EFE/ Miguel Angel Molina
EFE/ Miguel Angel Molina

Barenboim e Elgar: a história de amor musical continua

'Há uma qualidade rara em sua música que me atrai tremendamente: algo emocional, no melhor sentido da palavra', afirma o maestro argentino sobre o compositor inglês

David Allen, The New York Times

28 de julho de 2020 | 10h00


Daniel Barenboim e Edward Elgar protagonizaram um dos casos de amor mais incomuns da música clássica nos últimos anos.

Fora da Inglaterra, a música de Elgar (1857-1934) ainda tem uma reputação dura e questionada, apesar dos esforços dos musicólogos e da defesa dos músicos. Mas, nos últimos oito anos, Barenboim, de 77 anos, e sua orquestra Staatskapelle Berlin fizeram execuções das duas sinfonias de Elgar, o oratório The Dream of Gerontius e o Concerto para Violoncelo, com Alisa Weilerstein.

É uma conexão de longa data: a primeira esposa de Barenboim, a violoncelista Jacqueline du Pré, colaborou com o maestro John Barbirolli em uma gravação clássica do Concerto para Violoncelo em 1965, e ela e Barbirolli, por sua vez, inspiraram o jovem argentino Barenboim a aprender e a gravar muitas obras de Elgar com a Filarmônica de Londres.

Um quinto álbum do ciclo de Berlim foi lançado na sexta-feira, apresentando Sea Pictures (cinco músicas, cantadas por Elina Garanca) e Falstaff, um poema sinfônico ambicioso e, muitas vezes, indisciplinado. Barenboim, cujo contrato com a Staatskapelle e a Ópera Estatal de Berlim foi prorrogado no ano passado em meio a acusações de bullying, falou por telefone da Espanha sobre Elgar e sua música. Estes são trechos editados da conversa.

Por que você ama tanto essa música?

É uma pergunta difícil de responder, porque é preciso admitir que, historicamente, Elgar não tem tanta importância. Se Elgar não tivesse passado por esta terra, o desenvolvimento da música teria sido o mesmo. Também é preciso esquecer que ele era um tanto anacrônico, quando você pensa nas outras coisas que estavam sendo compostas na época - Schoenberg, Stravinsky, etc.

Mas há uma qualidade rara em sua música que me atrai tremendamente: algo emocional, no melhor sentido da palavra. Não exterior, mas algo muito, muito profundo e sincero, que suponho ter a ver com as modulações - com a linguagem harmônica, que é diferente da de muitos outros compositores. O mais próximo é Strauss

Então devemos pensar que Elgar não é um compositor radical, como Schoenberg ou Stravinsky, mas um progressista, como Strauss ou Mahler?

Acho que sim. Falstaff é um trabalho especial na produção de Elgar. Há coisas que o conectam às suas sinfonias, mas, se as sinfonias estão mais próximas de Don Juan e Ein Heldenleben de Strauss, Falstaff’ está mais próximo de Till Eulenspiegel.

Mesmo na Inglaterra, 'Falstaff' não é muito executada, em comparação com outros trabalhos de Elgar. Se os amantes da música conhecem a história de 'Falstaff', é principalmente por causa de Verdi...

Verdi, é claro. Mas, sabe, oponho uma leve objeção ao fato de que a nacionalidade de Elgar sempre seja mencionada quando se fala em sua música, como se não fosse de se esperar que alguém pudesse ser inglês e, ao mesmo tempo, um grande compositor. Ninguém fala sobre a nacionalidade de outros compositores tanto quanto se fala sobre o fato de Elgar ser inglês. Existe, é claro, uma certa identidade inglesa, mas este não é o elemento mais importante.

Qual é o elemento mais importante?

A linguagem harmônica, a orquestração, é notável, se o maestro souber equilibrar a orquestra adequadamente e a orquestra tiver familiaridade com a música, o que é raro que aconteça, porque Elgar não é tocado com muita frequência. O ditado inglês “a familiaridade gera o desprezo” está totalmente equivocado. Às vezes nos esquecemos de que as orquestras e o público precisam de familiaridade com a música para amá-la.

 

Uma das coisas que você parece estar dizendo é que Elgar fazia parte de uma tradição europeia - e não apenas inglesa.

Você está fazendo uma afirmação muito perigosa, ainda mais agora, por causa do Brexit, é claro. Acho que ele é um compositor europeu, não?

Absolutamente. Não era este o seu argumento quando você tocou sua 'Land of Hope and Glory' na rádio BBC com a Staatskapelle um ano depois da votação do Brexit?

Land of Hope and Glory na rádio não tinha nada a ver com uma coisa política. Foi totalmente mal interpretado. Tocamos as duas sinfonias no programa, e eu queria mostrar que você não precisa ser inglês para tocar bem essa música.

Acredito firmemente na ideia da Europa e acredito que grande parte do problema da União Europeia é que muitas pessoas se esquecem de que não se tratava apenas de uma ideia financeira ou econômica. Não nos esqueçamos de que, seja na França, na Alemanha, na Itália, na Inglaterra ou na Espanha, a cultura é a maior contribuição histórica do continente. É uma contribuição diferente da dos outros continentes e, portanto, a cultura - a cultura europeia - também é uma coisa muito importante para o mundo de hoje.

Elgar também compôs obras como' The Crown of Indi'a e a 'Imperial March'. Então, como você pensa em executá-la hoje em dia, durante este acerto de contas global com o racismo, a escravidão e o império? Devemos ignorar essa parte de Elgar? Devemos confrontá-la?

Não, acho que temos que colocá-la em contexto. Sejamos um pouco mais neutros em nossas observações. Há muito tempo nos demos conta de que a escravidão era uma coisa horrível e acabamos com ela, mas, na época em que ela estava lá, estava lá. O caráter do Império inglês é apenas uma parte de alguns momentos das obras de Elgar. Não vamos nos fixar nas Pomp and Circumstance Marches, porque esta é uma pièce d'occasion, assim como o balé de Aida, mas nas obras mais sérias - The Dream of Gerontius, as sinfonias, Falstaff, o Concerto para Violoncelo, Sea Pictures - este elemento é apenas uma parte.

Então podemos tocá-lo hoje, aceitando essa parte e seguindo em frente? É isto que você está dizendo?

Sim. Eu não acho que precisemos tocar Elgar prestando uma atenção especial, por assim dizer, para não nos esquecermos de que existia um Império Britânico e de que esta era a sua expressão. Esta era apenas a parte de um todo.


Tradução de Renato Prelorentzou 

    

 

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