Haroldo Saboia
Haroldo Saboia

Bárbara Eugênia e Tatá Aeroplano narram um amor errante em disco em conjunto

Disco ‘Vida Ventureira’ conta a história de um casal a viajar pelo interior do País e por paisagens do cinema de David Lynch

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

10 Agosto 2017 | 06h01

O amor frágil se rompe. Parte, metade para um lado, outra para o outro. Disforme, é difícil que se reconecte. Nada será como antes, como já cantou Milton Nascimento no histórico Clube da Esquina.

“Será que isso vai mudar? Dói, dói, dói. Será que isso vai passar?”, canta o coro de Será Que Isso Vai Durar?, a quinta canção de Vida Ventureira, o primeiro álbum completo produzido pela parceria entre Bárbara Eugênia e Tatá Aeroplano. Um álbum cinematográfico, imagético. A narrativa musical de um amor errante.

Faz parte da característica de ambos contar histórias nos versos. No caso de Tatá, desde os tempos de sua antiga banda, o Cérebro Eletrônico, ele criava as narrativas a respeito das “nights” percorrendo o Baixo Augusta, algumas loucas, outras amarguradas e, muitas delas, ambas. O mesmo se seguiu na carreira solo, embora a psicodelia dos seus discos mais recentes tenha pisado no freio da narrativa mais literal. 

Já no primeiro disco, Bárbara Eugênia cantava sobre “fumar mil cigarros” e “beber coca-cola” enquanto esperava o amor chegar. Desde essa época, foram outros quatro álbuns: É o Que Temos (2013), Aurora (2014) e Frou Frou (2015). E mesmo no último, os ecos narrativos se mantinham: “Nesse tumulto de emoções que se chama ‘eu’ / Quero uma liteira que me carregue para longe do meu coração / Para mantê-lo hermeticamente fechado / Isolado da dor, imune”.

Quando participou da gravação de Dos Pés, para a estreia dela, chamada Journal de Bad, de 2010, Tatá conheceu os músicos que o seguiriam na carreira sem banda, Dustan Gallas e Junior Boca. Em Vida Ventureira, além de Gallas e Boca, a dupla está acompanhada também por Bruno Buarque, Clayton Martin e Lenis Rino. 

Vida Ventureira é ideia de Bárbara, adotada por Tatá logo na primeira chamada. “Eu tinha acabado de gravar Vamos Pro Quarto (o último disco do Cérebro Eletrônico, lançado em 2013)”, conta Tatá, “e topei na hora. Fomos passar uma semana na Fazenda da Serrinha”. 

No local, em Bragança Paulista, cidade do interior de São Paulo onde nasceu Tatá e atualmente mora Bárbara, o novo disco nasceu rápido, eles contam. “Em um dia, já tínhamos criado seis músicas”, lembra ela. “Sempre soube que a gente iria fazer um disco juntos, fluímos muito bem. As inspirações apenas vêm. Elas são orgânicas.” 

Embora exista a reverberação do experimentalismo transcendental, é o pessoal, o tocar em um tema universal – o desejo de partir ao lado de alguém –, a inspiração maior de Vida Ventureira. No centro da narrativa do álbum está um casal recentemente apaixonado.

Juntos, decidem partir, viver a efervescência desse amor pueril na estrada. Por isso, a abertura com brejeira faixa-título, que dá nome ao trabalho. Um rock rural, daqueles que é quase possível sentir a grama pinicando a sola dos pés.

Questionados, separadamente, sobre em quais paisagens enxergam seus personagens, Tatá lembra do interior do País; Bárbara os vê em um bucólico interior norte-americano criado pelo diretor David Lynch. E é possível encarar essa viagem pelas duas óticas. 

Como de praxe na obra de ambos os compositores – que também se dividem nos vocais –, o sol não permanece a pino por muito tempo. Logo, o amor se mostra frágil, desfaz-se. Contar o final da história (feliz ou triste?), porém, é spoiler. 

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