Barenboim vem a SP tocar e reger

Uma das figuras mais expressivas do mundo erudito, o maestro e pianista argentino naturalizado israelense Daniel Barenboim, virá ao País duas vezes neste ano: a primeira delas em agosto, para um recital, ao piano, na Sala São Paulo. Em outubro ele volta, desta vez, como regente, à frente da Orquestra Sinfônica de Chicago, da qual é diretor desde 1991.O programa do recital, promovido pela Sociedade de Cultura Artística e pelo WestLB Banco Europeu, tem peças pouco executadas pelo pianista ao longo de sua carreira. "São composições pouco tocadas de maneira geral, mas bastante interessantes e criativas", explica ele em entrevista, de Marbella, na Espanha, onde passa 15 dias de férias. Na primeira parte, ele toca Anos de Peregrinação - 2.º Ano, peça composta por Franz Liszt entre os anos de 1837 e 1849. Ela é formada por peças que mostram as impressões do compositor durante as viagens que fez com sua amante Marie d´Agoult pela Suíça e Itália. Da série, Barenboim interpreta os Sonetos de Petrarca n.º 47, 104 e 123, peças derivadas de um conjunto de obras escritas por Liszt para piano e tenor em 1838 e 1839. Toca também, Fantasia Quasi Sonata, mais conhecida como Sonata de Dante, em que Liszt reproduz suas impressões e de sua amada sobre poemas de Dante. "Acredito que essas peças são algumas de suas mais criativas obras, que primam por sua capacidade de reproduzir sensações por meio da música", diz Barenboim.Na seqüência, ele interpreta o primeiro e o segundo caderno de Iberia, de Isaac Albeniz. Peça pouco executada pelos pianistas de todo o mundo, ela foi composta entre 1905 e 1909. "Trata-se, basicamente, da recriação de um ambiente a partir das impressões do compositor." Desta forma, Barenboim acredita na coesão do programa. "Acredito que este seja um programa bastante homogêneo e estou muito ansioso e feliz para voltar a fazer um recital de piano em São Paulo."Barenboim já se apresentou no Brasil por três vezes, no entanto, a última ocasião em que esteve no País para tocar piano foi em 1960. Nas duas outras, veio como regente da Orquestra Nacional de Paris e da Orquestra Sinfônica de Chicago.Desenvolvendo as duas atividades há um bom tempo, Barenboim acredita que sua carreira como regente não interfere no trabalho como pianista. "São duas coisas bastante diferentes." A diferença? "Quando você está regendo tem uma imensa quantidade de cores sonoras e, ao piano, você busca recriar a ilusão do colorido da orquestra." Outro ponto lembrado por Barenboim é o contato com o instrumento. "Regendo, eu sinto muita falta do contato físico com o som."Conhecido pela sua busca por recriar obras por meio de suas interpretações, Barenboim nutre em relação à música um sentimento de integração muito grande. "É muito difícil definir a palavra som, portanto, cada pessoa tem sua concepção em relação à música." Tal fato, para ele, é o que torna o trabalho do músico algo apaixonante. "A música é a constante renovação de um ambiente e, cada vez que alguém toca, traz ao mundo um novo som, algo diferente de tudo que já foi e será feito."Problemas - Atualmente, Barenboim acumula as funções de diretor da Orquestra Sinfônica de Chicago e da Ópera Estatal de Berlim. E é na Alemanha que tem encontrado mais dificuldades. Recentemente, o governo alemão propôs um projeto para a unificação das três casas de ópera de Berlim em uma só, tendo em vista a redução de gastos. "Assim, você acabaria destruindo a personalidade e as características de cada casa."Para ele, o problema é político. "Após a queda do Muro de Berlim, percebo que há uma falta de vontade política muito grande." Problema, aliás, velho conhecido das orquestras brasileiras. "A única maneira de reverter esta situação é fazer com que a música seja parte importante da formação das crianças e dos jovens."Daniel Barenboim - O pianista interpreta obras de Liszt e Albeniz. Dia 9 de agosto, às 21 horas. De R$ 60,00 a R$ 150 00. Sala São Paulo. Rua Nestor Pestana, 196, tel. 258-3616.

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