dramáticos

Cantor faz primeiro concerto em São Paulo desde que deixou o País

João Luiz Sampaio, Especial para o Estado

09 de fevereiro de 2015 | 03h00

 O mundo da ópera também tem suas estrelas. E, no cenário brasileiro, o barítono Paulo Szot tem sido uma das principais, mesmo antes da consagração nos Estados Unidos, primeiro no musical South Pacific e, em seguida, no palco do Metropolitan Opera House, de Nova York. Por conta disso, criou-se uma aura de expectativa em torno do seu concerto, na última sexta-feira, no Theatro São Pedro. Foi o primeiro em São Paulo dedicado ao repertório operístico desde que deixou o País, em meados dos anos 2000. E ofereceu a chance de ouvir de perto uma voz em transformação.

A primeira parte foi dedicada a alguns lieder do ciclo Des Knaben Wunderhorn, de Mahler. Suas peças constituem, dentro do repertório de canções de arte, referência importante. Da mesma forma, são simbólicas do espaço que o compositor ocupa na passagem do século 19 para o 20: os textos são exemplos da apropriação, pelo romantismo, do folclore alemão, enquanto a música que os acompanha - e ressignifica - revisita o passado ao mesmo tempo em que parece sugerir sua exaustão.

Szot trafega com desenvoltura por esses dois mundos. Mas, em sua interpretação, o que há de mais especial é a capacidade, a cada canção, de criar uma atmosfera diferente - do humor (carregado de ironia) de Des Antonius von Padua Fischpredigt, em que Santo Antônio de Pádua prega aos peixes, ao espírito trágico, povoado de morte, com o qual Mahler trabalha em Der Tambourg’sell.


Na segunda parte, a ópera. A começar pelas árias Hai Già Vinta la Causa, de As Bodas de Fígaro, de Mozart, e Wy Mnie PisaliKak by Zizn, do Eugene Oneguin, de Tchaikovsky. Na primeira, o desejo cômico de vingança do homem que se imagina traído; na segunda, um monólogo em defesa da recusa do amor. Em comum, o fato de que os dois papéis fizeram parte do repertório de Szot desde muito cedo; e, neles, ficam claras aquelas características que aprendemos a associar ao seu trabalho: o cuidado com o texto, com a construção das linhas de canto, com a interpretação.

Mas elas também sugerem uma voz em transformação. O barítono lírico começa a trajetória em direção a repertórios mais pesados. E foi isso que se ouviu em seguida. Primeiro, com a ária da ópera Colombo, de Carlos Gomes. A ópera é do início dos anos 1890 mas o modo como o compositor recria, no libreto, a história do descobridor das Américas está mais ligada a um romantismo tardio do que necessariamente à busca de novas e mais arrojadas formas narrativas. Mas a inspiração melódica e a escrita de corte verista colocam uma ária como Era un Tramonto D’Oro entre os melhores exemplos da inspiração da ópera do período. E Szot ofereceu dela uma leitura idiomática, atenta ao estilo e muito eficaz na construção do clímax dramático.

O barítono foi ovacionado após Carlos Gomes, abrindo espaço para a grande ousadia da noite: a cena final de A Valquíria, de Richard Wagner. Em entrevista ao Estado, Szot diz que viver Wotan no palco é um sonho e que é preciso esperar para ver se a evolução da voz vai lhe permitir realizá-lo. Ainda é cedo para saber. Mas a atenção ao estilo wagneriano permite a ele criar uma interpretação própria, dentro dos limites colocados por uma voz ainda distante do baixo-barítono que a partitura pede, mas repleta de dramaticidade, em um arco construído por um ator/cantor experiente. 

Szot foi acompanhado no concerto pela Orquestra do Teatro São Pedro regida por Luiz Fernando Malheiro, que abriu sua primeira temporada como diretor artístico. O desempenho ainda irregular em momentos como o Prelúdio da Traviata são simbólicos do que ainda é o início de um trabalho. Mas o senso de estilo em um programa diversificado, assim como o equilíbrio entre os naipes no Wagner, já sugerem um novo caminho a ser trilhado.

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