Iara Morselli/ Estadão
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Banquete de sabores russos na Sala São Paulo

Sob regência de Isaac Karabtchevsky e solos de Nikolai Lugansky, Osesp brilhou com Tchaikovski e Rachmaninoff

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2014 | 02h08

O musicólogo inglês David Brown, autor do até agora mais completo estudo sobre Tchaikovski vida-e-obra, afirma, a propósito da primeira sinfonia, que "enquanto um compositor ocidental tende a pensar organicamente, um compositor russo tende a pensar decorativamente, talvez até mesmo em círculos". Assim, e sigo o exemplo dele, enquanto Beethoven em geral parte de temas muito simples e os vai trabalhando de modo cerrado e orgânico, como quem desenrola um novelo de lã, o Tchaikovski desta sinfonia apresenta dois belos temas melódicos no primeiro movimento, cada um com mais de 2 minutos e com total autonomia. Eles modulam e retornam à tonalidade original. O que liga um ao outro é nada. Ou melhor, só um acorde repetido que nada tem a ver com o primeiro ou o segundo. Resumindo: Beethoven e os "compositores ocidentais" (erro de Brown; na verdade, deveria dizer "compositores europeus austrogermânicos") são lógicos, apolíneos; os dionisíacos russos empilham, mal comparando, maravilhosos buquês melódicos, mas tão próximos entre si como a Finlândia está da Patagônia. Por isso sempre foram inimigos íntimos.

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A tese de Brown comprovou-se de modo exemplar no concerto de quinta na Sala São Paulo. Os dois russos nos levaram para banquetes de melodias suntuosas. E, não por acaso, Rachmaninov em seu concerto nº 3 para piano e Tchaikovski na sinfonia nº 1 ensaiaram até efusivas valsas.

Com uma diferença essencial. Rachmaninov possuía grande experiência como compositor. Escreveu o Rach-3 para estrear nos EUA em 1909. Portanto, injetou ainda mais brilho e mais melodias bonitas e sensuais. A ponto de quase concordarmos com Gabriel García Márquez, melômano convicto, quando o colombiano diz que "sua sensibilidade está a poucos centímetros dos boleros tropicais". Tchaikovski era jejuno em 1868, quando escreveu esta sinfonia. O descosimento entre as várias (e belas) flores do buquê é ainda maior do que em obras posteriores. Mas já estão lá a maestria na orquestração, o fino trato da escrita para madeiras, o brilho dos metais e o toque de Midas com as cordas.

O pianista Nikolai Lugansky é um mago. Equilibrou-se neste banquete sonoro feito de faltas & excessos tomando o cuidado de jamais acentuar o que já está escancarado. Sua sobriedade ficou patente até mesmo nos momentos - e eles foram muitos - de virtuosidade absoluta. Perfeitos o refinamento de toque e a adequação com a Osesp - e aí louve-se a regência de Isaac Karabtchevsky. Tudo isso resultou num verdadeiro ponto fora da curva, como todo mundo adora escrever hoje em dia: uma execução de primeiríssima qualidade.

Em Tchaikovski, Karabtchevsky tentou costurar o incosturável, dar organicidade a uma partitura que não a busca. Restaram as encantadoras flores melódicas, suntuoso jardim que o regente visitou tirando o máximo da Osesp. Sabe-se que ele está fazendo a integral das sinfonias de Villa-Lobos em CD com a orquestra. Pois deveria reger mais a orquestra na temporada em repertórios mais desafiadores. Os músicos o respeitam. Tocam com alegria e comprometimento.

SERIA BOM VER O MAESTRO MAIS VEZES DURANTE A TEMPORADA DO GRUPO

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