Barbara Hendricks se apresenta sábado em SP

Barbara Hendricks desembarca na semana que vem em São Paulo trazendo dois de seus mais queridos"amores". Um deles é Mozart, compositor de As Bodas de Fígaro, ópera que a revelou para o mundo. O "outro" é Tatiana, personagem de Evgueni Oneguin, ópera de Tchaikovski, o mais novo papel de seu repertório. Isso tudo faz da apresentaçãoda soprano, no próximo sábado, na Sala São Paulo (ao lado da orquestra jovem do UBS Verbier Festival, da Suíça), uma chance de ver a evolução artística de uma das principais cantoraslíricas de nosso tempo.Evolução, segundo ela, parece ser mesmo o termo. "Não posso dizer que Tatiana represente uma nova fase de minha carreira. Sinto que tudo que fiz preparou-me para este papel, por mais diferente que ele possa ser do que já fiz. Segui um caminho coerente que me trouxe ao atual estágio da minha carreira", disse Barbara. Ela vai interpretar em São Paulo a famosa ária da carta da ópera de Tchaikovski, uma seqüência depouco mais de 10 minutos na qual Tatiana - personagem inspirada em obra do poeta Alexander Pushkin - escreve, hesitante, uma carta a Oneguin falando de seu amor por ele. "A ópera tem umcaráter de conversação bastante diferente, uma emoção distinta da de personagens como Mimi, da La Bohème, por exemplo. E Tatiana é uma pintura; o modo como Tchaikovski a cria por meiodas notas é incrível e é um desafio decifrá-la."De Mozart, ela interpreta árias de Susanna, namorada de Fígaro e empregada do Conde nas Bodas de Fígaro. "Canto Mozart desde minha época de estudante. Ele é um grande gênio esua obra relaciona-se com as pessoas de modo direto. Não imagino minha vida sem ele e cantar sua música fez com que minha voz semantivesse jovem, o que me ajuda até hoje."Desde a Susanna que ela cantou em 1978 em Berlim, sua primeira grande aparição no cenário musical internacional, Mozart mantém-se em seu repertório, com papéis também de outrasóperas, como A Flauta Mágica e Idomeneo (que ela gravou para a Telarc com Charles Mackerras e para a Phillips com ColinDavis, respectivamente).Paralelamente, foi adicionando a seu repertório papéis de Stravinski, Verdi e em especial Puccini como Mimi, e Liu, da Turandot. "A gravação de Turandot com Karajan foi um ponto decisivo de minha carreira, ele mostrou como eu poderia abrirmeu repertório, principalmente com compositores italianos. Teria me arrependido se limitasse minha vida artística a Mozart."Barbara, que esteve no Brasil pela última vez no ano passado, ressalta que a decisão de incluir determinado papel em seu repertório operístico, assim como também ocorreu com seu repertório de canções (parte importante de sua carreira), foiguiada por sua "imensa curiosidade". "Não fiz planos, determinei minha carreira seguindo meus instintos e interesses pessoais, as chances foram aparecendo e eu, de acordo com meu momento, as aceitava ou não."Crise - Se para Barbara esse poder de escolha é importante, também o é para outros cantores. No entanto, ela ressalta, não muito otimista, que a vida do artista hoje é rodeada por diversas pressões mercadológicas e que, de certa forma, novos artistas não têm como guiar suas carreiras de acordo com os próprios instintos.Motivos, diz ela, são muitos. Mas o principal está no modo como gerentes de gravadoras, de casas de ópera, de orquestras, vêem o trabalho do artista desta área. "Não é certo que nós tenhamos de vender a mesma quantidade de discos que umagrande estrela da música pop, por exemplo; são atividades artísticas diferentes. Não adianta também um cantor de ópera buscar público por meio da música popular, pois não vai fazer tão bem quanto um músico popular. Não é a lógica da TV que deve prevalecer. "Barbara, no entanto, já flertou com o jazz e canções populares norte-americanas. "Neste caso, há uma identificação musical que me permite fazer isso com qualidade, mas, na maioria das vezes, isso não acontece." Quais os caminhos, então, quedevem ser seguidos? "É preciso dar ao artista - e ele tem de lutar por isso - a liberdade de fazer algo no que ele acredite, de desenvolver sua arte sem acessórios e mostrar que a músicapode e deve ser um caminho para a união das pessoas."Ainda mais nos dias de hoje, em que o mundo assiste às conseqüências dos ataques terroristas de 11 setembro, em Nova York. "A música, a arte, pode mostrar que somos todos humanos, não estamos sós, e pode despertar o que há de mais nobre em nós. É essa a tarefa do artista, dar alimento à alma das pessoas."Barbara, embaixadora da Boa Vontade na Alta Comissão Pró-Refugiados da ONU, mostra-se bastante preocupada com a situação dos refugiados afegãos e diz que gostaria de ver os acusados perante um tribunal da ONU. No entanto, faz ressalvas ao modo como as coisas têm sido tratadas por Estados Unidos e Inglaterra. "É muito estranho e incômodo acompanhar asatividades militares sem se saber ao certo o que está sendo feito; há um clima de certa forma antidemocrático. Espero que, no caso de um julgamento, as coisas sejam diferentes e que todos não apenas autoridades norte-americanas e inglesas, possam acompanhá-lo."Barbara Hendricks. A soprano apresenta-se com a UBS Verbier Festival Youth Orchestra sob regência de Paavo Järvi. Sábado, dia 24, às 21 horas. De R$ 10,00 a R$ 80,00. Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, s/n.º, tel. 3337-5414

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